Alexandre Fritzen: “O Brasil é grande demais para ter um comportamento de consumo musical padronizado”

entrevista de Leonardo Vinhas

Para Alexandre Fritzen da Rocha, música é objeto de estudo, meio de vida, prazer artístico e desafio. Equilibra carreira solo, banda, diversos projetos e carreira acadêmica – é mestre em Práticas Interpretativas e doutor em órgão pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Na música, vai da ambient music ao erudito, passando pelo rock progressivo, lo-fi, trilhas sonoras e rock com um pézinho no progressivo (com a banda Dora Avante), e já foi arranjador das Meninas Cantoras de Nova Petrópolis, um dos projetos mais ousados de canto contemporâneo, que também foi destaque aqui no Scream & Yell.

Fritzen estava voltando de uma pequena turnê por Espanha e Portugal quando falou por videochamada com o Scream & Yell. Não era sua primeira experiência internacional: já havia passado por Argentina, França, Letônia, Uruguai e a própria Espanha anteriormente. Sua discografia soma mais de dez álbuns, entre projetos solo, com banda ou sob outros codinomes – como o Vakyr, seu projeto lo-fi, além de colaborações com outros artistas, entre elas a também gaúcha Carmen Correa, com quem fez o álbum “Do Outro Lado” (2017).

A lista poderia continuar, incluindo projetos como Camerata Brasileira, Coletivo de Música Popular da UFRGS, Coral da UFRGS, Coral de Cantoras de Bom Princípio, Coro Juvenil do Moinho/UCS, Grupo Vocal Mandrialis, Madrigal Presto, Renascentes e Rotalunar, além das muitas trilhas para teatro, dança, videogames e cinema. Mas é justamente dessa pluralidade que trata a entrevista a seguir, uma conversa para entender como os caminhos criativos tão diversos convivem com as necessidades de se manter em uma carreira integralmente dedicada à música em um cenário cada vez mais complexo e árido para quem vive da própria sonoridade.

 

Você tem uma carreira tanto acadêmica quanto autoral, e ambas parecem estar bastante interligadas. O que norteia seu trabalho de criação musical, para além da questão estética? E onde ele se conecta com seu trabalho de pesquisa?
Acho que, desde cedo, minha formação foi dentro do campo da música de concerto. Com cinco anos comecei a estudar piano, num conservatório mesmo, passei aqueles 12 anos de conservatório e depois entrei na universidade. Mas, junto disso, sempre tive interesse pelas práticas da música popular, embora não tivesse isso na minha formação. Tive isso na minha prática. Fui ter banda com 14 anos, inclusive com caras que tinham 40 e poucos anos na época, então essa diferença de idade acabou sendo uma escola para mim. Comecei compondo canção, mas fui para um curso de bacharelado em composição, onde aprendi a compor música de concerto. Então, as duas coisas foram caminhando paralelamente. Logo no início da minha formação universitária surgiu um convite para fazer uma trilha sonora de teatro, dirigida pela Fernanda Pacini, cujo argumento era baseado na peça “As Moscas”, do Sartre. Ali foi um campo de muita experimentação. Essa primeira trilha que fiz era de música eletroacústica, bem áspera, com uma linguagem atonal. Paralelamente, eu fazia canção popular com um projeto que tinha na época. Então, dentro da minha produção composicional, existe uma parte que é mais demanda de encomenda, como a trilha sonora, que acaba sendo uma música para outra coisa, embora possa existir também por si só. E existe a música que faço mais naturalmente, como uma expressão mais livre.

E você não se prende muito a uma estética específica.
Não mesmo. Não me amarro muito numa estética fechada. Não me preocupo com o nicho. Me preocupo em expressar o que estou sentindo artisticamente naquele momento. E, como passei por muitos gêneros musicais diferentes, é natural que apareça um pouco de música experimental contemporânea, canção popular brasileira, rock progressivo, pop e também música mais tradicional, mais próxima da música clássica.

