entrevista de Leonardo Vinhas
Um dos festivais de médio porte mais antigos do Brasil, o londrinense Demo Sul é fruto de um período onde a ideia de criar um circuito midstream a partir do underground não só era forte como possível. Passados 25 anos, muita coisa mudou, mas o festival segue na ativa, fiel à proposta de fortalecer a cena local, promover o diálogo com outras regiões, e trazer propostas artísticas variadas em meio a atividades que fomentam a profissionalização dos artistas e dos agentes culturais.
Ousado? Sim, mas a ousadia tem se pagado. Por mais que o festival não tenha se realizado em alguns anos (essa será a 21ª edição), o Demo Sul faz mais que “resistir”: ele se mantém como um evento importante na região, e tem no edital de convocação para bandas novas um dos aspectos mais interessantes de sua proposta. A ideia é colocar bandas iniciantes de diferentes regiões do país, selecionadas pela curadoria a partir das inscrições no edital, para dividir o palco com nomes mais experientes.
Em meio a isso, o festival sempre promoveu rodadas de negócios, workshops e/ou diálogos com outras manifestações artísticas. A meta sempre foi proporcionar um contato maior com práticas mais profissionais para os iniciantes, ao mesmo tempo que inclui nomes já consolidados, capazes de atrair um público maior para os shows.
Para a edição de 2026, que vai acontecer entre 7 e 16 de agosto, serão 11 palcos espalhados por diferentes locais da cidade de Londrina, no Paraná, sendo 5 oficiais e 6 extraoficiais, ampliando o alcance e a diversidade da programação. O lineup traz como destaques BNegão, Móveis Coloniais de Acaju e Black Pantera, em meio a outros nomes selecionados a partir do edital e da curadoria do festival, como Jonabug, que recentemente tocou no Lollapalooza; Catiça, escalada para abrir o show do Shame em São Paulo, e o trio Urupê – conheça a programação completa, dia a dia, no site do festival, www.demosul.com.br.
Quem explica o funcionamento dessa dinâmica, bem como outras novidades dessa edição, é seu fundador e organizador, o produtor cultural e músico Marcelo Domingues. Domingues já integrou as bandas Convulsão e Trilobit, hoje inativas, e é um nome presente em outros festivais de médio porte – já foi chefe de palco de diversas edições do também paranaense Paraíso do Rock, é um dos curadores para a seletiva paranaense do Porão do Rock (DF) e colaborou em edições do saudoso El Mapa de Todos (RS). Em 2023, foi um dos palestrantes do MIL Lisboa, em Portugal. Por e-mail, ele respondeu às perguntas do Scream & Yell.

Esse é o segundo Demo Sul que você realiza desde que voltou de Portugal. O que sua temporada por lá trouxe de aprendizado para o festival aqui?
Eu fiz um mestrado em gestão cultural lá. Minha pesquisa foi sobre a indústria musical contemporânea portuguesa, desenvolvi estudos sobre redes de circulação musical e internacionalização, com foco na conexão entre o sul do Brasil e o centro de Portugal, essa experiência que originou o projeto RIMEL – Rede Internacional de Música entre Lugares. Nas Caldas da Rainha, cidade onde fiz o mestrado e morei, existem dois eventos, Caldas Late Night e o Impulso Festival, que achei interessante pesquisar – participei como público, produtor e artista. O CLN é um festival anual que transforma Caldas da Rainha em uma galeria a céu aberto, unindo design, música e artes. Ele é produzido pelos alunos da Escola Superior Artes e Design – Politécnico de Leiria, a ESAD.CR (onde estudei), desde 1997, e celebra a mistura entre diferentes linguagens artísticas e experimentações. Acontece durante três noites, ocupa a cidade com intervenções e performances.A partir dessa pesquisa, incorporei a proposta de circulação por diferentes pontos de Londrina, conectando também múltiplas linguagens artísticas. Neste ano, lançamos o Circuito OFF do festival, que ocupará diversos espaços culturais da cidade — de lojas de discos, livrarias e skate shops a espaços públicos, bares e pubs. Ao todo, serão 9 palcos/espaços distribuídos ao longo de 10 dias consecutivos de Demo Sul, com programação diária e atividades contínuas. Na verdade a ideia é transformar o Demo Sul em uma mostra cultural. Como foco na musica independente, até porque festivais já existem muitos, até de sapatos! (risos)
O cenário musical de hoje é totalmente diferente de quando o Demo Sul nasceu, tanto em termos de estética quanto de mercado. Quais as mudanças mais significativas que você nota?
