texto de abertura por Rafael Carvalho
entrevista de João Paulo Barreto
Há muito tempo que Henrique Dantas trabalhava na realização de um longa que contava a história de um médico negro brasileiro, residente fora do país, que volta ao Brasil para encarar o passado de sua família no interior baiano.
O filme ganha corpo agora, depois do cineasta trilhar uma bela carreira fazendo filmes documentários (para a TV, já havia dirigido a série ficcional “A Bicicleta do Vovô”, derivado de um curta seu). “Jardim dos Silêncios” estreou no Festival do Rio e será exibido nos dias 22 e 26 de outubro na Mostra de Cinema de São Paulo, depois de ter sido exibido nos Estados Unidos no American Black Film Festival.
Aqui, o cineasta fala das inquietações e experiências pessoais que ajudaram a moldar o projeto. “Quando eu estava montando ‘Sinais de Cinza’, filme sobre o cineasta baiano Olney São Paulo, ali por volta de 2012, começaram a morrer muitas pessoas em volta de mim. Foram umas 14 pessoas em quatro meses, algo muito pesado”.
Esse clima de luto fez com que ele desse um tempo na montagem do filme, mas o sentimento de pesar continuava a ponto dele não conseguir mais chorar nos muitos enterros que precisava frequentar. “Então, para não pirar, comecei a escrever um roteiro sobre uma pessoa que não se sensibilizava mais com a morte, por lidar com ela de maneira corriqueira. É o que acontece com o personagem do filme”, pontua.
É daí que nasce a história de Tuã (Fabrício Boliveira), que foi viver na Itália com a mãe na juventude, fugidos da Ditadura Militar brasileira que havia matado o pai dele. Depois de crescido, já formado como médico oncologista e após a morte da mãe, ele recebe um chamado da avó, que vive na Bahia e está com um câncer terminal.
A trama de “Jardim dos Silêncios” recupera, portanto, o arquétipo clássico do filho pródigo que retorna ao lar. Nesse caso, a cidade de Ilhéus, no litoral sul baiano. Além da avó, vivida por Helena Ignez, Tuã vai ter de lidar também com o avô (Luiz Pepeu), de personalidade totalmente distinta.
Nesse tipo de construção narrativa, o filho que volta à terra natal geralmente é confrontado com os pais, talvez com os irmãos. Neste caso, no entanto, é a partir do convívio com os avós que Tuã vai redescobrir segredos e traumas familiares do passado, enquanto dele também é demandado uma posição sobre o que fazer daqui para frente. Isso porque o personagem acaba de deixar na Itália a namorada (Federica de Benedittis) que lhe revela uma gravidez justo neste momento. Passado e futuro, portanto, se equilibram nos conflitos pessoais do protagonista.
No choque geracional que o personagem leva, precisa se confrontar com duas forças antagônicas. Enquanto a avó é o laço de afeto e compreensão, doce e protetora, mesmo à beira da morte, o avô assume uma postura dura e conservadora, claramente contrária aos caminhos políticos que vitimou o pai de Tuã no passado.
“Eu acho que a gente valoriza muito pouco a idade no Brasil, as pessoas mais idosas”, afirma o cineasta. “Dirigi a série ‘Seculares’ [disponível online no Sesc TV] em que entrevistei 53 pessoas com mais de cem anos de idade. Foi uma experiência muito forte”, confidencia. Essa relação com os mais velhos está bem representada no filme.
Dantas contou também que Helena Ignez foi a primeira pessoa que ele chamou para fazer o filme, ainda em 2011. “Naquela época, o Festival do Rio fez uma pequena mostra de filmes que levou para Berlim. Tinha meu primeiro filme (“Filhos de João, O Admirável Mundo Novo Baiano”), sobre Os Novos Baianos, e tinha um filme da Helena. Nós convivemos muito em Berlim, só saíamos juntos. Então contei a ela a história desse filme e ela aceitou participar”.
Mais de uma década depois – “Jardim dos Silêncios” foi rodado em 2023 –, Dantas retorna agora ao mesmo Festival do Rio para apresentar o longa. “O Rio é uma cidade de macumba, de muitos terreiros. Recebeu muitos escravizados, famílias que se dividiram entre lá e a Bahia. Está sendo importante voltar agora ao Rio com este filme”, revela.
É com esses personagens mais velhos que Tuã – e o espectador também – vai descobrindo os segredos e as minúcias da família. Não apenas o passado de luta política do pai dele, mas também uma inclinação à religiosidade de matriz africana que sempre povoou o universo daquele núcleo, ainda que de forma velada.
