Entrevista: Selvagens à Procura de Lei lança “Pivete”, disco com 20 músicas, e Gabriel Aragão fala de liberdade, parcerias e estrada

entrevista de Leonardo Vinhas

20 faixas, quase uma hora de duração, uma capa feita com o envolvimento de mais de 40 pessoas… A Selvagens à Procura de Lei não parece estar muito preocupada com os padrões do mercado ou os ditames do marketing para lançar seu novo disco, “Pivete” (2026). E por que deveriam estar? Como diz nessa entrevista o vocalista e guitarrista Gabriel Aragão, não dá para ficar caindo voluntariamente nas armadilhas comerciais. Um disco, antes de tudo, deveria ser sobre música. E esse é o caso de “Pivete“.

Com toneladas de participações (Arnaldo Baptista, Ailton Krenak, Tatá Aeroplano, Soledad, André Frateschi, Nayra Costa, Rodger Rogério, Silvero Pereira, Leo Suricate e Moisés Loureiro), e uma produção poderosa a cargo do próprio Gabriel e do baterista Matheus Brasil, “Pivete” impressiona pela força da sonoridade, pela coesão das ideias dentro de um disco tão plural, e por ir mais fundo na trilha aberta pelo antecessor Y, lançado no ano passado.

Primeiro disco com a nova formação, que conta ainda com o baixista Jonas Rio e o guitarrista Plínio Câmara, “Y” (2025) trazia uma banda mais pesada, direta e concisa – e menos juvenil. Compreensivelmente: 2024 viu a banda rachar, em uma separação difícil que envolveu brigas judiciais pelo nome Selvagens à Procura de Lei, vilipêndio em redes sociais, boataria e o fim de amizades de anos. O esforço de purgar as dores havia resultado em um disco bem mais interessante do que seus quatro antecessores, e essa estética parece ter encontrado uma face melhor definida em “Pivete“.

“Melhor definida”, mas não definitiva. Nessa entrevista, Gabriel Aragão diz que pretende explorar muitos outros caminhos musicais com a banda, e que, se puder, pretende lançar pelo menos um disco por ano. Ao longo de mais de uma hora de conversa, a reboque não apenas de “Pivete”, mas também da memória de duas apresentações marcantes da banda no Festival Casarão 2026, o repórter aproveitou para esmiuçar os conceitos que nortearam várias composições do novo disco, a relação com a estrada, o apaziguamento dos muitos problemas legais e emocionais que vieram com a separação da formação original da banda, os caminhos enganosos do marketing na era do streaming e muito mais.

Por mais que big techs, coaches, CEOs, plataformas de streaming, entusiastas da IA e outras versões modernas do Tinhoso queiram nos fazer crer, nem tudo na vida é (ou deveria ser) comoditizado. As escolhas que os Selvagens à Procura de Lei fizeram para que “Pivete” nascesse – e, especialmente, os resultados delas – são mais uma das provas de que artistas não deveriam ser funcionários da própria fama nem do mercado. Com 15 anos de estrada e depois de ter passado pelo período mais difícil de sua trajetória, os Selvagens se reinventaram e entregaram seu melhor disco até o momento. Tudo resultado de estrada, ensaio, suor e ímpeto criativo. Abaixo, eles falam de tudo isso… e mais.

Logo de cara, chama atenção a duração do disco: “Pivete” tem quase 60 minutos. Chama a atenção não só por causa da atenção dispersa das pessoas, que “pede” discos mais curtos, mas também porque existe hoje essa tendência dos lançamentos espaçados, para sempre ter “conteúdo” sendo lançado. Você claramente não se preocupou com isso. O que fez você sabotar essa estratégia comercial e lançar esse disco do jeito que você imaginou?
Acho que é primeiro pela rebeldia. É tão bom dizer “vou fazer tudo ao contrário do que você está me falando” (risos). Eu já tive muitas reuniões assim. Fui da Universal Music em 2013, e de lá saí para essas distribuidoras que agem como gravadoras hoje em dia – a galera da Ditto Music, que são ótimos, sempre me ajudaram muito. Mas esses caras todos estão envelhecendo, o chefão lá tem idade para ser meu pai, e eles estão tentando se conectar com a juventude para vender um produto, mas eles mesmo não são mais jovens, então é como se fosse o meu pai tentando se conectar com alguém que tem 19 anos de idade. Eu mesmo tenho essa dificuldade, então vou fazer o que eu sei fazer e ponto final. Quando foi para lançar o “Y”, eu queria fazer um disco maior para botar muita ideia para fora. E nesses papos com distribuidoras, eles sempre me diziam que essa não era a melhor coisa a se fazer. Uma música como essa que fiz com o Ailton Krenak (“Guerra”), com uma fala dele, sem ser cantada… O papo com a distribuidora é “pô, bicho, é complicado, usar uma das 10 faixas assim não é bom, você vai queimar ficha. É bom a gente ter singles em potencial”. Mas cara, estou querendo fazer 20 faixas! “Ah, então vamos dividir em ‘parte um’ e ‘parte dois’, é melhor e você fica de boa para 2027’. Mas aí fica aquela sensação de um disco mutilado! E tem aquela frase, “se não agora, quando?” Não dá para ficar nessa de “quando eu atingir tal nível da carreira, eu vou finalmente virar o Radiohead e fazer só o que eu quero fazer”. Se ficar nessa, você fica sempre caindo nessas armadilhas comerciais. E na verdade, a gente está na melhor fase para fazer o que se quer. Acho que a gente tem que ser nichado mesmo, quanto mais nichado melhor, porque você fica mais livre desses preconceitos. Olha os Boogarins: eu acho tão bonita a carreira deles!

