entrevista de Bruno Lisboa
Há 16 anos, o Bayside Kings vem construindo sua trajetória dentro do hardcore brasileiro. Nascida em Santos, a banda atravessou diferentes momentos. Se em 2010 determinados sonhos ainda pareciam distantes, como observa Milton Aguiar, hoje muitos deles se tornaram possibilidades concretas. O caminho percorrido modificou a banda, mas não apagou aquilo que ela considera essencial: o som, a integridade e a fidelidade às próprias origens.
É justamente nessa tensão entre permanência e movimento que surge “ATLAS” (2026), novo álbum lançado pela Deck. Com 14 faixas, o disco amplia a linguagem do grupo ao incorporar mais melodia, groove e peso, além de marcar o retorno do guitarrista Marcão, ausente desde Resistance (2016), há uma década. Sua presença, somada à formação com duas guitarras, abre novas possibilidades para uma banda que, segundo Milton, chegou a compor cerca de 30 músicas durante o processo de criação do álbum.
O conceito de “ATLAS” parte da mitologia grega para falar de algo bastante concreto: os pesos, responsabilidades, escolhas e conflitos que cada indivíduo carrega diariamente. Nas letras de Milton, o tema se desdobra em questões de autoafirmação, resistência, política, limites sociais e emocionais e na necessidade de agir diante de uma realidade que exige permanente enfrentamento. “Amadurecer não significa perder a urgência ou a indignação do hardcore”, afirma.
Ao longo da conversa, Milton Aguiar fala sobre os 16 anos de trajetória do Bayside Kings, o conceito de “ATLAS” e a forma como o disco traduz os pesos, responsabilidades e inquietações da vida cotidiana. O vocalista também aborda o momento artístico da banda, o retorno de Marcão e o impacto da nova formação na sonoridade do grupo, além da influência permanente da Baixada Santista em sua identidade criativa. Leia abaixo:
“ATLAS” chega depois de 16 anos de trajetória. Olhando para esse caminho, o que você sente que mudou no Bayside Kings e, principalmente, o que vocês fizeram questão de preservar?
Olhando para o Bayside Kings de 2010 e o de 2026, muita coisa mudou. Aquilo que antes parecia muito distante e até impossível hoje está mais próximo e se tornou totalmente possível para a gente. Ao mesmo tempo, fizemos questão de preservar o som, a integridade da banda e a fidelidade às nossas origens. Continuamos fazendo tudo de um jeito selvagem, mantendo o espírito jovem e usando a música e a nossa mensagem para nos conectar com as pessoas e viver intensamente cada momento por meio da arte.
O título do disco remete a Atlas, o titã condenado por Zeus a sustentar eternamente o peso dos céus. O que essa imagem representa para você hoje? Quais são os “pesos” que você sente que carrega depois de tantos anos de Bayside Kings?
Eu acredito que todo mundo carrega seus próprios pesos, responsabilidades e deveres. Cada pessoa tem um pouco de Atlas dentro de si, porque só ela conhece o peso da própria vida, da sua rotina, das coisas em que acredita, das pessoas para quem precisa servir de suporte e daquilo que ainda quer realizar. Esse peso pode ser uma responsabilidade, uma motivação e, às vezes, até uma prisão. Para mim, cada indivíduo é um Atlas em potencial, disposto a sustentar tudo isso para continuar seguindo em frente e fazer as coisas acontecerem.
Vocês definem “ATLAS” como um disco mais maduro, mas não menos inquieto. Como você entende essa maturidade? É possível amadurecer sem perder a urgência e a indignação que estão na essência do hardcore?
“ATLAS” carrega a vivência de quem está dentro de uma banda que roda o Brasil há 16 anos e de pessoas que já passaram por muitas coisas na vida. Essa maturidade vem com o tempo, porque cada pessoa tem seu próprio ritmo para compreender os processos, as responsabilidades e tudo o que acontece ao seu redor. Queríamos que o disco continuasse soando hardcore, mas que também fosse palpável para qualquer pessoa. Por isso, ele foi escrito de uma maneira simples, sem ser simplista. As ideias vêm de situações reais, de pessoas próximas e de coisas que vivemos ou acompanhamos de perto.
