Download: ouça e baixe “Faixa Seis”

por Leonardo Vinhas

“Raspas e restos me interessam”, cantava Cazuza em “Maior Abandonado”, ainda nos tempos do Barão Vermelho, nos hoje distantes anos 80. E de fato, mesmo nesses tempos de abundância de oferta musical do novo século, continuam interessando. Talvez mais do que nunca.

Por que? Ora, a relativa facilidade de gravar e disponibilizar um álbum, ou ao menos uma canção, é algo muito recente. Durante décadas foi bem pouco comum que as bandas independentes pudessem se dar ao luxo de gravar e produzir tanto material ao ponto de poderem descartar parte significativa dele. Discos de “sobras” e raridades eram coisas de bandas grandes, como The Who (“Odds & Sods”), The Clash (“Black Market Clash”), R.E.M. (“Dead Letter Office”) e outros.

Porém, a partir dos anos 1990, a coisa começou a mudar. No texto do encarte de “Besides”, compilação de raridades do Buffalo Tom, o baterista Tom Maginnis conta que, conforme a banda começou a ter mais respaldo das gravadoras e dos fãs (era a época da procura pelo “novo Nirvana”, que aliás também lançou um disco de sobras, “Incesticide”), começaram a passar mais tempo no estúdio, inclusive gravando material fora do padrão melódico e estético da banda. Esse conjunto de fatores acabou se repetindo para muitos artistas.

Além disso, a tecnologia digital barateou custos de gravação, e já não era mais exclusividade de artistas mainstream a possibilidade de passar semanas a fio em um estúdio (e se for em um estúdio caseiro, passa-se o tempo que quiser). E como era uma época em que CDs tinham vendagens expressivas, por que não embalar essas faixas “perdidas” em um único álbum, para que todo fã e curioso possa comprar?

Grandes álbuns foram feitos segundo esse conceito: Elliot Smith, Manic Street Preachers, Lambchop e muitos outros lançaram seus discos de “sobras”. Mas não haviam apenas descartes de estúdio: os álbuns também continham versões alternativas de faixas já lançadas, alguns temas ao vivo nunca editados publicamente, lados B de compactos, demos e… pérolas musicais, grandes momentos que poderiam passar batido pela História caso não tivessem sido lançadas, mas (felizmente) foram.

A era da música comprimida digitalmente pode ter tornado esse tipo de álbum menos frequente, mas nem por isso os artistas deixaram de experimentar em estúdio. Aliás, é possível que experimentem ainda mais, já que a tecnologia avançou a ponto de ser possível gravar com ótima qualidade de registro em um computador doméstico (há até quem grave em tablet).

“Faixa Seis” é um disco que recupera essa ideia. O título é emprestado de uma grande canção de Sergio Sampaio, na qual ele canta que “você hoje pra mim é a faixa seis / do lado B / do meu último LP / Aquela que o programador do rádio nunca toca / Aquela que o divulgador do disco evita / Aquela que fica espremida entre a quinta / a quinta faixa e o final da fita”. Embora ele apresente esses versos em outro contexto, havia um conceito muito adequado às faixas aqui incluídas.

Não há “faixas de trabalho”, é verdade, mas são muitas as canções de apelo pop. Também não são poucas as que foram gravadas em casa, comprovando que o estúdio “profissional” não é o único caminho para a música de qualidade. E há algo que fica palpável em meio a tudo isso: quando até as “raspas e restos” de criadores de todo o país interessam a ponto de formar um álbum sólido, não há como negar que o Brasil está passando por um dos momentos mais criativamente interessantes de sua história musical.

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Produção executiva e curadoria: Leonardo Vinhas
Masterização: Gustavo Halfeld
Arte de capa: Ceres Prado
Concepção de capa e diagramação: Leonardo Vinhas
Lançamento exclusivo: Selo Scream & Yell

Ouça no Youtube: https://goo.gl/jS4Rgg
Ouça no Soundcloud: https://goo.gl/4ML7UV
Download gratuito via Mediafire: https://goo.gl/4bJLgH

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FAIXA SEIS – Canção por Canção
Por Leonardo Vinhas

1) “Abre Alas”, Vivian Benford. Um dia, ouvindo Portishead em casa, Vivian Benford começou a cantar “Abre Alas”, de Ivan Lins, por cima da base da banda de Beth Gibbons. A partir daí nasceu o arranjo para essa versão, que costuma encerrar seus shows. O take que abre esse álbum foi gravado apenas para registrar o arranjo, sem pretensões de ser lançado – mas ficou tão marcante que mereceu a abertura do álbum.