Você disse em outras ocasiões que também resgatou coisas antigas para esse disco. Isso me surpreendeu, porque a linguagem que a banda tem hoje é bem diferente da que tinha antes, e fico pensando como essas músicas chegaram aqui com essa cara de música nova… Porque parecem todas da mesma safra.
Tem coisas que eram [da época] do “Paraíso Portátil” (2019) e que entraram no meu disco solo. Aliás, eu nunca tive a intenção de fazer carreira solo, fiz por uma necessidade de colocar as músicas para fora, porque os caras [da antiga formação] não queriam gravar essas coisas no disco e tal. “Cidade Baixa” eu fiz pro “Paraíso Portátil”. os caras não entenderam a música e a gente acabou não gravando. Eu queria muito que ela tivesse saído naquele momento turbulento do país. Tudo no meu disco solo – que foi gravado em 2022 e lançado em 2023 – tem esse ar de que eu estava tentando não ser Selvagens, a produção com o [Marcelo] Camelo, o violãozinho de nylon… Eu fiquei dois meses lá em Lisboa na casa de um amigo para poder gravar esse disco no meio da pandemia. E estando lá, nessa função, eu compus muita coisa com essa intenção. Então, foram surgindo músicas que acabaram não entrando, como “Revoada” e “Hey Tatá!”, que não tem absolutamente nada a ver com a versão do “Pivete”, era no nylonzinho, super delicada (risos). “Revoada” também, era um breguinha no violão de nylon…

Curioso saber que “Revoada” nasceu nesse contexto, porque ela tem mesmo uma grande influência de Los Hermanos na melodia…
É que eu nunca tive essa coisa de tentar definir o que é o Selvagens. Claro, é uma banda de rock, mas eu adoro, por exemplo, o Led Zeppelin tocando aquela música meio reggae deles… Qual o nome mesmo?

“D’yer Maker”.
Isso. Mas é uma banda de rock tocando reggae, sabe? Aquela bateria descendo o cacete e tal. Eu gosto muito disso. “Ah, ‘Revoada’ é meio brega? Sim, mas vamos tocar rock aqui”. E tem esse esse quê de Los Hermanos, também. Mas enfim, eu tinha muita coisa guardada: essas duas dessa época, “Cidade Baixa”, que eu gravei no disco solo, mas que sempre foi para ser dos Selvagens. “Loka América”, que era para ser aquilo desde o começo. Essa história de gravar com o Ailton Krenak também é algo que estou há muito tempo tentando. Há anos converso com o [músico e produtor] Guilherme Kastrup, ele tem uns discos que ele soltou e que me inspiraram muito, um deles em especial. É um em que tem uma faixa em que ele usa uma fala do filósofo americano Noam Chomsky (nota: “Reaction”, do álbum “Ponto de Mutação”). Eu queria fazer igual com o Krenak, mas eu pensava que ele seria meio inalcançável, né? (risos) Gosto tanto dele que parecia muito acima do meu nível. Fiquei tentando chegar até ele por anos através dos meus contatos da galera da cultura cearense, secretários, enfim, pessoal mais da política mesmo – olhando para trás, não me pareceu a maneira correta de chegar (pausa). Eu já estava para desistir quando o Guilherme falou:”Cara, constrói a música, usa a fala dele. Eu fiz assim com o Chomsky: fiz a música inteira, entrei em contato com ele e pedi para liberar. Faz isso, e se o Krenak não liberar, você tem a música pronta, troca, põe outra pessoa, pelo menos você já tem alguma coisa pronta” (risos). Fiz exatamente isso (com “Guerra”). Fui no Instagram dele, tinha lá o e-mail de contato, mandei, no outro dia ele respondeu, bem gente boa, da maneira mais simples possível: “Cara, adorei a música, está tudo liberado, me mande aqui os termos para assinar”. Ele foi muito, muito gentil. Depois  fui ver no Spotify, se você quiser dar uma olhada também, mas é engraçado (ri)… Com todo respeito, claro, a quem já usou falas do Krenak, mas a galera usou falas muito pacíficas, umas músicas quase de yoga, sabe? (risos) Ele falando “a natureza, temos que respeitar…” A gente foi pra fala mais porrada dele, e eu fiquei muito feliz de colocar para fora essa ideia muito antiga que veio a calhar nesse quebra-cabeça que é fazer um disco novo.