As músicas também se conectam. Algumas dialogam diretamente entre si, enquanto outras abordam o mesmo assunto por pontos de vista e atitudes diferentes. “ATLAS” tem essa dualidade: é rápido, selvagem, pesado e, em alguns momentos, melódico, mas traz uma consciência mais madura sobre o peso das nossas escolhas e responsabilidades. Para mim, amadurecer não significa perder a urgência ou a indignação do hardcore. Significa entender melhor de onde elas vêm e saber expressá-las com mais clareza.
O álbum traz mais melodia e groove e, pela primeira vez, duas guitarras, além do retorno de Marcão depois de oito anos afastado. Como essa nova formação modificou o processo de composição e a sonoridade do Bayside Kings? O Marcão que voltou encontrou uma banda diferente daquela que deixou?
A volta do Marcão foi essencial para esse momento. O último trabalho que ele havia gravado com a gente foi o “Resistance”, lançado há dez anos e, até então, o último álbum completo do Bayside Kings. Depois dele, lançamos apenas EPs e singles. Quando percebemos que era o momento certo para fazer um novo disco, convidamos o Marcão para participar do processo de composição, que já durava pouco mais de um ano. Nesse período, ele também começou a fazer alguns shows substituindo o Teteu. Aos poucos, a nossa sintonia voltou de forma muito natural. O Marcão é um dos meus melhores amigos, e a presença dele estava me fazendo muito bem pessoalmente. Para o coletivo, ele também trouxe uma leveza e um frescor de que a banda precisava.
Ele encontrou um Bayside Kings vivendo uma fase diferente. Hoje, a banda ainda não sustenta completamente as nossas vidas, mas já nos ajuda a viver e nos leva a lugares que antes pareciam impossíveis para um grupo como o nosso. Achei justo que ele também pudesse viver essa experiência ao nosso lado. Musicalmente, o Marcão é uma das pessoas mais criativas que conheço. A presença dele e a formação com duas guitarras ampliaram muito as possibilidades de composição e deram outra força para a sonoridade, tanto no disco quanto nos shows. Criamos cerca de 30 músicas para escolher as 14 que entraram em “ATLAS” e ainda temos material suficiente para, no mínimo, mais dois discos.

As suas letras continuam dialogando com temas recorrentes na trajetória do Bayside Kings, como autoafirmação, resistência e luta cotidiana. Depois de tantos anos escrevendo sobre esses assuntos, como você evita que eles se transformem em repetição? O que mudou na sua maneira de escrever?
As letras do Bayside Kings funcionam como uma espécie de terapia que faço comigo mesmo. Escrevo coisas que, muitas vezes, eu gostaria que alguém dissesse para mim. Depois, tento transformar esses sentimentos em algo que não seja apenas meu, mas que também pertença a quem está ouvindo e vivendo momentos ou buscando caminhos parecidos. Em “ATLAS”, algumas letras são mais diretas, como “ROTINA 6×1” e, principalmente, “SÓ EU SEI E MAIS NINGUÉM”. Acredito que muita gente se reconheça nesse processo de sair da própria zona de conforto, ir atrás do que sonha e fazer o máximo possível para tornar aquilo real.
Mesmo quando os temas parecem semelhantes aos de outros momentos da banda, os pontos de vista e as experiências são diferentes. O disco fala sobre responsabilidades, limites sociais, internos e geográficos, cuidado consigo mesmo e com o próximo, política e tudo o que interfere na nossa vida desde a hora em que acordamos até o momento de dormir. Fala de revolta, ação, urgência, inquietação, dúvida e certeza. No fim, é a soma de tudo isso que nos torna reais.
“Só Eu Sei e Mais Ninguém”, faixa que abre o disco, traz referências muito específicas a Santos e à Baixada Santista. Por que era importante começar um álbum que fala sobre atravessar fronteiras justamente reafirmando o lugar de onde vocês vieram?
Hoje, essa é a minha música favorita de “ATLAS”. Ela foi a última a ser composta. O Rafael Ramos, da Deck, que fez a produção artística do álbum, dizia que ainda precisávamos de uma música de abertura. Então surgiu essa última base e, depois, veio a letra. Atualmente, moro em São Paulo, mas continuo muito presente em Santos. Vivo entre essas duas cidades, e a música nasceu desse momento. Eu amo Santos, seus lugares e tudo o que a cidade representa para mim, mas nunca consegui me identificar com alguns aspectos do localismo que existem ali. Durante muito tempo, vi pessoas que não saíam da cidade para buscar o que desejavam porque acreditavam que já tinham tudo de que precisavam naquele lugar.