O próprio título do filme diz respeito ao espaço sagrado da floresta que guarda outras camadas de ligação, mas também de desacordo, no seio familiar. Tuã, de alguma forma, aprende a resgatar algo que sempre esteve com ele, mas do qual estava completamente afastado.
Outro ponto crucial da trama é o atravessamento racial posto nas entrelinhas. “Em determinado momento, percebi que eu e muita gente no Brasil nunca tinha sido atendido por um médico negro. Era algo difícil de acontecer. Isso começou a virar uma questão para mim”, revela o realizador.
É nesse momento que Fabrício Boliveira entra no projeto. Dantas confessou que tinha chamado, primeiramente, Wagner Moura para fazer o papel, mas ele estava justamente indo fazer a série “Narcos ” e começar uma carreira internacional.
“Quando chamei Fabrício e contei a história do filme, ele se emocionou muito. E ali a gente entendeu que tínhamos de fazer aquele filme juntos. Foi muito importante tê-lo como ator”, afirmou Dantas.
“Jardim dos Silêncios” é um verdadeiro filme de autor, não no sentido da afirmação do cineasta, mas porque reúne as marcas e inquietações íntimas de um artista forjado na Bahia. Neste papo com o Scream & Yell, Henrique Dantas se aprofundou no processo de criação de Jardim dos Silêncios. Confira!
Filme chegando à Mostra de Cinema de São Paulo, como foi receber essa notícia da seleção do trabalho nesse momento em que o evento completa 50 anos?
Fazer um filme, a depender do cuidado e do pertencimento que tenha com ele, parece um pouco com o caminho de ter um filho. Você cuida dele até quando ele pode se virar sem o seu cuidado, mas você nunca o deixa na porta de qualquer escola. Depois do filme estrear no America Black Film Festival, que é o maior festival de cinema negro dos EUA, queríamos que o filme tivesse bons lugares para suas estreias. Nada melhor do que estrear, no mesmo mês de outubro de 2026, no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, os maiores festivais do país. Completo, ano que vem, 30 anos de audiovisual. Essa comemoração dos 50 anos da Mostra coroa um pouco essa trajetória. Meus últimos filmes que passaram nos dois festivais foram “Os Filhos de João” e “Sinais de Cinza”, os dois primeiros longas documentais que realizei na minha carreira. Voltar com minha primeira ficção é muito gratificante, pois somos contadores de histórias e precisamos de olhos, ouvidos e sensações para fruir o que fazemos com nossas ideias de histórias.
O que lhe atraiu no desenvolvimento do roteiro que já vem sendo escrito há anos, além da pesquisa como um todo, para concretizar essa primeira incursão no cinema ficcional?
Não posso chamar de atração. Talvez seja melhor empregar a palavra “necessidade”. Nos anos de 2011/2012, quando montava o longa metragem “Sinais de Cinza – A Peleja de Olney contra o Dragão da Maldade”, começou um processo muito estranho de mortes sucessivas em torno do meu círculo de afetos, o que me deixou muito confuso. Eram tios, filho de amigos, amigos, avó de minha companheira, entre outros. Depois da quinta morte, percebi que não conseguia mais chorar nos velórios, nos enterros, independente do grau de parentesco, ou proximidade que tivesse com a pessoa. Daí tive que parar a montagem do filme porque comecei a ter muita insônia. Para uma pessoa como eu, que dorme cinco horas por noite, ter insônia é desolador. Parei a montagem e, como meus filhos estavam pequenos, fiz um tratamento de amor, de colo e de afeto. Um intensivo de amor de família, que acabou me curando dessas minhas aflições. Ao ir para a Holanda, para um festival de Cinema em Amsterdam, surgiu a ideia de fazer o filme. Como meus trabalhos são muito envolvidos com questões políticas, pois não acredito em arte que não seja eivada de política, a ditadura militar acabou sendo um dos assuntos abordados, e comecei a escrever a história de Tuã, médico negro, baiano, que vive na Europa desde o final da década de 70, por conta do assassinato de seu pai e das torturas que sua mãe sofreu ao ser presa pela repressão. Ele se torna um médico especialista em oncologia infantil, o que faz com que ele se torne uma pessoa fria diante do alto índice de mortalidade que ele é obrigado a conviver no seu cotidiano. O filme começa com o suicídio de sua mãe, Iara, que nunca conseguiu se recuperar das torturas que sofreu no Brasil. A partir daí temos a jornada desse personagem que volta para o convívio de seus avós adotivos. Ao chegar na fazenda encontra sua avó, Sina, com um câncer terminal, mas, ao contrário da maioria das pessoas, ela aceita a morte como um destino inevitável, natural e rico de significados e possibilidades de entendimento. Além da avó, ele se depara com o avô, Horácio, ex-tenente coronel do exército brasileiro que foi odiado pela filha durante toda a sua vida por ter feito parte do exército durante a ditadura.