Os Selvagens sempre tiveram uma abordagem política em algumas canções, mas sinto que do “Y” em diante você ficou mais direto nas letras – não só nas mais políticas, mas principalmente nelas. Você acha que o processo difícil da feitura do “Y” acabou deixando você mais solto para ser mais direto?
Sim. Antes eu tinha que negociar muito. A sensação que eu tinha era de ter que falar sobre esses temas, mas o resto da banda tinha medo, vinha com aquele papo furado de “ai, meu Deus, vai dividir o público”… Quer dizer, quem sou eu para letrar alguém, mas na pequena posição em que eu estava, parecia que era preciso falar sobre certas coisas, se posicionar. Pô, banda de rock, né? Mas sim, fiquei mais direto depois de passar por essa doidice de rede social, de parecer que tem um mar de pessoas querendo te cancelar e na verdade não tem nada disso, são só umas poucas pessoas sentadas no sofá sem ter o que fazer. Ao mesmo tempo, acho a sutileza uma coisa muito linda. Inclusive, acho que o próximo disco vai ser o contrário dessa coisa muito direta. Deve ser talvez o disco mais sutil. Eu estava ouvindo muito o “Álbum Branco” dos Beatles – um disco grande, banda fazendo o que deu na telha, mas com uns momentos muito bonitos. Pô, “Across the Universe” é linda, um poema muito doido, muito abstrato… No “Pivete” tem coisas pessoais, mas ele é mais “pra fora”. O “Y” sou eu dentro desse quarto fechado aqui, e o “Pivete” é pra fora.

Até porque ele foi feito na estrada, em grande parte, não?
Sim, tem um pouco disso. Por exemplo, tem muitas músicas que eu lembro de onde a gente estava quando fez. “Você Ama me Odiar”, “Cascadura”, elas foram feitas em Goiânia, ainda com resquícios do “Y”, de momentos difíceis e dessa coisa de internet, [do ódio das] redes sociais. Fomos tocar depois em Brasília, ficamos uns dias lá, e aí foi inevitável: o fã de Renato Russo aqui (risos) foi lá e fez “Quem Eles São?” (canta um trecho, empostando a voz como o finado líder da Legião Urbana). Logo depois a gente foi para São Paulo e fez “Trem Doido”, que é aquela confusão do Centro, onde tudo acontece. “Pivete”, a música, também foi feita ali, e foi lá que a gente pensou que podia ser um bom nome pro disco. Até então, o nome era “Impressão Sua” (expressão repetida na faixa “Eu Não Moro Mais Aqui”).

Bom nome!
É, adorei esse nome. Mas “Pivete” me ganhou também. É uma palavra que aqui em Fortaleza não tem esse significado meio marginal que tem no Sul e no Sudeste. Aqui é muito natural: “quando eu era criança” é “quando eu era pivete”, Se eu for pegar meu filho na escola, vou falar assim: “Pô, bicho, dá licença que eu vou pegar meu pivete no colégio.” A gente escolheu a palavra por essas coisas da nostalgia e da vida urbana.

É uma coisa de rua, né? Aliás, a rua está muito presente no disco – nas letras e na capa, com essa coisa diretamente urbana, praça, as pessoas interagindo – uma coisa que está se perdendo, aliás.
Então, é um disco muito “na cidade”. E a capa… foi uma saga fazer essa capa, bicho (risos). Meio mundo estava falando para fazer colagem e a gente já descartou de cara. IA a gente já tinha dito que não ia usar de jeito nenhum. Eu queria muito a vibe de foto – remetendo a essa dificuldade de fazer [a capa de] um “Sgt. Pepper’s”…, um “Tropicália”. Umas 40 pessoas participaram dessa foto, entre quem está na cena, os figurantes e a galera por trás: fotógrafo, designer, o caramba. Mas foi muito especial, foi bem legal.