Conforme comecei a viajar com o Bayside Kings, percebi o tamanho do mundo e o quanto conhecer outras pessoas, lugares e culturas modificava minha forma de enxergar a vida. Entendi que precisava sair cada vez mais de Santos para não viver de frente para o mar e de costas para o mundo. Para falar sobre atravessar fronteiras, eu precisava começar deixando claro de onde estava partindo. Por isso, a música começa com referências muito específicas à cidade. Quando digo do 1 ao 7, da Divisa ao cais, estou falando dos próprios limites de Santos. A cidade é dividida pelos canais, do 1 ao 7, e tem como extremos a Divisa e o cais, onde está o maior porto da América Latina. A letra parte desse território para falar sobre os sacrifícios que cada pessoa faz diariamente para realizar aquilo em que acredita.
Chegou um momento da minha vida em que me sinto mais livre dos julgamentos alheios e de tudo o que não esteja ligado ao que realmente quero fazer, às pessoas com quem quero estar e às coisas às quais quero somar. Isso exige maturidade. Hoje, invisto meu tempo para fazer esses planos acontecerem, estar bem comigo mesmo e ser um suporte real para as pessoas e para aquilo em que acredito. No fim, só cada um conhece o próprio esforço, os próprios sacrifícios e o peso do que carrega. Por isso, o nome da música é “SÓ EU SEI E MAIS NINGUÉM”.
Você já resumiu o Bayside Kings como uma banda que vem da praia e faz hardcore, sendo totalmente caiçara. O quanto a Baixada Santista está presente na sua maneira de enxergar o mundo e, consequentemente, naquilo que você escreve para a banda?
Eu amo Santos e talvez isso pareça um pouco contraditório diante do que falei antes, mas sair da cidade nunca significou abandonar minhas raízes. Faço questão de manter nossa origem presente para que o Bayside Kings não seja confundido com mais uma banda da capital. Por isso, em todos os shows eu digo: Nós somos o Bayside Kings, de Santos, São Paulo.
Eu via muito isso no Charlie Brown Jr., e acredito que essa afirmação constante ajudava a manter a identidade da banda viva. Para mim, é importante que o Bayside Kings seja reconhecido como uma banda caiçara. Fui formado culturalmente por muita coisa que estava ao meu redor, como Garage Fuzz, Charlie Brown Jr., as bandas dos meus amigos e o esforço de grupos que vieram de diferentes partes da cena da Baixada Santista.
Tudo isso influência minha maneira de enxergar o mundo e também aquilo que escrevo. Mesmo estando cada vez menos em Santos, carregar essas referências comigo faz com que eu continue me sentindo em casa. Quando faço algo que me conecta ao lugar onde nasci e fui criado, Santos continua presente, independentemente de onde eu esteja.
Já assisti ao Bayside Kings algumas vezes em Belo Horizonte e uma coisa que sempre me chama atenção é a intensidade da performance ao vivo. De onde vem essa energia? E como você faz para manter essa entrega depois de tantos anos de estrada?
Belo Horizonte é uma das minhas cidades favoritas do Brasil. A recepção da galera é muito única, e sempre falo que precisamos voltar pelo menos duas vezes por ano para encontrar bons amigos e fazer um bom show. É uma cidade que acolheu muito o Bayside Kings, e sou profundamente grato por isso. Acredito que o Bayside Kings mostra o que tem de melhor no palco. Você pode ouvir a banda e não gostar, porque gosto é gosto. Mas, quando assiste ao nosso show, mesmo que aquele som não seja para você, acredito que saia pensando: “Essa galera é boa no que faz”. A conexão que acontece ali é muito forte.
