textos de Jorge Wagner

“Gomorra: A história real de um jornalista infiltrado na violenta máfia napolitana”, de Roberto Saviano (Editora Record)
Vinte anos depois de sua publicação original, “Gomorra”, sucesso do periodista e escritor italiano Roberto Saviano, voltou às livrarias brasileiras em agosto, em nova edição da Record com prefácio comemorativo e tradução de Elaine Niccolai. Best-seller internacional com mais de 10 milhões de exemplares vendidos, o livro que transformou a Camorra napolitana em assunto mundial segue impressionante justamente por não se limitar ao óbvio: mais do que tráfico de drogas e assassinatos entre clãs, o que Saviano expõe é um sistema. Durante cerca de cinco anos, ele investigou a organização criminosa na região da Campânia e reuniu histórias que vão das guerras entre famílias e da circulação de armas à indústria da moda, ao mercado imobiliário e ao descarte de lixo — há espaço até para Angelina Jolie, cujo terno usado num tapete vermelho saiu de uma fábrica clandestina ligada à organização. O resultado é uma máfia profundamente integrada à economia legal e ao cotidiano, não paralela a ele. A reportagem também mostra como o cinema alimentou o imaginário dos próprios criminosos, inclusive a partir dos filmes de Quentin Tarantino. Publicado, adaptado para o cinema — vencedor do Grand Prix em Cannes — e depois transformado em série, “Gomorra” rendeu ao autor uma consequência bem mais séria do que qualquer prêmio: ameaçado de morte, Saviano vive sob escolta desde então. A nova edição é a chance de reencontrar um livro que segue atual porque sua história nunca foi só sobre a máfia — essa organização eventualmente mais ética que muitos juízes por aí, como disse um certo ministro do STF recentemente.

“Os Armários Vazios”, de Annie Ernaux (Fósforo)
Com nova edição pela Fósforo, lançada no último mês de agosto com tradução de Mariana Delfini, “Os Armários Vazios” traz de volta às livrarias o primeiro romance de Annie Ernaux, lançado originalmente em 1974, cinquenta anos antes de a autora ser laureada com o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra. É uma oportunidade de reencontrar uma escritora que viria a se tornar um dos grandes nomes da literatura contemporânea quando esta ainda se encontrava em formação, mas já tinha um caminho bem claro quanto àquilo que queria fazer. Nas páginas, lemos a história de Denise Lesur, uma jovem de origem operária que acaba de realizar um aborto clandestino, se pondo em seguida a lembrar de sua vida, inicialmente marcada pela divisão entre o ambiente familiar e o mundo escolar e pela tomada de consciência, aos poucos, das diferenças sociais que separam esses ambientes. Ao revisitar a infância e a adolescência, Denise rememora a relação ambígua com os pais, a descoberta da sexualidade, o desejo de ascensão social e a vergonha de sua origem, num relato marcado por medo, solidão e limitações impostas às mulheres. Em seu romance de estreia, Ernaux passa ao leitor a sensação de ler algo que não deveria ser lido, um diário particular e íntimo, enquanto articula memória pessoal e questões de classe e de gênero — algo que continuaria a fazer pelas décadas seguintes.

“Psicopata Vitoriana”, de Virginia Feito (DarkSide Books)
Talvez para aliviar a tensão de mexer com o que há de pior na maldade humana, não é raro que filmes, séries e livros sobre psicopatas, assassinos seriais e que tais temperem suas narrativas com pitadas de humor. Sem isso, devem pensar seus criadores, o público estaria resumido a um bando sádico que se diverte assistindo Datena enquanto toma café. Há sempre um risco nessa estratégia, no entanto: o de descambar para a galhofa, perdendo a mão no que deveria ser uma obra de suspense ou de horror, sem, contudo, ter a coragem de se assumir como uma obra de humor, de pura avacalhação — como na série “You” e suas infinitas temporadas. Gracejos à parte, “Psicopata Vitoriana” (“Victorian Psycho”), da espanhola Virginia Feito, que ganhou edição brasileira via DarkSide Books (2026) com tradução de Cristina Lasaitis, escapa do potencial problema, mesclando horror gótico e humor grotesco e sendo engraçado sem ser ridículo, nos fazendo rir de uma ou outra declaração enquanto, quando menos esperamos, nos coloca diante de uma boa dose de sangue. Na Inglaterra de 1858, Winifred Notty chega à isolada Ensor House para trabalhar como governanta dos filhos de uma família abastada. Educada, disciplinada e aparentemente irrepreensível, ela esconde uma personalidade perturbadora e uma atração irresistível pela violência. Pouco confiável — inclusive para quem a lê —, Winifred desliza pelas sombras da mansão, responsável por uma série de desaparecimentos enquanto revela, aos poucos, suas verdadeiras intenções. Adaptado para o cinema com direção de Zachary Wigon e roteiro da própria Virginia Feito — o que dá ao longa alguma possibilidade de reproduzir, em tela, os méritos que tem em suas páginas — “Psicopata Vitoriana” tem previsão de estreia no Brasil para 3 de dezembro. Estrelado por Maika Monroe — uma das queridinhas do gênero —, Jason Isaacs, Ruth Wilson e Thomasin McKenzie, o longa teve sua première em Cannes, na mostra Un Certain Regard, e vem recebendo críticas predominantemente positivas no circuito especializado. Fique de olho.
– Jorge Wagner é jornalista, produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell. Lançou em 2023 o álbum “Toda Forma de Adeus“.
