Literatura: “Leia perigosamente”, de Azar Nafisi, um livro para ser lido agora

texto de Jorge Wagner

A vida às vezes parece ficção, e nem sempre de boa qualidade. Como quando, em meio a uma eleição presidencial, um dos candidatos com chances reais é digno de características que poderiam ser atribuídas a vilões de histórias em quadrinhos. Alguém cuja trajetória política se iniciou no papel de funcionário fantasma aos 19 anos — estudando no Rio e dando expediente, magicamente, no gabinete do próprio pai, em Brasília — e que, uma vez eleito parlamentar, veio a acumular denúncias e episódios envolvendo rachadinhas, desvio de verbas, lavagem de dinheiro por meio de uma loja de chocolates incrivelmente bem-sucedida num dos shoppings mais vazios da cidade, defesa de milícia no plenário, sessão de caridosas vagas de emprego em gabinete para familiares de matadores, relacionamento íntimo com um dos mais controversos banqueiros da história do país, dentre outras histórias que poderiam compor um abecedário de envolvimento direto e indireto com todo tipo de crime. Acrescente a isso um pequeno episódio de alívio cômico: o político em questão desmaiou e, dizem, teria cagado nas próprias calças durante um debate televisionado.

Não parece crível, não parece real, e, mesmo assim, lá está ele, o candidato mais votado no primeiro turno. Como se não fossem suficientes os pontos levantados acima, chamam a atenção ainda as relações do candidato em questão com figuras e setores empenhados em transformar um país tão vasto e plural em uma teocracia neopentecostal. Falas como “decretar que o país pertence ao Senhor Jesus”, a proximidade com quem quer retirar o posto de padroeira de uma santa católica e censuras amparadas por um ministro “terrivelmente evangélico”, indicado pelo pai do candidato em questão — aquele que empregou o filho como funcionário fantasma, lembra? — ajudam a compor um quadro que, novamente, parece mais adequado à ficção do que à realidade de um país prestes a escolher seu próximo presidente.

Talvez nunca tenhamos estado antes num momento tão adequado para a leitura de “Leiia perigosamente: O poder subversivo da literatura em tempos conturbados”, da escritora iraniana Azar Nafisi.

Em “Leia perigosamente” (Editora Record, 2026, com tradução de Marina Vargas), Nafisi parte de sua própria trajetória — nascida no Irã, filha de um político que chegou a ser preso pelo regime do xá, professora de literatura em Teerã e posteriormente imigrante nos Estados Unidos — para refletir sobre literatura, democracia e autoritarismo. Escrito entre 2019 e 2020 na forma de cartas ao pai, morto anos antes, o livro aproxima sua experiência sob a República Islâmica do Irã das transformações políticas e sociais observadas nos Estados Unidos durante o governo Trump, e soa profético: o mundo sem Trump carregará, ainda por anos, as marcas do trumpismo.

A partir de autores como James Baldwin, Salman Rushdie e Margaret Atwood, dentre outros, a autora investiga o que acontece quando sociedades passam a temer a imaginação, o pensamento crítico e o contato com ideias divergentes. Num misto sincero de memória pessoal, análise política e leitura literária, os ensaios epistolares defendem os livros não apenas como instrumentos de resistência às tiranias, mas como espaços de diálogo capazes de preservar a complexidade necessária à vida democrática.

Um dos pontos mais altos da obra, e a razão pela qual ela surge indicada neste espaço, é a carta de número quatro, sobre “O Conto de Aia”. Nela, Nafisi compara as mudanças vividas em seu país natal logo após a Revolução Islâmica de 1979 aos sinais claros de que as coisas não andam bem nos EUA de Trump, e mostra como Gilead, a pós-América imaginada por Atwood a partir de episódios da própria história americana, dialoga com aquilo que Nafisi viveu e com o que vivem as mulheres iranianas.

Considere um país dividido, com grupos conservadores que se sentem livres o suficiente para gritar contra cláusulas pétreas como o voto feminino, diante de uma caminhada a largos passos em direção à teocracia. Fica claro que os limites entre o Irã, Gilead e um pós-Brasil que vem sendo construído, no mínimo, desde 2014 não são tão distantes quanto deveriam.

É preciso manter abertos os olhos da imaginação para enxergar a realidade, defende Azar Nafisi. A literatura observa a realidade e a reorganiza a seu modo, somando a isso a criatividade. É daí que surgem ferramentas para reinterpretarmos a realidade e, sobretudo, para nos posicionarmos diante dela.

Nunca foi tão importante ler, e não só as notícias. Nunca foi tão importante estar municiado com as armas da imaginação. “Acredito sinceramente que, mesmo que não possam nos salvar da morte, os livros nos ajudam a viver, e a viver com esperança”, declara Nafisi. Mesmo quando o mundo real parece ficção — e nem sempre da melhor qualidade.

– Jorge Wagner é jornalista, produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell. Lançou em 2023 o álbum “Toda Forma de Adeus“. 

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