texto de Paulo Pontes
Com a quantidade imensa de subgêneros e ramificações que o metal tem hoje, está cada vez mais difícil encontrar uma banda que fuja do rótulo fácil. O Amorphis é uma dessas raridades no cenário global. É um som único e autêntico: os caras transitam do peso de um metal mais extremo até momentos de muita melodia e passagens super acessíveis, sem soar forçado em nenhum momento.
Para completar, o grupo mantém uma das discografias mais consistentes do estilo. Desde que o vocalista Tomi Joutsen assumiu a frente da banda no disco “Eclipse”, em 2006, o nível foi lá pra cima e nunca mais caiu. A cada lançamento, eles entregam algo muito acima da média. E o álbum mais recente, “Borderland”, lançado em 2025, reforça isso. Entrou fácil na lista de melhores do ano e a expectativa para ver esse material ao vivo na “Borderland Tour 2026” era gigante. Após passarem por Curitiba e Belo Horizonte, os finlandeses pousaram no Carioca Club num domingo à noite, 18 de outubro.
Para esquentar a casa, a escalação da noite trouxe uma banda brasileira de peso: Throw Me To the Wolves. Os caras entregaram uma sonoridade muito massa, um death metal melódico bem trabalhado com umas pitadas precisas de metalcore. Músicos excelentes, composições redondas e uma presença de palco de quem sabe o que está fazendo. O único porém do set de abertura acabou sendo a parte técnica. O som da casa estava bastante estourado de início. A caixa da bateria, principalmente nas primeiras músicas, veio bem embolada e alta demais na mixagem.
Como é de praxe em show de abertura, a casa ainda não estava totalmente cheia (o que muda a acústica) e os ajustes foram rolando com o show em andamento. Ficou um pouco melhor no final, mas deu para ver que o som alto e desregulado prejudicou o impacto que os caras poderiam ter causado. Mesmo assim, o público recebeu a banda com um respeito absurdo. A galera interagiu, aplaudiu e reconheceu a competência dos músicos. É aquele tipo de banda nacional que vale a pena demais procurar nas plataformas digitais, ouvir com a produção correta e colar no show quando der.
Quando o Amorphis entrou em cena, a qualidade técnica do som na casa deu um salto nítido. Na primeira música, o vocal do Tomi Joutsen ainda soou um pouco abafado, meio baixo na mixagem geral, mas a equipe resolveu isso rapidinho: da terceira música em diante, o som ficou tinindo e extremamente encorpado no ambiente todo. E os caras já chegaram com o pé no peito e uma dose gigante de coragem. Em vez de abrir com uma nova e emendar logo um clássico para segurar a galera, eles bancaram a força do trabalho recente e mandaram duas do “Borderland” logo de cara: “Bones” e “Light and Shadow”. É preciso ter muita confiança no próprio material para abrir uma apresentação assim. E a resposta da pista provou que eles estavam certos, com o público cantando junto desde o início. A sequência com “Silver Bride”, “Wrong Direction” e “Death of a King” fez o Carioca Club cantar em uníssono.
Não dá para falar do Amorphis sem destacar o Tomi. O que esse cara faz ao vivo beira a perfeição em comparação aos discos de estúdio. Ele vai de um gutural cavernoso e pesado para um vocal limpo potente com uma dinâmica sensacional e muita presença de palco. Sem dúvidas, um dos melhores e mais versáteis vocalistas do metal atual. A presença do álbum novo no repertório foi marcante: das 16 músicas do setlist, 5 eram do “Borderland” (quase um terço do show focado no disco lançado em 2025), provando a relevância do trabalho atual.
E a reta final do show foi puro ouro. A sequência matadora com “Black Winter Day” (com direito ao trecho de “With My Kantele”), a excelente “Dancing Shadow” (que é facilmente uma das melhores faixas do disco novo) e a empolgante “House of Sleep” preparou o terreno com perfeição. No bis, fecharam a noite com a grandiosa “The Bee”, de forma épica. Claro que, com uma discografia tão vasta, algo sempre fica de fora. A ausência mais sentida por aqui (e por outros presentes) foi “Sky Is Mine”, um dos grandes hinos da fase recente da banda.
O Amorphis entregou um showzaço em São Paulo. Entra com facilidade no Top 5 de melhores shows de 2026 até agora. Uma verdadeira aula de como manter a relevância no topo, lançar discos excelentes e entregar tudo no palco.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