Isso me chamou atenção quando estava organizando a entrevista. Conheci seu trabalho inicialmente pelas Meninas Cantoras e depois fui descobrindo as coisas que você fazia como solista, como regente. Há influências muito diferentes convivendo nesses trabalhos – já flagrei de barroco a trip hop (risos). Como aquilo que você ouve como ouvinte se filtra — ou não se filtra — naquilo que você produz?
Tudo que você escuta acaba influenciando. Eu ainda sou daquela época em que era muito difícil conseguir acesso à música. Vim do interior do interior (risos), morava na zona rural de uma cidade de 23 mil habitantes do interior do Rio Grande do Sul. Não existia a possibilidade de simplesmente ir a uma loja de discos e comprar música. Quando ia a Porto Alegre, tinha algum acesso, mas os discos eram caros. Só fui ter internet em casa em 2008. Quando entrei na universidade, comecei a ter acesso a CDs, partituras e aos álbuns que alguns amigos tinham. E, ao mesmo tempo, eu já estava fazendo música. Na academia existe uma tendência de a gente se colocar dentro de quadrados um pouco mais fechados. Isso é natural quando fazemos uma análise ou um estudo teórico: segmentamos as coisas. Eu sempre fui meio o cara que estava fazendo um negócio que não pertencia àquilo, mas também fazia aquilo que não pertencia ao outro. Acho que nunca me incomodou muito. O que me incomodava era o incômodo dos outros. Depois, esse incômodo também deixou de me incomodar. Entendi que a minha influência era justamente essa variedade de coisas que ouvi: do Bach até Béla Bartók, Igor Stravinski, Miles Davis, Tom Jobim, Genesis, do rock progressivo, [Luis Alberto] Spinetta, [Astor] Piazzolla, Vítor Ramil. São caras que acho muito interessantes, mas não fico pensando: “Agora vou fazer uma música com influência de não sei o quê”. Isso acontece naturalmente.

Até mesmo quando você trabalha com trilha sonora?
Aí é um pouco diferente. No audiovisual, quando recebo o trabalho com ele já montado, o editor tem aquelas trilhas brancas posicionadas para eu criar alguma coisa a partir delas. Ouço aquilo e entendo o que talvez o editor e o diretor estejam querendo emocionalmente para aquela cena. A partir disso, proponho a minha leitura. Mas para não incorrer em um plágio, não é simplesmente reproduzir aquilo que está ali. É entender o que está sendo buscado e fazer outra coisa a partir disso. Não acho que exista uma maneira específica de fazer música – embora muita gente diga que sim (risos). Não me preocupo em soar como eu mesmo. Preocupo-me em transmitir o que estou pensando naquele momento, dentro do que preciso fazer. Isso me dá uma certa liberdade, porque não fico aprisionado dentro de algo que preciso demonstrar como sendo “a minha cara”. Às vezes as pessoas perguntam: “Mas é tipo o quê? Como é a tua música?”. Eu digo: “Não sei, ouve aí”.

Mas isso não impacta em termos mercadológicos? Ter um trabalho tão plural não acaba dificultando na hora de vender seu trabalho?
Quando estamos trabalhando com o mercado, precisamos saber quem são os nossos “vizinhos da prateleira de discos”. Hoje o Spotify faz um pouco isso para a gente com aquelas recomendações de “parecido com”, embora às vezes seja, às vezes não seja. Entendo a necessidade quando preciso embalar o produto para lançar. Ele precisa ter um gênero, um rótulo para a distribuidora, para o selo e depois para o pitch das plataformas. Então entendo o que pode ser atrativo do ponto de vista de marketing, mas particularmente não me interesso muito por essa preocupação. Tenho hoje quatro projetos, justamente para separar determinados lançamentos. Um é de lo-fi, o Vakyr, que ocupa um lugar específico e, para entrar em determinados selos, precisa cumprir algumas normas. Tenho outro projeto, Frozen Roh, que algumas pessoas usam para meditação, para dormir, para coisas mais tranquilas. O Dora Avante é um projeto de canção, uma mistura de MPB, talvez com rock progressivo ou indie rock. E no meu projeto solo eu misturo tudo. Ali vai tudo sem eu me preocupar. O último álbum que lancei foi fruto de um balé que compus aqui em Caxias do Sul, mas também já lancei um álbum de música eletroacústica e outro com canção, piano e voz.

