texto de Gabriel Pinheiro
Patti Smith abre seu novo livro narrando o arranhar da caneta numa página, uma palavra surgindo na sequência de outra. “O que significam essas palavras, pergunta a caneta. Não sei, responde o pulso. São palavras que se formam (…)”. Quando criança, a artista sonhou escrever o livro mais longo do mundo, um livro onde qualquer um que o lesse encontraria algo de si. Uma ode à arte, à memória e à imaginação, “Pão dos anjos: A história da minha vida” é um adentrar corajoso e afetivo no labirinto sinuoso da memória de Patti Smith ao longo de quase oito décadas de vida.
Uma Patti de saúde frágil nos é apresentada na infância. Entre estadias breves e mudanças constantes de residência – vivendo em diferentes conjuntos habitacionais precários no pós-Guerra nos Estados Unidos – Smith rememora a vida familiar, ao lado dos pais e dos três irmãos mais novos. “Minha infância foi proustiana, de quarentenas e convalescências intermitentes”. É ainda na infância que ela descobre a poesia, uma forma de explorar os próprios pensamentos, por mais abstratos que fossem.
Partindo da infância, acompanhamos a jornada errática de Patti, das brincadeiras e da relação telepática com os irmãos aos ídolos descobertos na adolescência – Rimbaud, Dylan. Numa visita iluminadora ao Museu de Arte da Filadélfia com a família, há a percepção de que sua vida seria entregue à arte. “Escolhi meu próprio caminho, entreguei meu eu em transformação à arte e decidi me preparar para a vida de artista, jurando que me manteria firme, quaisquer que fossem as consequências”.

Precursora do punk rock e ícone da contracultura nova-iorquina na década de 1970, Patti Smith nos pega pelo braço e, como flaneurs, caminhamos pela cidade norte-americana num momento de efervescência cultural e política singular. Se o premiado “Só garotos” já compreendia esse período da vida e do trabalho da artista, “Pão do anjos” nos apresenta novos detalhes luminosos da vida de Patti Smith em Nova York: as primeiras performances, a escrita da poesia e as amizades. Imagina o que seria morar na mesma rua de Bob Dylan no auge de sua produção artística? Pois é. Patti também narra o processo de gravação e produção de diferentes discos, desde seu debut, “Horses”, obra seminal do punk-rock, que completou 50 anos em 2025.
Esse é também um livro sobre encontros e sobre perdas. “Nascimento, amor e morte, nunca se tocando, sempre conectados”. Robert Mapplethorpe, o amigo de vidas passadas; Fred Sonic Smith, o amor de toda uma vida; Todd, irmão e parceiro de trabalho. Patti Smith narra com muita franqueza o próprio luto, perdas tão prematuras e uma vida que precisa seguir em frente. “Depois que nos casamos, e pelos catorze anos seguintes, com exceção de algumas poucas horas no hospital quando dei à luz nosso filho e nossa filha, Fred e eu nunca nos separamos. Vivemos segundo um relógio sem ponteiros, dentro da mesma pele, navegando no mesmo barco que nunca deixou a terra.” Patti Smith ainda compartilha com o leitor um capítulo recente e profundamente transformador de sua vida, na relação com a família e sua herança genealógica.
Lançado no Brasil pela Companhia das Letras com tradução de Camila von Holdefer, “Pão dos anjos” é o livro mais íntimo de Patti Smith, a celebração de uma trajetória devotada à arte dessa que é uma das nossas maiores artistas vivas. Um texto que te abraça pela fluidez das palavras e do olhar daquela que, antes de tudo, é uma poeta. “Pão dos anjos” é a confirmação de que Smith vive em estado de poesia, seja nas relações com aqueles que ama, e amou, seja com uma caneta e um papel em mãos ou apenas observando um mundo que se descortina pela janela de um quarto de hotel no breve intervalo entre um show e outro.

– Gabriel Pinheiro é jornalista. Escreve sobre suas leituras também no Instagram: @tgpgabriel.