Na criação dos personagens, temos Fabrício Boliveira vivendo um médico negro. Além dele, Luiz Pepeu interpreta um fazendeiro também negro. Lembro de ter conversado contigo por ocasião do lançamento do documentário “Dorivando Saravá” e você me falou sobre o projeto em andamento de “Jardim dos Silêncios” e em como era importante incluir personagens afrodescendentes em posições de destaque social. A função do cinema como arte inclusiva tem essa obrigatoriedade. Como foi escrever esses personagens?
Estava pensando sobre como esse trabalho tem a ver com o processo que passei na vida, nos últimos dez anos, de adquirir doses de consciência preta. De me entender como um homem que, a partir de diversas situações de racismo, onde nunca soube me defender, fui escondendo envergonhadamente minha negritude, raspando o cabelo e me esforçando para ter um comportamento social mais colonizador, pois não tinha repertório para lidar com ela. Meu pai é um homem negro que não se vê assim. Então, em casa, não tinha repertório para entender que o que se passava se tratava de racismo. Lembro que em 1998, eu estava com Tacilla Siqueira, minha companheira, no Marrocos, e, lá, eu via que a sociedade me enxergava como um homem negro, árabe, marroquino. Eles não me pediam documentos para entrar ou sair dos lugares. Os olhares dos policiais não me atravessavam. Isso me deixou muito surpreso e contente. O cineasta Antônio Olavo, amigo querido, foi uma pessoa muito importante nesse processo de conscientização preta do meu cinema. Olavo é fundamental para a nossa cultura e fundamental na minha formação. Poderia falar por horas aqui sobre esse complexo processo de conscientização preta, mas meus trabalhos têm me ajudado a falar por mim. E sim, fui criado em Ilhéus onde só existiam um casal de médicos negros que nunca tinham me atendido, como também não conheci fazendeiros negros na minha adolescência em Ilhéus. Acredito que na ficção você deva mexer com aquilo que você acredita e “Jardim dos Silêncios” tem relação com meu processo religioso, com meu processo de entender os efeitos nefastos das diversas colonizações que sofremos, seja do ponto de vista religioso, seja do ponto de vista social.

Como foi o trabalho com Fabrício, Helena e todo o elenco?
Fabrício Boliveira foi a primeira pessoa que entrou no projeto. Ele foi fundamental desde que entrou. Primeiro porque Fabrício é uma pessoa muito sensível, intensa e direta, além de um ator fora da curva. Isso fez com que desenvolvêssemos uma relação de confiança muito forte durante esses anos e que se mostrou fundamental quando estávamos filmando. Depois convidei Antônio Pitanga, que acompanhou a gente até recentemente, quando teve que sair por estar filmando no mesmo período o filme dele sobre a Revolta do Malês. E aí chamei o nosso, também grande ator, Luiz Pepeu, que fez uma construção de personagem belíssima com a ajuda valiosa de Ana Paula Bouzas e do próprio Fabrício. Pepeu é um grande ator que faz parte desse panteão dos grandes atores baianos. Escrever os personagens deste roteiro foi muito complexo, intenso e maravilhoso. Elas têm muitas camadas que procurei trabalhar ao longo dos anos em que o filme estava amadurecendo no estaleiro. Como venho de uma família multirracial, convidei Helena para viver a personagem, Vó Sina, uma mulher branca, que na juventude foi Ekedi de um terreiro de candomblé da região, e que por não poder ter filhos, adota uma criança negra como filha, depois de se casa com um Ttenente do exército evangélico, que a obriga a largar a religião. Helena Ignez, com 83, representou com muita inteireza uma personagem a beira da morte. A equipe foi aprendendo a trabalhar, se adaptando ao tempo de uma atriz de 83 anos, o que foi fundamental para o andamento do filme. Todo o elenco de apoio veio de Ilhéus. Atores que fazem ou fizeram parte do Teatro Popular de Ilhéus. Atores negros, como o grande José Delmo, um ator maravilhoso da região. Tereza Sá, Telma Sá, Ruan Reis, Mãe Alba Darabi são atrizes e atores negros de Ilhéus que foram fundamentais para a construção dessa história.