O que te estimula mais: uma encomenda, como uma trilha, ou ter liberdade para compor o que quiser em um projeto próprio?
A segunda alternativa. Quando me proponho a fazer um projeto por minha conta, talvez seja mais confortável e mais sincero. Não que as outras coisas não sejam sinceras, mas talvez o que tenha sido mais eu mesmo dentro de um processo criativo tenha sido o álbum que lancei em 2020, “Suíte Rapsódica Eletroacústica”. Ali foi uma reflexão múltipla, não só artisticamente. Era o início da pandemia, do isolamento social. Consegui a aprovação de um projeto de lei de incentivo bem pequenininho, mas suficiente para fazer a proposta. E tive total liberdade para lançar uma coisa que já vinha na minha cabeça: misturar música eletroacústica com elementos da música regional rio-grandense. São coisas extremamente diversas, que talvez não tenham um diálogo muito óbvio. Existe toda uma tradição na música popular rio-grandense, com seus preceitos e preconceitos, e eu misturei aquilo de uma maneira que achei interessante. Isso não tira meu ímpeto de compor para qualquer outra interface. Me sinto satisfeito olhando para minha discografia: com esse último álbum, da mesma maneira que me senti no primeiro, ou com o álbum que lançamos da Dora Avante em 2024, “Velejar da Vida”. Aquilo também foi muito potente. Era uma coleção de canções que compus ao longo de muitos anos, então existe ali algo um pouco autobiográfico, um relato de mais tempo.

Essa turnê que você fez recentemente na Europa foi com o balé?
Não. O que levei para a Espanha e para a França foi um concerto de música brasileira. Misturei canções minhas — com exceção de uma, que faço com a Dora Avante — e canções populares brasileiras que fizeram parte, em algum momento, das minhas influências. Queria levar também algo que o público pudesse reconhecer. As pessoas que foram me assistir na Espanha e na França, de modo geral, não conheciam meu trabalho. Uma ou outra conhecia alguma coisa, mas ainda não tenho mercado lá. Então levei Tom Jobim, João Bosco, Milton Nascimento, coisas que estão mais no senso comum do público europeu, mescladas com canções minhas, que obviamente a maior parte das pessoas não conhecia. Foi também uma decisão estratégica. Esse formato era muito mais barato e prático de levar. Não precisei levar equipamento, pagar passagem para outros músicos, hospedagem, alimentação e tudo mais. Ficou mais econômico para eu ir buscando esse mercado no qual ainda não estou inserido, mas no qual estou tentando entrar.

Você passou por muitos projetos diferentes. Alguns tiveram duração curta, outros foram mais longos. Isso também funciona como um território de pesquisa? Um trabalho novo, mesmo quando nasce de uma relação profissional, acaba se refletindo na sua música?
Sim. Gosto de dizer que sou um colecionador de memórias. Cada trabalho que faço, cada relação humana que se estabelece nesses trabalhos, é um campo de influência, seja na poesia, seja na composição musical. Levo um pouco de cada um desses projetos. Foram várias coisas: a Camerata Brasileira, no passado, um trabalho que circulou bastante e produziu bastante; a Renascentes, uma banda de rock com a qual lançamos um álbum e excursionamos pelo Brasil; a Carmen Correa, que foi um trabalho supercurto, mas que resultou em um álbum incrível. Até hoje, às vezes estou em algum lugar e alguém fala: “Nossa, você gravou o álbum da Carmen”. É uma loucura, porque ele chegou a muitos lugares. E cada um desses trabalhos reverberou de alguma maneira. No caso das Meninas Cantoras, foram 13 anos de trabalho. Passei por três regentes, com suas transformações dentro do projeto. Também houve o Vocal Mandrialis, em Porto Alegre, que foi um trabalho importante na minha trajetória. Em 2023 fiz os arranjos de um espetáculo de Natal para uma produtora de São Leopoldo, o que me rendeu o prêmio de melhor arranjador no Prêmio Profissionais da Música, em Brasília. São essas coisas que a gente vai colecionando: experiências que trazem elementos diretos ou indiretos.