Quando o Demo Sul nasceu, em 2001, a gente estava bem no meio da virada do analógico pro digital. Naquele momento, gravar ainda era caro, a distribuição dependia muito de mídia física e a circulação acontecia principalmente por shows, rádio e imprensa especializada. Hoje, a principal mudança é a digitalização total da cadeia: produção mais acessível, distribuição via streaming e uma lógica de mercado guiada por algoritmos e redes sociais. Isso democratizou o acesso, mas também aumentou muito a concorrência e a velocidade com que tudo acontece.Esteticamente, houve uma mistura muito maior de linguagens e gêneros — as fronteiras praticamente desapareceram. Ao mesmo tempo, o ao vivo ganhou ainda mais importância como espaço de experiência e conexão real, algo que festivais como o Demo Sul continuam fortalecendo.
O que está mais difícil – e o que fica mais fácil – com todas essas mudanças?
O que ficou mais difícil é se destacar no meio de tanta informação e lançamento, hoje todo mundo pode produzir e distribuir, então a disputa por atenção é enorme. Além disso, a sustentabilidade financeira do artista ficou mais complexa, já que o streaming paga pouco e exige escala. Por outro lado, ficou muito mais fácil produzir, lançar e circular música sem depender de intermediários. As ferramentas digitais permitem que artistas construam público, testem ideias e se conectem diretamente com fãs em qualquer lugar. No fim, o jogo mudou: antes o desafio era acessar os meios; hoje é criar relevância, identidade e conexão em um cenário supersaturado.
O edital de convocação para bandas novas parece ser uma parte importante do festival. Quais os critérios para a seleção dos artistas? E o que você acredita que a participação no festival possa proporcionar para eles?
Desde a primeira edição, o edital é um dos pilares do Demo Sul, justamente por garantir transparência e diversidade na curadoria. A seleção leva em conta critérios como originalidade artística, qualidade musical, consistência do projeto, relevância estética e também a capacidade de apresentação ao vivo. Além disso, buscamos contemplar a diversidade regional, de gêneros e de trajetórias, fortalecendo a ideia de um recorte plural da cena independente. Neste ano, o festival também abraça a campanha de combate ao feminicídio, uma diretriz pensada desde a criação do conceito desta edição e incorporada em toda a produção do evento. Isso se reflete, inclusive, na curadoria artística desse ano, onde temos o compromisso de alcançar pelo menos 50% de mulheres no palco, reforçando a importância da equidade e da representatividade. Para os artistas, participar do festival é uma oportunidade real de circulação e visibilidade. O Demo Sul conecta bandas a novos públicos, programadores, produtores e outros agentes do mercado, além de proporcionar uma experiência profissional de palco, estrutura e troca com outros artistas. Mais do que um show, é um espaço de desenvolvimento de carreira – muitos artistas/bandas que passaram pelo festival conseguiram ampliar sua rede, fechar novas datas e dar passos importantes na sua trajetória.
O Demo Sul sempre teve preocupação com a profissionalização das bandas, chegando a fazer rodadas de negócios com produtores e agentes da mídia. Essa premissa continua?
Sim, essa premissa continua sendo central no Demo Sul. O festival mantém o compromisso com a profissionalização das bandas, criando espaços de formação, troca e articulação com o mercado. Neste ano, realizaremos a 16ª edição do Simpósio de Música Independente, além da terceira edição da oficina de produção de videoclipe, ampliando o acesso a ferramentas práticas e conhecimentos estratégicos para os artistas. Toda essa programação formativa também estará alinhada à campanha de combate ao feminicídio, integrando conteúdo, reflexão e prática dentro de uma perspectiva de responsabilidade social e cultural.
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O festival nunca se propôs a ser massivo, mas sempre entendeu a importância de headliners significativos. Porém, nem sempre a curadoria consegue dialogar com o orçamento. É possível encontrar headliners que tenham convocatória de público, mas que estejam dispostos a negociar valores? Ou, perguntando de outra forma: ainda há artistas que entendem a importância de apoiar festivais fora dos grandes centros?
O Demo Sul nunca fez concessões ao mercado no sentido de abrir mão do seu conceito e da sua identidade. Talvez por isso nunca tenha se colocado como um festival massivo — desde o início, trabalhamos com uma curadoria bem definida, voltada à música independente e à diversidade estética. Ao mesmo tempo, entendemos a importância de ter artistas com trajetória consolidada ou em ascensão como headliners, porque eles ajudam a atrair público, ampliar a visibilidade do festival e potencializar a experiência geral do evento.No cenário atual, especialmente no pós-pandemia, o mercado está mais inflacionado e instável, o que torna essas negociações mais desafiadoras. Ainda assim, existem — mesmo que em menor número — artistas e equipes que compreendem o valor simbólico e cultural de festivais fora dos grandes centros, e que se mostram abertos ao diálogo, enxergando o Demo Sul não só como um palco, mas como um espaço estratégico de circulação, conexão e fortalecimento da cena independente.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.