Cinema como identidade racial e política.
Não gosto de falar sobre se o cinema tem ou não a obrigatoriedade de fazer alguma coisa. Mas o meu cinema, sim! Esse tem a obrigatoriedade de trazer questões políticas e sociais para os filmes. Fui criado dos 7 aos 16 anos em Ilhéus e, desde que nasci, ando por essa região. Minha mãe nasceu em Maraú (cidade a 102 km de Ilhéus). Nesse período, conheci apenas um médico negro na cidade e nunca fui atendido por ele. O primeiro médico negro que me atendeu foi um cubano, na Chapada Diamantina, através dos Médicos Cubanos (N.E. Programa implementado pelo governo do PT), que, confesso, me deixou emocionado. Não apenas pela questão racial, mas pelo atendimento humano que ele deu ao meu filho. Então, colocar um médico negro e um fazendeiro negro em posições sociais distintas das que vivi, é lutar contra esse clichê racista que vemos ainda se repetir no cinema brasileiro. Sobre isso, Joel Zito (Araújo, cineasta mineiro) fala muito bem no seu filme “A Negação do Brasil” (2000). Mas é algo que ainda tem pouca atenção do cinema médio brasileiro, que, vez por outra, se aventura a fazer denúncias e acaba reproduzindo fetiches a partir de um olhar de classe média alta que, no Brasil, é a nata da branquitude.
Na ocasião das filmagens, lembro que você me falou a respeito da dificuldade de conseguir apoio oriundo da prefeitura de Ilhéus na produção do filme, que tem a cidade como um dos locais onde se passa a trama. Já o município de Nilo Peçanha não tardou a entrar como parceiro no filme. Como foi esse processo?
Acho importante falar que o roteiro do filme passou por laboratórios no Festival de Málaga e no BR-LAB, além de ter vencido o prêmio Ibermédia de roteiro no ano de 2022. Um produto reconhecido, com co-produção com a Europa, em se tornar um case, que poderia ser visto como atrativo aos agentes públicos locais. Esperei até o fim das filmagens para não cometer uma injustiça em relação ao que vou falar agora. Mas Ilhéus, minha segunda cidade de origem, onde tenho minhas raízes e parte de minhas ancestralidades, não tem o mínimo preparo e interesse de trabalhar de maneira séria com a cultura. Para eles, cultura é show de Gustavo Lima e outras mumunhas. Acho, inclusive, que o novo Governo do Estado deveria fazer um curso com os 417 prefeitos do estado e seus respectivos secretários para que eles entendam a dimensão da cultura e todo atrelamento dela com o turismo e outros setores econômicos da sociedade. A economia criativa acaba de passar o setor automobilístico. Ela gera mais empregos do que o setor farmacêutico. Mas a falta de visão dos governantes os afasta de qualquer outro entendimento mais elaborado do que seja cultura. Falta cultura para entender a cultura. Não conseguem entender que, se Jorge Amado não existisse, a cidade de Ilhéus teria uma redução na sua dimensão simbólica absurda. É fundamental para o entendimento que a cultura é a base de qualquer destino turístico do mundo.

Não houve uma reciprocidade na tentativa de diálogo com as instâncias governamentais no local, então?
Dialogar com a cidade de Ilhéus foi um processo muito ruim, desgastante, infértil. E olhe que fui colega de sala do atual prefeito por nove anos (2023). Ele era um amigo, mesmo. Não consegui nem encontrar com ele nas diversas vezes que fui na cidade. Os próprios secretários diziam que era difícil encontrá-lo na cidade. Tive e tentei reuniões com secretários que não tiveram nenhuma dimensão da importância de um filme de ficção, fruto de uma co-produção com a Europa, para a divulgação da cidade. Para não ser de todo injusto, depois deles baterem fotos com a equipe e divulgarem apoio ao filme nas suas mídias, mesmo sem existir nada a não ser conversas, duas vassouras, uma pá, o empréstimo de um carro 4 x 4 durante um dia, autorizações relativas às ruas que filmamos e facilitação ao apoio da Polícia Militar. Dois empresários locais, sensibilizados pelo meu esforço, e meu histórico no cinema, nos deram apoio. Um é meu primo, Rodrigo Mendes Mendonça e o outro é um primo segundo, Zé Luiz Falcão. Sai da cidade com o gosto amargo de ver a cultura da cidade completamente abandonada, com o Teatro Municipal fechado, nenhuma sala de cinema pública, a Biblioteca Municipal sendo cedida para a polícia militar e bandas, grupos de teatros, cineastas, passando a ver navios transatlânticos nos belos horizontes de Ilhéus. Na educação, vemos um descaso, com perseguição a professores e não cumprimentos de acordos. Espero, sinceramente, que a cidade tenha outra sorte ou que o atual prefeito consiga fazer o que me falava quando éramos colegas, que ele seria prefeito para melhorar a vida do povo. O que vejo em Ilhéus são prédios e prédios aparecendo como uma praga e levando sombras para as praias, a cidade completamente esburacada, mas sempre linda e com um povo muito hospitaleiro e gentil. Meus pais moram na cidade e eu amo Ilhéus, mas nunca vi uma gestão municipal que realmente mudasse a vida das pessoas. Está na hora de gerarmos um prefeito do povo e que governe para o povo.