O Brasil tem uma quantidade enorme de linguagens musicais que convivem dentro do mesmo país e que, muitas vezes, não conhecemos. Como você enxerga esse cenário em relação ao seu próprio trabalho?
Tivemos uma transição muito forte de mercado durante a pandemia. Isso mudou muito a perspectiva de como fazer as coisas – como circular, distribuir e divulgar música. Então, como chegar às pessoas é algo que não sei responder. Acho que tudo depende do contexto de como apresentar as coisas: para quem, onde e quando. O Brasil é muito diverso, não só na produção musical, mas também na lógica de mercado e de fruição da música ao vivo. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, estamos tendo uma dificuldade muito grande de apresentar o que seria a música autoral. Tenho vários amigos que estão desistindo de apresentar um show de canção popular ou um show de música instrumental porque as pessoas não vão. E o motivo de elas não irem ainda é uma questão que não foi respondida. A cena autoral está muito minguada. Em Porto Alegre, que explorei um pouco no ano passado, quando voltei a tocar, tive uma baixa adesão de público. Pensei: “Nossa, deve ser eu. Não estou mais morando na cidade, talvez meu alcance tenha diminuído”. Mas conversando com amigos que continuam morando lá, percebi que isso é comum. Antigamente era normal uma pessoa ver o cartaz de uma banda autoral e pensar: “Vamos lá conhecer o trabalho”. As pessoas se mobilizavam. Isso não tem acontecido.

Mudou também a relação do público com o show ao vivo. Hoje você vai a um show e percebe que muitas pessoas estão ali apenas fisicamente.
É. Ficam tirando selfie, fotografando, filmando para depois “curtir” o show em casa. É uma coisa invasiva. A gente se prepara de uma maneira diferente quando vai gravar e quando vai tocar ao vivo. Até a lógica do erro é muito diferente no ao vivo e na gravação. Daqui a pouco vamos precisar ter, como algumas escolas já têm, um armário para colocar o celular dentro para a pessoa poder aproveitar uma experiência real do momento (risos). Não aquele registro feito com um microfone péssimo, uma câmera ruim, um ângulo ruim, que pega um fragmento descontextualizado de determinada coisa para divulgar nas redes. Às vezes aquilo vira uma coisa pessoal, ligada ao ego, ou simplesmente uma tentativa de criar alguma coisa em cima daquele momento. É esquisito.

No meio disso, temos o streaming, com sua lógica no mínimo peculiar…
Exato. Meu projeto Vakyr, de lo-fi, tem uma música com mais de 1 milhão de plays (“Samba de Fim de Tarde”). Ninguém conhece o Vakyr. Muita gente já me ouviu e não faz a mínima ideia de quem é o cara que faz aquela música. Para mim está tudo bem. Não é um rancor que tenho disso. Pelo contrário, acho muito interessante do ponto de vista etnomusicológico, pelo fenômeno. música. Ao mesmo tempo, temos vários lançamentos e uma produção muito rica de novas músicas. O desafio é ter espaços para mostrar essas músicas e um público interessado em consumi-las. Em Caxias do Sul, talvez isso seja ainda mais evidente, mas talvez seja um recorte regional. O Brasil é grande demais para termos um comportamento de consumo musical padronizado no dia a dia. Estou falando do chão de fábrica da música, de quem faz música como subsistência e que não está no mainstream, ou mesmo nas camadas do mainstream – quem está mais na cauda longa, lá na pontinha..

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *