Festival do Rio: “O Jogo”, de Juan Cabral e Santiago Franco, mergulha na história da partida entre Argentina e Inglaterra em 1986

texto de Leandro Luz

Como pode um lance de uma partida de futebol emocionar tanto? Basta ser um torcedor ferrenho para responder a pergunta com alguma facilidade. No entanto, o desafio proposto é superado em “O Jogo” (“El Partido”, Juan Cabral, Santiago Franco, 2026), documentário que traz imagens raras de arquivo para recriar a emoção do grande jogo das quartas de final da Copa do Mundo de 1986, protagonizado pela Argentina e pela Inglaterra no mítico Estádio Azteca, no México. É bem bonito constatar que não precisamos ser torcedores de uma ou de outra seleção – nem mesmo exatamente amantes do esporte – para nos emocionarmos com as imagens engendradas por Cabral e Franco.

“O Jogo” teve sua estreia mundial na seção Cannes Première do Festival de Cannes 2026 e, no Brasil, foi exibido pela primeira vez na abertura do CINEFOOT deste ano, chegando agora na programação do Festival do Rio. O controverso gol de Diego Armando Maradona neste jogo rendeu a famosa expressão “la mano de Dios” e o catapultou para a história eterna. O barato é descobrir, aos poucos, que o interesse dos diretores vai muito além do dissecamento da partida, e isso fica evidente na maneira com a qual o texto – baseado no livro homônimo de Andrés Burgo – e a montagem – assinada por quatro pessoas, Lucas Coppolecchia, Sebastian Fasanelli, Juan P. Scaglione e Mauro Caporosi – brincam a todo instante com as expectativas do público.

“Este não é um jogo, é o jogo”, afirma, em certa altura, um dos ex-atletas entrevistados. Ter ciência ou não dos acontecimentos envolvendo o jogo não altera em nada o fascínio diante do filme. Para quem sabe de cor e salteado os eventos daquela partida entre Argentina e Inglaterra em território mexicano, o filme se torna uma espécie de “resta um”, no qual você vai eliminando uma por uma as histórias inacreditáveis que povoaram a partida: a mão de Deus, o gol do século, a vingança pelas Malvinas, as superstições do técnico argentino Carlos Bilardo, a camisa da seleção da Argentina confeccionada horas antes do início da partida. Ao mesmo tempo, esse mesmo espectador se encanta com a própria frustração – um movimento narrativo arriscadíssimo e exitoso – na medida em que a montagem corta abruptamente momentos-chave da partida para viajar décadas no passado e contar histórias sobre a colonização, as guerras, a situação sociopolítica do mundo em diversos períodos históricos e por aí vai.

Por outro lado, para aquele espectador que pouco ouviu falar da Copa de 1986, que não sabe que o gol do século foi marcado apenas 4 minutos após o gol contraventor – ou que sequer nem conhece os lances ou a história do jogo – o filme também consegue articular discussões interessantíssimas sobre o mundo e, melhor ainda, é capaz de conceber ideias cinematográficas por meio da análise minuciosa de fatos, fotos e declarações midiáticas. Um exemplo cabal da capacidade analítica dos cineastas está no exame da foto que ilustra o cartaz do filme: nela, temos Maradona à esquerda e Peter Shilton, o goleiro inglês, à direita apertando as mãos pela primeira e última vez. Uma tensão observada com sagacidade e bom humor.

De um ponto de vista, geralmente atacamos e condenamos determinadas escolhas de linguagem a priori, mas poucas vezes nos desarmamos para acolhê-las quando fazem sentido. No caso desta pérola argentina, a opção por colocar ex-jogadores diante das imagens do jogo para recriar memórias poderia soar chapada, mas o resultado ultrapassa o enfoque nostálgico ou procedural. Cria-se, no entanto, uma dinâmica bastante forte entre o que é dito e o que é mostrado, inclusive para além da situação-jogo.

É certo que o futebol tem uma forte presença em “O Jogo”, mas ela não é central. Também não é periférica; está mais para uma espiral de eventos que se retroalimentam – as Malvinas, a guerra, a colonização e, claro, a bola.

Há outra escolha curiosa: depois do apito final, o filme continua em movimento ascendente, com interesse pleno pelo presente. Uma pena, aliás, que não tenha dado tempo de incluir reflexões acerca da Copa de 2026, na qual ambas as seleções também se encontraram em uma partida marcante. “O Jogo” aposta em uma cauda mais comprida, muito bem-vinda, inclusive. O risco seria alongar desnecessariamente uma narrativa coesa e fechar em tom anti-climático. Aqui, pelo contrário, expande-se e ilumina-se o debate, reafirmando o legado de um encontro eterno. O filme se questiona: quando começa uma partida? E quando ela termina? Nós já não temos tanta certeza de como responder.

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– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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