E em relação ao âmbito estadual?
Tenho buscado conversar com o Governo do Estado da Bahia, para que, nessa nova gestão, apoiem o filme, como fizeram com outras produções baianas. A gestão de Rui Costa foi péssima para a cultura, com perseguições descabidas e processos muito questionáveis, onde não se teve nenhum tipo de escuta com a classe audiovisual. Esse mesmo roteiro foi descartado por dois editais estaduais, sem nenhum tipo de justificativa técnica, mas, sim, política, ao descartar do processo realizadores por motivos torpes, como, por exemplo, o de um comprovante de residência a ser colocado na documentação. Comprovante este que apresento o mesmo há mais de 15 anos. Estamos com esperança que o audiovisual baiano possa amadurecer com a criação da Bahia Filmes, uma luta da APC (Associação de Produtores e Cineastas da Bahia) que vem de mais de doze anos. É o terceiro governador para o qual apresentamos o projeto, mas, dessa vez, ele colocou no Programa de Governo, o que foi muito importante.
Ainda no aspecto da produção, o filme tinha cenas originalmente passadas na Holanda, mas passou para a Itália. Foi difícil a empreitada de rodar no velho continente?
Sim. O filme acabou saindo da Holanda e indo para a Itália. Nesse processo, contamos com o trabalho maravilhoso e imprescindível da produtora Eliane Ferreira, que me foi apresentada por minha companheira. Sem ela, o filme não teria acontecido como aconteceu. Além de ser co-produtora, ela conseguiu para o filme a co-produção de uma produtora italiana, a La Sarraz. E tem um fato curioso nesses intercâmbios. Ao dialogarmos com a equipe da Itália, surgiu uma questão em relação ao cabelo de Fabrício, que estava com dreadlocks. Eles diziam que, na Itália, não teria nunca um médico com o cabelo assim. Um dia, quando eles apresentaram isso numa reunião que tivemos, eu falei que o fato deles não terem um médico negro que use o cabelo rastafari era, na verdade, o maior motivo para que Fabrício não cortasse o cabelo. Isso dava mais força para que Tuã fosse um médico com cabelo rasta. Como disse anteriormente, caso não tivéssemos a presença de Eliane Ferreira na produção executiva e na produção junto comigo, não lograríamos êxito. Mas ao chegar lá, com meu péssimo inglês e meu “macarrônico” italiano, dei muita sorte de ter uma equipe muito competente e que se esforçava para me entender e me respeitava muito enquanto artista. Acabou que fizemos uma linda família e os guardarei pelo resto de minha vida e das minhas memórias. Eles piraram no roteiro. Como acredito em um cinema horizontal, todos se sentiram livres para falar comigo, em um país em que apenas o assistente de direção fala com o diretor no set. Isso fez com que os conquistássemos a amizade e o respeito de toda a equipe. Pedro Semanovich, o diretor de fotografia e sócio meu na Hamaca Filmes, foi junto comigo. Além dele, Fabrício e Eliane, também. Com isso, conseguimos pensar o filme e fazer cenas belíssimas em Orvieto, uma cidade medieval que foi ocupada pelos Etruscos, antes de ser território romano. Esse filme foi tão abençoado pelos Orixás que conseguimos filmar tudo e mais um monte de cenas que criei depois de começarmos a filmar. Em todas as ideias novas que apresentei, na Itália e aqui na Bahia, as equipes foram absurdamente sensacionais.

