Festival do Rio: “Fui Olhar Você Dormir”, de Anna Azevedo, é um dos melhores filmes brasileiros deste ano

texto de Leandro Luz

“Vai se foder, filho da puta” é a última frase que ouvimos de Aldir Blanc em “Fui Olhar Você Dormir” (Anna Azevedo, 2026), um dos melhores filmes brasileiros deste ano, vencedor do prêmio de melhor longa-metragem documentário pelo voto popular no Festival do Rio 2026. A frase é proferida a plenos pulmões por meio de um registro caseiro, situado em uma das últimas sequências, na qual o casal Aldir Blanc e Mari Lúcia de Sá Freire filma a janela de seu apartamento na Rua Garibaldi, na Tijuca, enquanto os vizinhos também batem panelas e protestam contra o Governo Bolsonaro e a sua política de destruição operada no decorrer da pandemia do COVID-19, em 2020.

Aldir Blanc faleceu no dia 4 de maio de 2020. O documentário de Azevedo não ignora as circunstâncias de um país que permitiu que milhares de mortes por COVID-19 ocorressem em virtude da ignorância dos abutres que ocupavam o poder. Também não menospreza o luto vivido por uma viúva que se tornou guardiã dos livros e dos objetos cotidianos que a rondam em um apartamento de porte médio na Zona Norte do Rio de Janeiro. Não obstante, ele capta, sobretudo, a vida que insiste em vibrar nas luzes do sol que atravessam as janelas e as cortinas daquele ambiente.

Em última instância, “Fui Olhar Você Dormir” não é um filme sobre o compositor Aldir Blanc. Nem a respeito das conquistas e das derrotas de um homem comum. Na verdade, o documentário parte dos cerca de dois mil exemplares de cartas, bilhetes, correspondências e recadinhos deixados por ele para sua esposa ao longo de seu relacionamento. As declarações de amor são inúmeras. Os deboches, os estresses e as paranoias também. Enuncia Aldir em um bilhete, com sagacidade: “Direi aos garçons que você é eterna”. Em desalento, registra em outro: “A mulher bonita que floriu o meu caminho está me deixando. Mesmo que não parta. Ainda que fique está me deixando”. São canetadas marcantes que não viraram música, nem livro. Textos que foram escritos e destinados apenas a uma leitora e que, no entanto, ganham agora o mundo, amplificados pelas lentes de Anna Azevedo.

A propósito, a razão de aspecto reduzida do 1,33:1, escolhida por Azevedo e seu diretor de fotografia, Léo Bittencourt, para enquadrar Mari, seu apartamento e as memórias compartilhadas por mais de 30 anos com Aldir Blanc se mostra uma escolha perfeita. Com a imagem mais próxima a um quadrado, valoriza-se mais o contato do corpo de Mari com as paredes, as estantes e os objetos. São frequentes os planos silenciosos ou, por vezes, embalados por suaves canções, que registram, por exemplo, uma estante resistindo, impávida, ao tempo e à poeira. A poesia da intimidade revelada em pequenas e bem compostas porções.

O roteiro assinado pela diretora e por Cláudio Uchôa costura assuntos diversos, um ao lado do outro, sem que pareçam desconectados. Para além da pesquisa envolvendo as missivas de Aldir, a dupla também lançou mão de horas de filmagens amadoras feitas com uma câmera VHS para compor o documentário. Vemos Aldir na cama, rodeado por livros (sempre eles) e por pequenos objetos repousados em bandejas e potes improvisados. Vemos Mari esquivando-se da lente, implicando a todo tempo com o seu “Pitoco” e tentando sempre colocá-lo no centro das atenções. Vemos, inclusive, o que ninguém mais vê: um lar vivo, palpável, honesto em sua bagunça, autêntico em sua simplicidade. Vemos ele, pelos olhos dela, pelos olhos dele, pelos olhos da cineasta.

Outra felicidade do roteiro é jamais deixar de lado os conflitos conjugais, ainda que eles recebam um tratamento bem mais acanhado do que o restante dos temas. A ponta da caneta de Aldir é de um alcance sobrenatural. Vai da poesia mais delicada à piada mais suja. Tergiversações sobre boquetes e bebedeiras coexistem com um autorretrato áspero e dissimulado (não no sentido de falso, mas do que está oculto). Também há espaço para a solidão e para as angústias. Um exemplo é a sua experiência, na década de 1970, como residente no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Hospital Gustavo Riedel, em Engenho de Dentro, que apenas é aludida, com bastante timidez e de forma bem abstrata, em algumas falas de Mari no presente e em outras de Aldir, por meio do arquivo.

Entre textos declamados, canções que ocupam a banda sonora e imagens de arquivo que tomam a narrativa de assalto, a diretora ainda encontra tempo e espaço para instaurar ruídos no apartamento. Um projetor incide a sua luz em uma tela montada na sala de estar. Projeções nas cortinas e na cama contam histórias, restauram lembranças e reanimam fantasmas. Lentamente, Azevedo incorpora esses elementos em seu filme e, finalmente, direciona a projeção ao corpo de Mari. Quase que por mágica, o clichê se revela um dispositivo singular. As palavras de Aldir Blanc apossam-se do corpo de sua musa, que com estoicismo se mantém sempre no controle. Até mesmo quando leva os bilhetes ao mar, na sequência final do documentário, parece ter entendido o seu papel como personagem, consciente da presença da câmera e preparada para lidar com ela com algum nível de autonomia.

O título do filme faz menção a uma das mensagens mais bonitas deixadas por Aldir para Mari: “Não há nada que substitua essa emoção”; essa frase do escritor arremata uma longa carta que descreve um amante vigilante em vigília por sua amada. “P.s.: guarda esse com cuidado.”, ele acrescenta, demonstrando consciência da importância do gesto – e, quem sabe, da engenhosidade das próprias palavras. É também a partir de uma declaração que o filme reserva um de seus momentos mais emocionantes, no qual Mari relata a primeira noite de amor do casal: “ele parou na altura do umbigo e me disse: ‘você é bonita’”.

Aldir Blanc queria ser um incógnito como dois de seus ídolos, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca – há um trecho hilário de sua participação no Programa do Jô afirmando ter inventado mil desculpas no decurso dos anos para não comparecer ao show. De certo modo, Anna Azevedo honra este desejo, brincando com a montagem – assinada por Nina Galanternick – e cuidando para que as imagens não revelem demais, cortando excessos e resguardando os mistérios do planeta Blanc.

O compositor de “O Bêbado e a Equilibrista” aparece uma única vez interpretando uma canção de sua autoria com o seu “violão de compositor”, como dizia o próprio, nas velhas imagens em VHS que o documentário recupera. O momento – e o filme como um todo – valoriza as grandes canções presentes na obra-prima “Vida Noturna” (2005), único disco solo de estúdio gravado por Aldir, que canta com o auxílio de poucos e bons amigos. Logo na primeira faixa, homônima, Aldir canta suavemente os seguintes versos: “Eu tenho no bolso uma carta / uma estúpida esponja de pó-de-arroz”. Obsessões à parte, eis o artista e seu tempo.

– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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