2) “Em Chamas no Chão”, André Prando. Essa canção sempre encontra boa resposta nos shows do músico capixaba, especialmente em sua terra natal. A única versão disponível era um vídeo gravado ao vivo no Sofar Rio de Janeiro. Prando entrou em estúdio especialmente para realizar a versão desta coletânea.

3) “Xangô É Rei”, CCOMA. Em “Peregrino”, álbum de 2013, o CCOMA se juntou ao “imorrível” Di Melo para criar “Xangô É Rei”. Em 2016, o duo gaúcho regravou a faixa com os vocais poderosos de Etiene Nadine, que juntamente com o baixista Rafael De Boni vem acompanhando o duo na turnê do seu mais recente álbum, “Subtropical Temperado”, também do ano passado.

4) “Rock Is My Soul”, The ESS. O disco do The ESS é uma lenda no underground curitibano. Ele seria lançado pela Midsummer Madness em 2001, mas devido a diversas razões, nunca veio a público. Cinco faixas apareceriam anos mais tarde, captadas ao vivo em um show no estúdio Grande Garagem que Grava, e elas se tornaram o raro EP “Ao Vivo na GGG”, único lançamento oficial do The ESS. “Rock Is My Soul” era uma delas, mas a versão que você escuta aqui é a do álbum “perdido”.

5) “Noites de Algodão”, Cassino Supernova. Sintomaticamente, o quinteto brasiliense viajou muito pelo país promovendo seu álbum “Na Estrada”, de 2012. Porém, mesmo com boas respostas do público pelos lugares onde passaram, entraram no clássico “hiato indefinido”. Muitas canções novas vinham sendo desenvolvidas antes dessa pausa, e o quinteto aceitou o convite do produtor Leonardo Vinhas para finalizar uma delas, “Noites de Algodão”, para esta coletânea.

6) “Demasia”, Nevilton. “Essa é tão nova que ainda não entrou para o próximo disco”, explicou entre risos o músico de Umuarama (PR) radicado em São Paulo. É um provável “extra” de singles do terceiro álbum de Nevilton, provisoriamente titulado “Adiante”. A razão, segundo o músico, é porque “ela tá num nível de desilusão e tristeza que tenho evitado, mas gosto dela, acho bonita… e foi uma musica que nasceu bastante naturalmente, não fiquei lapidando”.

7) “Como Amam os Adultos”, Beto Só. Composta em 2015 a partir da uma conversa com um amigo – há até trechos extraídos literalmente do papo – essa canção foi deixada de lado por Beto Só porque, naquele momento, o músico brasiliense estava trabalhando no ainda inédito “Para Toda a Superquadra Ouvir”, projeto de regravações que não contemplava nenhuma música autoral. A pedido do produtor, Beto Só resgatou essa faixa para “Faixa Seis”. Porém, como não conseguia se lembrar da maneira como a concebeu, acabou refazendo parte da melodia.

8) “I Ain’t no Howling Dog”, Spangled Shore. Gabriel Babinot, o caxiense que responde pela one mand band Spangled Shore, já havia visto que essa canção, com os timbres de voz e violão inspirados nas cabines de voz dos anos 1950, não caberia no seu segundo disco, a ser lançado em 2017. Mesmo assim, manteve a faixa, e a finalizou para essa coletânea.

9) “Parva que Sou”, Jennifer Souza. A releitura do clássico dos portugueses Deolinda (que, vale dizer, nunca a gravou oficialmente em estúdio – a versão que virou hino de manifestações em Portugal foi registrada ao vivo no mítico Coliseu dos Recreios, em Lisboa) foi feita para o “Projeto Visto 2”, lançado pelo Scream & Yell em 2014 como uma ponte entre a música brasileira e a lusitana. Porém, a autorização de uso da canção não chegou a tempo e ela não pôde ser incluída no disco. Agora ela finalmente ganha a luz do dia. Nessa versão, Jennifer Souza surge acompanhada de seu parceiro de Transmissor, Henrique Matheus, responsável pela guitarra e produção da faixa.