A arte da capa de “Pivete”, da Selvagens à Procura de Lei

E você diria que as todas as questões pessoais e emocionais que foram expostas e trabalhadas no “Y’ estão resolvidas agora dentro de você? Porque foi praticamente uma terapia aberta, em público. Está mais apaziguado agora?
Está, sim. Tem um pouquinho disso ainda no “Pivete”, “Você Ama me Odiar” veio bem por causa da coisa de internet, das redes sociais. “Cascadura” eu fiz porque a primeira entrevista do “Y” era para um podcast daqui de Fortaleza, na Beach Park FM, e foi censurada. Eu gravei, e pessoas ligadas aos antigos integrantes conseguiram censurar minha participação. Ainda tem umas coisas que eu coloquei para fora assim no ‘Pivete”, mas foram as primeiras que eu compus. Depois vieram mais 18 faixas né? Eu acho que já foi, essa história está se encaminhando para um final.

A formação atual excursionou bastante com o “Y”. Podemos dizer que agora o entrosamento é de uma banda mesmo? Claro, você continua sendo o compositor principal e frontman, mas tendo visto alguns shows dessa nova formação e depois ouvindo o disco, me parece que tem uma contribuição real dos novos integrantes, em especial do “Plínio”.
Tem muito a minha mão na parte conceitual. É mais ou menos assim: eu componho a música, imagino o conceito do disco, o nome, etc. mas gosto de deixar as pessoas muito livres na hora do arranjo. Não fico me metendo muito, não. Dou minha opinião, “pô, gostei desse caminho”, mas gosto de deixar a pessoa livre pra fazer do jeito que ela imaginou, pelo menos na primeira impressão, porque surgem coisas boas a partir daí. Na hora dos arranjos, solto um pouquinho mais a mão. E é um disco muito coletivo, ou “galeroso”, como disse o Plínio (risos). Isso não só pelos feats, mas pela participação dos outros músicos. A gente pegou uma intimidade muito grande tocando nessa turnê do “Y”. A gente botou a cara no mundo, praticamente toda turnê foi na bilheteria, com exceção de uns dois shows no ano passado, tudo na cara e na coragem. Por isso a gente ficou muito grudado, e quando o ano acabou, eu fiquei com a sensação de que a gente tocava junto há uns três, quatro anos. A química bateu legal. É engraçado que a gente gravou o DVD [ainda não lançado, registrando a apresentação de 13 de dezembro no Anfiteatro do Dragão do Mar, em Fortaleza] e na sequência fomos todos para uma manifestação contra a escala 6×1. Foi a primeira vez que teve os Selvagens numa manifestação, até então era só eu, Gabriel. Achei massa isso! A gente estava lá, o Léo Suricate subiu, a gente ia tocando as músicas e o Léo fazendo intervenções no meio. Daí surgiu a ideia de “Dia de Rua”.

E como você está imaginando o ritmo para a turnê do “Pivete”? Vai ser na mesma pegada?
A gente começou agora uma caminhada com a galera da Urban Jungle, do André Bourgeois, que trabalhou por muitos anos com Céu, Liniker, e que atualmente está com Boogarins e com a gente. A gente deu uma segurada em shows neste ano para não rodar tanto em bilheteria como foi na turnê anterior. Fizemos os shows do Festival Casarão e alguns outros, mas estamos segurando, até porque foi muito custoso fazer esse disco. Massa lançar um disco de 20 faixas, mas dá trabalho, velho! (risos) Os custos todos dobrados, de tudo. E eu sou meio maluco, quando me dá a ideia, eu não consigo economizar muito, não. Mas é muito prazeroso, uma coisa que fica pro resto da vida. Tem que botar para foder quando você vai fazer o disco. Se não for assim, é melhor melhor nem começar. Mas a gente está se organizando pro ano que vem mergulhar na estrada de um jeito melhor, tentando voltar pros festivais de maneira mais incisiva. Independente disso vou tentar colar nas cidades. Foi muito bom ter passado no Casarão, porque se não fosse um festival desses talvez a gente não conseguisse ir tocar no Norte, por causa da logística. Faz tempo que eu não vou pra Belém. Se depender de um festival, é um que talvez aconteça no final do ano, mas se não rolar, estou querendo muito encarar, fazendo por bilheta mesmo. Estou querendo topar ideias assim, sabe, porque senão você acaba virando banda de Sesc, coisa que eu nunca fui, embora eu goste de tocar lá. É muito confortável tocar no Sesc, mas estou querendo voltar a buscar esses teatros das cidades, tocar por bilheteria… Vamos ter shows, sim, mas turnê grande mesmo, só a partir de novembro. Mas o show em si ainda está numa transição, ainda é o show do “Y” com com músicas do “Pivete”…

Como montar um setlist para acomodar tudo o que o público quer ouvir com 20 faixas novas para apresentar? (risos)
Pois é, bicho. Estou desesperado (risos). Como é que faço isso? (risos) Recentemente tocamos em BH, fizemos dois Sescs, e também duas cidades na Paraíba. Em BH e em São Paulo a gente não tocou “Pra Recomeçar”, e uma galera ficou puta (risos) “Como não tocaram?” Eu respondi, “não, bicho, a banda já recomeçou, não tem mais muito esse significado pra nós”, e o cara “mas pra mim, ‘Pra Recomeçar’ é outra coisa, eu vivi isso e aquilo”. A música não tem a ver comigo mais, o público dá o significado dele. Aí tocamos na Paraíba e porra, musicão, né? (risos) Não dá para deixar de fora, não. Mas tá difícil fazer esse setlist. Eu ainda não sei o que vai acontecer. Em setembro vamos gravar um ao vivo no estúdio, tocando o “Pivete” do começo ao fim. Querendo ou não, a gente vai ensaiar muito e isso vai ditar um pouco a relação com essas músicas no palco – o prazer de tocar ao vivo, sabe?

E para quem vocês tocam? Ou, sendo mais específico: quem é o público do Selvagens hoje? Porque vocês nasceram em um período meio de entressafra, de transição: o índie já estava meio disperso e não era mais tão roqueiro, vocês vinham do underground mas lançam o primeiro disco pela Universal, mas as rádios já mais fechadas, a MTV à beira da morte… Mas se vocês estão nessa há 15 anos, é óbvio que tem muita gente querendo ouvir. Então a pergunta não é de “target de marketing”, mas sim de querer entender mesmo com quem vocês falam hoje em dia. Me surpreendeu no Casarão a quantidade de pessoas bem jovens – tipo, 20 anos e até menos – que sabia cantar todas as músicas.
Cara, [o público] mudou muito essa volta da banda. Me surpreendeu demais, porque quando a gente marcou a turnê do ano passado, depois de tudo que rolou, a gente não sabia como ia ser. E, de novo, tudo na bilheteria. E deu certo. Em todo show do ano passado eu perguntava [ao público]: “quem tá vendo a gente pela primeira vez?” Cara, 70% tava vendo um show do Selvagens pela primeira vez, e eu fiquei refletindo sobre isso. Acho que a pandemia aconteceu. Essa galera muito nova que gosta da gente são pessoas que possivelmente ficaram independentes financeiramente na pandemia, se tornaram jovens adultos, e escutavam Selvagens desde cedo. Muita gente falou assim: “meu irmão mais velho escutava demais”. E essas pessoas hoje têm 20, 20 e poucos anos, estão com um pouquinho de poder aquisitivo e conseguem sair. E é uma galera com muita vontade de sair de casa. Imagina você fazer 18 anos de idade num pandemia, aquele período todo… Porra! Não deve ter sido fácil, não.

Vocês gravaram “Não Estou nem Aí” para essa homenagem ao 68 anos de Arnaldo Baptista com regravações de muitos outros artistas, e ele também está em “Pivete”. Como foi gravar com ele?
Foi ótimo. Eu estava esperando o momento, desde o “Praieiro” (2016) que eu espero por esse contato. Em “O Amor é Um Rock 2”, eu falo “esse rock vai para Tom Zé, Raul Seixas e Arnaldo Baptista”. Ano passado consegui entrar em contato e deu certo. Eu não estive presente durante a gravação, terceirizei a pro Juliano Rosa, filho do Samuel. Ele está com um estúdio novo em BH – o Arnaldo está morando lá – e fez a gravação. Mas a gente tocou em BH há algumas semanas e a gente conseguiu estar com ele, e foi maravilhoso. Minha primeira intenção pro Arnaldo era ele ter feito a introdução de “Trem Doido”. que virou “Manual do Jogo da Vida” (que acabou sendo feita por Moisés Loureiro), mas era muito texto para ele ler. Mas já que é um disco doidão (risos), onde tudo pode ser, vamos fazer que nem o final do Sgt. Pepper’s…, e meter um “Trem Doido Reprise” (risos), que vai ser a penúltima faixa, bem rápida. A gente inventou essa história com ele: pianão, uma nota só, a gente gravando todo o resto, ele falando “nesse trem doido” e a gente respondendo. Ele se divertiu pra caramba: fez “piuíii”, pediu mais phaser na voz… (risos) Foi super divertido.

