50ª Mostra SP: Vencedor da Palma de Ouro em Cannes 2026, “Fjord” é um drama com cheiro de thriller

texto de Leandro Luz

Elemento emblemático da paisagem norueguesa, um fiorde é formado, grosso modo, por antigas geleiras que derreteram e deslizaram por grandes montanhas ou encostas rochosas, esculpindo, assim, vales profundos. O fiorde onipresente nessa história de suspeições – e que batiza o filme de Cristian Mungiu -, protagoniza três cenas reveladoras: a primeira é mais branda e mostra três adolescentes “roubando” um barco; a segunda é chocante e mostra um homem caindo inesperadamente no braço de mar; a terceira é um milagre.

“Fjord” (Cristian Mungiu, 2026) acompanha a família Gheorghiu que acaba de se mudar de Bucareste, na Romênia, para uma pequena vila na Noruega. Uma paisagem dura e melancólica combinada com um tom de cordialidade que até lembra as artimanhas de um filme de terror. Sebastian Stan é Mihai, o patriarca romeno, e Renate Reinsve é Lisbet, sua esposa norueguesa. Neste caso, o horror está na burocracia do Estado, como podemos perceber no instante em que o filme assume a sua verdadeira face. O horror está também na contiguidade dos jardins e das cercas entre vizinhos. O problema, entretanto, é que Mungiu não está disposto a mergulhar em um filme de terror.

O vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes em 2026 é um drama com um cheiro de thriller, operação que soa familiar em filmes que querem gritar aos quatro ventos a sua importância e almejar por um prêmio relevante – reparem como há um padrão nos últimos anos em Cannes, com resultados melhores ou piores: “Foi Apenas um Acidente” (“Yek tasadof-e sadeh”, Jafar Panahi, 2025), “Anatomia de uma Queda” (“Anatomie d’une chute”, Justine Triet, 2023) e “Triângulo da Tristeza” (“Triangle of Sadness”, Ruben Östlund, 2022); todos misturam gêneros e variam o tom para conquistar o seu público, mas possuem mensagens muito tangíveis e temáticas cuidadosamente delineadas, cada um ao gosto do freguês (escolha o seu, caro leitor).

Esta é a segunda Palma de Ouro vencida por Cristian Mungiu, que tornou-se o décimo cineasta a realizar tal feito (ao lado de nomes como Coppola, Imamura, Haneke, Dardenne, Loach, entre outros). A primeira foi há 19 anos com “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (“4 luni, 3 saptamâni si 2 zile”, Cristian Mungiu, 2007), aquele da mulher que faz um aborto ilegal em uma Romênia decadente da década de 1980. Mungiu não é um cineasta dado a sutilezas. Em determinada cena em “Fjord”, vemos uma gigante bandeira da Noruega balançando na janela atrás de uma personagem que vive um dilema crucial. Uma mensagem inequívoca que aplaina mais do que deveria o discurso e a linguagem do filme.

Em “Fjord”, Mungiu escolhe retratar esse casal e seus cinco filhos de forma aparentemente contida, fazendo com que a primeira metade do filme seja bem mais interessante do que a segunda. Primeiro, o espectador é jogado nessa Noruega provinciana junto com a família de imigrantes. Rapidamente nos identificamos com esses personagens, e as crianças são boa parte responsáveis por isso. O pulo do gato, ou seja, a maneira com a qual o filme tenta se desvencilhar de uma lógica de identificação simples, por outro lado, é por meio do aspecto religioso. Católicos fervorosos, os integrantes da família Gheorghiu rezam todos os dias, se reúnem em comunidade aos domingos, seja na igreja ou em casa, e discretamente buscam catequizar todos aqueles que ignoram os princípios da fé cristã, a saber, todas as demais pessoas da cidade, orgulhosamente agnósticas ou ateias, fruto de um Estado laico bem consolidado.

Quando a filha mais velha do casal aparece na escola com alguns hematomas no pescoço, rapidamente uma espécie de conselho tutelar é acionada pelos professores da escola. Na segunda parte do filme, logicamente, Mihai e Lisbet precisarão enfrentar o “cruel e frio sistema judiciário norueguês” para provar que nunca fizeram nada com os filhos além de corrigi-los com eventuais “palmadinhas no bumbum”. Pronto, ergue-se um ponto crucial de debate, tão almejado pelo filme desde o início: os Gheorghiu realmente maltratam os filhos ou sofrem injustamente de perseguição religiosa?

Mungiu faz questão de esconder toda e qualquer informação que situaria melhor o espectador diante dos fatos, deixando-o apto a encarar de frente um debate legítimo. Demonstra covardia ao conceder maior importância ao bobo mistério do que às próprias questões morais e éticas que se impõem. Daí a fragilidade do filme se revela. O diretor e roteirista ignora que a própria dinâmica na vizinhança, por si só, já seria uma poderosa faísca para um bom filme. Sem contar a relação da filha mais velha dos Gheorghiu com a filha dos vizinhos, e em como esse afeto entre as duas gera desconforto para ambas as famílias (quando progressistas e conservadores se tornam igualmente reacionários).

A autoimportância em “Fjord” acaba com boa parte de suas qualidades. Apesar de afobado e insidioso, Mungiu consegue trazer impacto na maneira como filma tanto os espaços internos das casas e da escola quanto os externos com as montanhas e, claro, o fiorde que ronda toda a geografia local. A avalanche iminente que ronda a vila, aliás, sempre controlada, ganha contornos bastante óbvios, um reflexo do “sangue frio de uma nação”. Quando apenas observa, se sai melhor.

Baseada em uma história real, é uma obra que vai continuar seduzindo as pessoas pelo que ela convoca a discutir, mesmo que opte por minar a potencialidade da conversa em função de escolhas narrativas fúteis. O último plano do representante da Romênia para concorrer ao Oscar de 2027, o milagre citado no início deste texto (que não precisa ser revelado para quem ainda não assistiu) é um forte indício deste argumento. Elege-se o eletrizante, as respostas fáceis, o caminho mais desconcertante em detrimento da construção meticulosa e gradativa de um desconforto social generalizado. Resta a “Fjord” andar sobre as próprias águas densas e salgadas para tentar se salvar de sua insensatez.

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