10) “Um Pouco de Tudo que Há em Mim”, Luana Godin e Luigi Castel. “sOla”, álbum de estreia de Luana Godin, estava em fase de finalização quando ela e seu parceiro Luigi Castel (também produtor do disco) começaram a trabalhar em outras três canções em seu estúdio caseiro. “Um Pouco de Tudo que Há em Mim” é a única dessas canções que foi concluída, mas não em tempo de fazer parte de “sOla”. Porém, encontrou casa aqui. Luana e Luigi são, na definição dele, “forças unidas pelo amor que temos um pelo outro e principalmente pela arte da musica e do viver”, e essa composição é emblemática porque, ainda segundo Luigi, “fala da esperança de um mundo melhor, da certeza de que tudo são lembranças, e que no fim a diferença é o próximo passo”.

11) “Natural Mystic”, Laya. A origem dessa versão remonta aos tempos em que Laya estudava na EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo) e tinha que escrever um arranjo vocal para uma versão à sua escolha. “Natural Mystic”, de Bob Marley, foi reimaginada inteiramente a capella – inclusive com as vozes fazendo o papel que normalmente cabe aos instrumentos. Em 2013, a cantora e compositora franco-brasileira deu formato final à canção, e logo em seguida guardou-a. Recuperada para “Faixa Seis”, foi ainda remixada e remasterizada.

12) “Vazio”, Camila Garófalo. Numa festa no estúdio Cambuci Roots, em São Paulo, músicos se sucediam tocando informalmente suas composições. Quando a paulista Camila Garófalo veio com suas canções “sombrias e soturnas” (definição dela própria), chamou a atenção de João Vasconcelos. O produtor e ex-Los Porongas ofereceu uma faixa de sua autoria, ainda inacabada, e Camila cuidou de finalizá-la e adicionar versos à letra. Meses depois, Camila e João entraram no mesmo Cambuci Roots para gravar a parceria. Ei-la aqui!

13) “Alguém”, Volver. A canção teria entrado no álbum “Acima da Chuva”, de 2008, se os pernambucanos do Volver tivessem tido dinheiro para mixar e masterizar. Não tiveram. Quando finalmente conseguiram o erário, decidiram deixar a faixa de fora, incluindo a nova “Clarice” em seu lugar, para que o disco tivesse cabalísticas 12 faixas. Desde então, ela permanecia inédita.

14) “Rock Is My Soul (Demo)”, Igor Amatuzzi. O compositor e multiinstrumentista Igor Amatuzzi gravou sob vários nomes (Insomnica, Orkestra Mecânica, seu próprio nome) e com várias bandas (Iris, OAEOZ, Humanish, Tods, Hotel Avenida, Plêiade, The ESS). Muitas das gravações foram caseiras, o que não quer dizer de baixa qualidade. É o caso dessa demo da época do The ESS, mais dançante e mais eletrônica que o registro final feito com a banda completa.

15) “A Décima Quinta Casa desde Jorge Reis e as Doze Insígnias”, Humanish. Criada e gravada em take único dentro de uma jam session para o que seria o segundo disco da banda curitibana, nunca lançado. Era novembro de 2012 e o Humanish passava uma temporada numa chácara em Campo Largo (PR). O baterista Tiaguera Nunes puxou o groove e em pouco mais de um minuto os outros três integrantes se acharam na jam. O corte brusco que encerra a música ocorreu devido a uma pequena pane no computador onde tudo estava sendo gravado, definindo, assim, o final da. O quarteto até tentou reproduzir o clima em novas sessões de estúdio, mas não ficaram felizes com o resultado, preferindo manter o espírito livre da improvisação original.

16) “Vitória Vapor”, Supervão. “Vitória Pós-Humana” é a faixa de abertura do EP de estreia da banda, “Lua em Degradê”. A faixa foi remixada em estilo vaporwave especialmente para a coletânea, com o espírito “pós-humano” intacto.

 “Faixa Seis” é o 10º lançamento do Selo Scream & Yell. Os anteriores foram “Brasil Tambien És Latino (artistas latinos gravando canções brasileiras),Ainda Há Coração” (em tributo a Alceu Valença), “Caleidoscópio” (em homenagem aos Paralamas do Sucesso), “Temperança” (Um Manifesto Contra o Ódio), “Ainda Somos os Mesmos” (em homenagem ao Belchior), “Espelho Retrovisor” (Engenheiros do Hawaii), “Mil Tom” (a Milton Nascimento), “Projeto Visto” (uma troca musical entre brasileiros e portugueses) e “Somos Todos Latinos” (com 16 artistas independentes brasileiros regravando temas do cancioneiro pop e rock dos países de idioma espanhol). O site também já disponibilizou álbuns de Antonio Novaes, Giancarlo Rufatto, Leonardo Marques, Marcelo Perdido, Natália Matos, Transmissor e Walverdes.

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