Ouvindo isso tudo que falamos até aqui, passa uma impressão muito forte de que parece ter se sentido livre nesse disco como não se sentiu em nenhum outro…
Tem que ser assim, porque do contrário não faz o menor sentido, né, bicho? É melhor largar tudo, passar no concurso público, sei lá. O Tatá [Aeroplano] também me ajudou muito a entender isso, aprendo muito com ele como ser um artista independente. O Tagore também, ele é um cara que parece já ter na cabeça os próximos três, quatro discos que quer fazer. Eu sentia falta dessa liberdade, porque sei que essa vontade sempre existiu dentro de mim, mas acabei entrando na lógica da gravadora. Tínhamos um disco pronto e que só foi lançado um ano depois. Aquilo me deixou maluco: ter que seguir o prazo dos outros. Agora, estando independente e conseguindo produzir o disco por conta própria, junto com o Mateus e os meninos da banda, tudo tem sido muito mais frutífero. Estou gostando muito dessa possibilidade. Não vejo problema nenhum em lançar um disco por ano. E talvez a gente possa até fazer uma turnê de um disco e, depois, pensar em algo completamente diferente. Tenho vontade de fazer uma coisa como o Radiohead fez com “In Rainbows”: acabar o contrato com a gravadora, lançar o disco de uma maneira inesperada, quase na contramão do modelo tradicional. Em vez de passar três meses preparando o lançamento, poderíamos anunciar numa segunda-feira que na sexta tem disco novo. É totalmente antimarketing, mas talvez justamente por isso seja um marketing bom. Gosto da ideia de ir contra o modelo que inventaram para a gente. No fim, ninguém tem a resposta sobre qual é o melhor caminho. Até que alguém faz alguma coisa diferente, dá certo e, então, aquilo passa a ser considerado o novo modelo. Cada artista tem suas decisões. O importante é ter consciência do caminho que você quer trilhar e do que quer entregar artisticamente. Eu quero detonar. Quero fazer turnês cada vez maiores, porque adoro tocar ao vivo. Ao mesmo tempo, quero cada vez mais conforto na estrada. Turnê é difícil, então não precisa ser tudo feito de qualquer jeito. Mas meu grande sonho hoje é lançar um disco por ano. Eu falo isso e todo mundo na banda fica maluco: “Você quer lançar um disco ano que vem? Acabou de lançar um monte de músicas!”.

Não outro com 20 músicas, imagino (risos).
Não! (risos) Não necessariamente quero fazer um disco enorme, mas quero me esforçar para que todo mês de agosto seja um período de produção. Já estou com um caderno cheio de letras e pedaços de músicas. E não é uma questão de querer lançar discos em sequência por uma razão comercial. Na verdade, é uma forma de me libertar artisticamente.Eu sou muito controlador. Não sou uma pessoa do improviso, não penso rápido, não sou aquele cara que consegue dar uma resposta imediatamente ou fazer um solo de guitarra de repente. Preciso ir para casa e pensar com calma no que vou compor. Se você me der dois anos para fazer um disco, provavelmente vou querer colocar nele o melhor de tudo que produzi nesse período, e muita coisa vai acabar ficando de fora. Algumas ideias, que poderiam virar um disco mais espontâneo, irão eternamente para a gaveta. Por isso, lançar um disco por ano, para mim, é uma maneira de chegar mais perto do improviso. Tenho essas músicas aqui, algumas vão ser mais fortes, outras vão ficar como lados B, e tudo bem. Não acho que um lado B seja necessariamente algo ruim. Penso muito nos grandes artistas dos anos 1960 e 1970, que lançavam praticamente um disco por ano. Havia uma música mais comercial, uma música de trabalho, mas também existia espaço para abstrações, experimentações e coisas diferentes. É isso que me interessa. Gosto muito do King Gizzard, que chega ao extremo de lançar vários discos em um ano. Não sou eles, evidentemente, mas, se pudesse fazer pelo menos um disco por ano, eu adoraria.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.

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