Não importa se estamos tocando para milhares de pessoas ou para dez. A intensidade e a entrega são as mesmas. Ensaiamos, temos uma ordem para as músicas, mas nenhum show é igual ao outro porque o público é fundamental para tornar cada apresentação única. Tudo acontece de um jeito selvagem, mas com respeito, porque banda e público estão na mesma frequência. É justamente essa troca que mantém nossa energia depois de tantos anos. Cada encontro é diferente e nos dá uma nova razão para entregar tudo outra vez. Por isso, sempre digo que a melhor experiência para conhecer o Bayside Kings é ao vivo, na rua. Quero continuar ao lado do nosso coletivo, ocupando novos lugares, encontrando novas pessoas e vivendo essa conexão em cada cidade.
Ao longo desses 16 anos, você acompanhou mudanças profundas na cena brasileira. O que evoluiu para melhor e o que você acha que se perdeu nesse processo de profissionalização e expansão do hardcore?
Uma evolução muito importante foi o acesso às ferramentas. Para quem quer fazer o próprio corre, o faça você mesmo está mais real do que nunca. Hoje, existem muito mais recursos, informações e canais de comunicação disponíveis. Isso aumentou bastante o fluxo de músicas, projetos e pessoas falando sobre a cena. Há muito mais coisa acontecendo do que havia 16 anos atrás.
Ao mesmo tempo, essa quantidade de informação tornou mais difícil acompanhar tudo. Sempre fui uma pessoa que procurou saber o que estava acontecendo na cena, mas hoje tenho constantemente a sensação de que estou perdendo alguma coisa. Parece que existe algo que falaria diretamente comigo, mas que não chegou até mim ou que eu não consegui encontrar no meio de tanta coisa acontecendo.
Não enxergo isso necessariamente como algo ruim, mas como uma consequência dessa expansão. O acesso aumentou, enquanto a atenção ficou mais fragmentada e a urgência da comunicação acabou se diluindo. Às vezes descubro algo muito depois, mesmo tendo procurado acompanhar. Essa é uma percepção pessoal, mas acredito que outras pessoas também possam sentir essa dificuldade.

“ATLAS” parece representar mais uma evolução do que uma ruptura na trajetória do Bayside Kings. Depois de ouvir o disco pronto, você sente que ele abriu caminhos que gostaria de explorar nos próximos trabalhos?
Sim. Existem caminhos que eu já queria ter explorado antes e fico feliz por isso ter acontecido em “ATLAS”, porque o disco abriu uma janela muito grande de possibilidades para o futuro. Há bastante tempo eu queria trazer para o Bayside Kings algo mais groovado e pesado, com muitos riffs e uma influência que remetesse, por exemplo, ao Rage Against the Machine. Músicas como “SÓ EU SEI E MAIS NINGUÉM” e “CORRIDA DE RATOS” flertam com essa ideia, misturando groove, peso e elementos de hip-hop. Essas experiências trouxeram um frescor para a nossa música e mostraram caminhos que podemos aprofundar nos próximos trabalhos. O ponto principal é conseguir acrescentar novas referências e possibilidades sem perder nossa identidade. Podemos experimentar, mas o resultado ainda precisa soar como Bayside Kings.
Depois do lançamento de “ATLAS”, quais são os próximos passos do Bayside Kings? E onde você gostaria de levar a banda nos próximos anos?
Os próximos passos do Bayside Kings são fazer “ATLAS” rodar o máximo possível. Sinto que o disco furou a nossa própria bolha e começou a conversar com pessoas que ainda não conheciam a banda. Queremos continuar chegando a esses novos públicos e tocando em lugares que antes pareciam impossíveis. Isso significa entrar em mais festivais, mas também continuar presentes nos circuitos e nas casas em que sempre tocamos. Para nós, é muito importante ocupar novos espaços sem abandonar os lugares que fizeram parte da nossa história. Ainda existe bastante coisa para trabalhar dentro de “ATLAS”, e queremos explorar o disco por muito tempo.
Também planejamos continuar rodando o Brasil e voltar a fazer turnês fora do país. Queremos estar onde sentimos que pertencemos, que é na estrada. Quem sabe também possamos retomar o Fubo, um festival que costumávamos organizar antigamente.Vamos construir tudo isso pouco a pouco, trabalhando para fazer acontecer em vez de apenas assistir às coisas acontecendo. Queremos melhorar cada vez mais o nosso próprio corre, conquistar mais estrutura, reunir mais pessoas ao nosso redor e fazer do Bayside Kings uma rede de conexão, arte e trabalho.
– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014. A foto que abre o texto é de André Calvão
