Para entender: Electric Six

por Leonardo Vinhas

Primeiro, os feitos: uma banda independente que soma 21 anos de carreira, tem 12 álbuns de estúdio, duas coletâneas duplas de raridades e um CD/DVD ao vivo. Dois singles que emplacaram no Top 5 britânico, sendo que ambas as canções foram sucesso em diversos outros países.

Agora, os fatos: é uma banda de heavy disco satanista que também abre espaço para influências de funk, r&b, europop e farofa oitentista. Nunca mais repetiram o sucesso dos dois singles em questão, e vivem em ritmo de turnê incessante por bares dos EUA e da Europa, lançando discos e vídeos financiados em grande parte pelos seguidores devotos que aderem às suas campanhas do Kickstarter e outras plataformas de financiamento coletivo.

No meio disso tudo, uma obra única, às vezes tola, em outras ultrajante, e quase sempre boa (inclusive quando ultrajante).

Esse é um resumo justo da história, ainda em andamento, do Electric Six, uma banda formada em Detroit em 1996 (inicialmente sob o nome The Wildbunch, logo descartado) e que estourou mundialmente em 2003 com o álbum “Fire”, que trazia os tais hits – no caso, “Gay Bar” e “Danger! High Voltage”. Como explicou o vocalista da banda, Dick Valentine, “Fire” era praticamente um “greatest hits” dos sete primeiros anos da banda, composto pelas canções de maior sucesso do já extenso repertório que a banda acumulara em inúmeros shows e demos.

Depois do sucesso massivo, a banda ainda conseguiu hits menores no segundo álbum, “Señor Smoke” (2005), para depois despencar em popularidade e voltar ao circuito de bares, clubes e pequenas casas de shows. Não foi problema: migraram para o selo cult Metropolis Records (onde estão até hoje) e seguiram em frente, com Valentine e o tecladista Tait Nucleus? (com interrogação mesmo) como únicos remanescentes da formação original. Os dois, juntamente com o guitarrista Johnny Na$hinal (que entrou logo após as gravações de “Fire”), são atualmente o núcleo compositivo da banda.

Ainda assim, muito do que é o Electric Six se deve à Valentine. Não apenas por ele ser o compositor mais constante e autor de todas as letras, mas principalmente por ter sido ele quem uniu os elementos díspares que formam o som do sexteto, como o rock farofa, a disco music, a cafonice oitentista, as guitarras grunge e o despudor de juntar tudo isso. Nas letras, Valentine carrega nas imagens escatológicas (no sentido bíblico da coisa) e sexuais, nas quais as palavras “fire”, “evil”, “demon”, “drugs” e “dance” se repetem.

À época de “Fire”, o vocalista declarou que “90% das nossas letras são sobre nada”, e em entrevista exclusiva ao Scream & Yell em 2012, disse que usa essas palavras para que “as canções pareçam mais excitantes do que realmente são”. Seja como for, elas ajudam a compor a identidade da banda, para alegria dos fãs e repulsa dos detratores. Afinal, não é todo mundo que aprecia versos como “gosto mais de você quando está possuída pelo demônio”, “fogo na discoteca! Fogo no Taco Bell! Fogo nos portões do Inferno!”, “tenho algo para enfiar em você no bar gay”, “há demônios em mim / há demônios em você / está escuro demais para enxergar?”.

Ao longo dos anos, o E6, como também é conhecido, soltou álbuns bastante particulares em sua identidade: mais guitarreiros (“Flashy”, “Mustang”), mais pop (”Switzerland”, “Fresh Blood for Tired Vampyres”), mais eletrônicos (“Heartbeats and Brainwaves”), mais suingados (“Human Zoo”, “I Shall Exterminate…”)… Além disso, Valentine tem uma carreira solo com quatro álbuns, e os projetos paralelos Bang Camaro (de hard rock) e Evil Cowards (dance music escrachada). Já excursionaram por mais países que podem contar, tem um séquito de fãs (“a maioria muito legal, mas tem alguns garotos idiotas e gente ruim também”, segundo Valentine), e lançam praticamente um disco por ano. Nada mal para uma banda que, quando começou, se dizia feliz de pensar que poderia sair de Detroit para tocar em Miami…

“Danger! High Voltage”
“Gay Bar” pode ser o maior hit da banda, mas essa faixa, com os vocais (não assumidos) de Jack White, resume melhor a disco grunge safada da primeira fase da banda.

“I Buy the Drugs”
“Switzerland” (2006) é o álbum mais “ensolarado”, com mais temas pop e “pra cima” do que a média. Esse é certamente o melhor da leva, e só não foi um hit porque… Bem, talvez porque a letra diga que “eu sou o seu homem e eu pago as drogas”?

“Dance Pattern”
Os anos 80 também entram na receita de Dick Valentine e seus amigos: gravaram covers de “Radio Gaga” (Queen) e “Easy Lover” (Phil Collins), por exemplo. Mas funciona melhor quando eles trazem a década da vergonha para sua estética despuradorada. É o caso dessa favorita dos fãs, presente no álbum “I Shall Exterminate Everything Around Me that Restricts Me from Being the Master” (2007).

“When I Get to The Green Building”
O sexteto tem uma veia bem desenvolvida para baladas épicas, sejam elas influenciadas pelo hard rock ou pelo pop europeu. Essa última referência vale para essa canção de 2007, uma metáfora apocalíptica sobre morte e… a sede da rede Domino’s Pizza.

“Clusterfuck!”
Versão mais “modernosa” da barulheira dançante do E6, presente no álbum “Zodiac” (2010). Além de representar o som mais “encorpado” que a banda mostra nessa década, também traz o nonsense lírico no auge, combinando escatologia, bravatas auto-laudatórias e Banco Imobiliário.

Bônus: “Night Vision (Live)”
Mais uma faixa de “Switzerland”, é a preferida do autor deste texto, e traz outro elemento constante na música do E6: os contracantos de Johnny Na$hinal no refrão (que também são marcantes em outra favorita da casa, “Dirty Ball”).

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Para entender:
– Para Entender: Bufallo Tom -> O legado do Buffalo Tom ainda mexe com muita gente (aqui)
– Para Entender: Butthole Surfers -> uma história, ultrajante, errática e incorreta (aqui)
– Para Entender: New Model Army -> Extensa discografia que merece ser vasculhada (aqui)
– Para Entender: Los Fabulosos Cadillacs -> Uma das maiores bandas da América Latina (aqui)
– Para Entender: The My Morning Jacket -> Excelentes álbuns e shows delirantes (aqui)
– Para Entender: The Replacements -> Em seu auge, a banda lançou discos perfeitos (aqui)
– Para Entender: Mano Negra -> Uma das bandas mais influentes da França (aqui)
– Para Entender: Black Crowes -> Uma música bela, intensa e pouco acomodada (aqui)

Leia também:
– O absurdo das letras de Dick Valentine em “Destroy the Children” (aqui)
– Electric Six (2012): “Ao longo dos anos houve pequenos desentendimentos” (aqui)
– “Fresh Blood for Tired Vampyres” oscila entre o satisfatório e o muito bom (aqui)
– “Fire”, Electric Six – “É colocar o CD no som e armar a festa” (aqui)

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