Tuã, personagem de Fabrício Boliveira, passa pelo baque de perder a mãe, após já ter tido o pai assassinado por militares na ditadura, e, além disso, como médico, lida, também, com a morte diariamente. Como foi a criação da estrutura desse personagem nesse modo de lidar com o luto?
Conversamos muito sobre qual Tuã queríamos. Eu e Fabrício mergulhamos no entendimento dessa estrutura, dessa costura entre eu, ele e essa invenção. A premissa é de um personagem que não embarca no luto, mas sim evita viver sofrimentos que surjam com a morte. De certa maneira, como ele teve que aprender a conviver com a falta, ele investe em virar uma pessoa “amortizada” pelas mortes que passou.
Lendo seu roteiro, percebi na apresentação dos personagens, além de seus próprios nomes, outros de origem da cultura africana e do candomblé. Poderia abordar como se deu o desenvolvimento dos mesmos utilizando essa equivalência?
Eu tive, há quase 30 anos, um encontro maravilhoso com Mãe Stela de Oxóssi, onde ela, em um jogo de búzios, me revelou que eu era também de Oxóssi. Frequentei o Ilê Axé Opô Afonjá, mas acabei vindo morar em Camaçari e me afastando da casa. Ao fazer o filme “Dorivando Saravá”, acabei de me aproximando do Candomblé mais uma vez e fui parar no terreiro de uma filha de Mãe Stella, Mãe OyáTundê (Mãe Djalma). Cheguei lá para entrevistá-la e nunca mais saí de lá. Tive a sorte de conhecer uma mulher fantástica, amiga, conhecedora, acolhedora que foi e continua sendo muito importante em minha vida. Infelizmente, ela nos deixou no mês de maio de 2022 e, com isso, ficamos três anos na obrigação do Axêxê, que é a maneira como nós, de religião de matriz africana, acreditamos que devemos lidar com nossos mortos. Esse roteiro foi muito conversado com Mãe Djalma, antes dela ir para o Orún. Dito isso, trouxe para o roteiro toda essa aproximação que acabei tendo com os Orixás. Não é um filme sobre Candomblé, é um filme onde o Candomblé tem uma camada importante, pela relação familiar, histórica e afetiva que as personagens têm com o maravilhoso mundo dos Orixás, inquices e voduns. Como Tuã, o personagem principal, tem uma relação de aproximação com sua ancestralidade, assim como eu tenho e o próprio Fabrício tem, os espectadores terão reflexões semelhantes com o personagem. Todos os atores tiveram esse chamamento com a ancestralidade, inclusive Helena Ignez, que me trouxe reflexões maravilhosas durante o processo.
Trata-se de uma obra sobre reencontros. Estes tanto familiares como de questões íntimas de seu protagonista com suas origens. No aspecto familiar, há no texto uma riqueza grande dentro de um aspecto cultural. Como sua estreia no cinema de ficção, como se deu essa escolha de temas?
Sou uma pessoa muito atenta a família, seja minha companheira e meus filhos maravilhosos, seja a grande família de amigos que formamos com os anos no lombo. Tenho minhas próprias questões familiares, minhas reflexões sobre quem sou e o que estou ainda fazendo aqui. Sou fruto de famílias multirraciais, com origens, raças e credos diferentes, com tensões históricas e felicidades também. Quanto ao reencontro, sou um cara otimista. Acredito na “beleza das respostas das crianças” e acredito muito na “lei natural dos encontros” e reencontros. E por mais que tenha minhas próprias questões familiares, talvez o cinema me guie a pensar junto com minha família essas questões. Cinema é cachoeira, rio e mar. Como sou canceriano e meu elemento é água, vou surfando nesse cinema doce e salgado, plantando silêncios e compondo meus jardins. “Jardim dos Silêncios” é o primeiro filme de uma série que quero fazer de Jardins. Tenho um outro projeto chamado “Jardim de Memórias” e estou pensando em criar outro roteiro de jardineiro roteirista. Aprendi uma coisa na Itália que me fez muito bem. Lá, diretor é chamado de regente. Com isso, passo a ver o filme como uma grande música, onde não existe instrumento melhor do que outro. Diretor é bom pra empresa, cadeira de diretor é bom pra quem gosta de poder. Gosto do meu pé no chão, de cortar quiabo para Xangô, no pé descalço no terreiro de barro, de ver toda a família formada com a equipe, junta, comendo junto, sentados em “três tabelas”, sem privilégio, sem gritos, sem fofocas e sem guerras.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar. Texto de abertura publicado originalmente no Jornal A Tarte.
