Download: Brasil También Es Latino

por Leonardo Vinhas

A “identidade nacional” está expressa nos documentos oficiais que carregamos. Fora deles, ela faz algum sentido? Em meus quase 40 anos de vida, não consigo lembrar de outro momento onde se usou tanto a expressão “viver na bolha” quanto agora. Seja nas opções ideológicas, na relação com a tecnologia, com o microcosmo social, com o que for: cada um parece estar mais enfurnado em seu mundinho, e mesmo quem viaja parece fazê-lo só para tornar a bolha mais bonita, expondo fotos em vitrines digitais para ostentar maior poder aquisitivo num mundo onde o mero carimbo no passaporte virou sinônimo de experiência de vida. Essa realidade é bem triste para quem, no fim dos 1990, acreditava que as fronteiras iriam perder seu sentido. O Muro de Berlim tinha caído, a União Europeia havia se formado, o Leste Europeu ia se abrindo… A internet deixava de engatinhar e já andava com pernas mais firmes. Enfim, a utopia de nos aproximarmos sem que nacionalidades fizessem diferença parecia prestes a acontecer. Acreditávamos nisso, muitos de nós, e éramos tão ingênuos nessa crença que “Clandestino”, álbum do Manu Chao, virou trilha sonora de nossas viagens, independente de qual fosse o destino.

Estamos em 2016, e a utopia não se concretizou. Pior: estamos em um forte retrocesso, com o conservadorismo moral e político soando forte como há décadas não soava. As fronteiras estão se fechando, e o Brexit é a ponta de um iceberg cujo tamanho ainda não sabemos. No meio disso tudo, ainda há quem acredite que as fronteiras não importam. Que os limites geográficos do local onde nos criamos pode interferir em alguns dos nossos comportamentos, mas essencialmente somos quem decidimos ser, e as diferenças “nacionais” servem para apimentar e tornar mais divertida a relação com aqueles que não compartilham o mesmo CEP. Que as diferenças não estão aí só para serem “respeitadas”, mas assimiladas, reaproveitadas, viradas no avesso, e resultar em tanta coisa boa e diferente que nem o mais chato dos “especialistas” vai conseguir classificar a mistura resultante. A biologia comprova: a miscigenação nos torna mais fortes. “Pureza” – de nacionalidade, raça ou gênero (sexual, musical, seja qual for) – é o caminho mais certo para o aborrecimento, para ficar estagnado. Para a mudança positiva, é necessário assumir-se como vira-lata. E quem já teve um cachorro sabe: os “puros de raça” podem ter sua doçura, mas nenhum cão é tão vibrante e resistente quanto o vira-lata.

E é isso que nós somos. Vira-latas. Latinos. Sem distinção. Tudo misturado. Aqui no Brasil, o “complexo de vira-lata” ganhou outro significado, bem mais pernicioso. Com o devido respeito a Nelson Rodrigues, que cunhou a expressão: é hora de nós assumirmos que o bicho da rua pode ser bem mais interessante e divertido que aquela coisinha preparada e cheia de não-me-toques de pet shop. Quem somos “nós”? Todo mundo que está neste disco, músico ou colaborador, é latino. Artistas da Colômbia, Venezuela, Uruguai, Peru, Equador, Argentina, Brasil, México e Costa Rica. Porém, quem ouve não procura passaporte dos músicos,  só a música mesmo. E sabe que esse país aqui, o único a falar português no continente, é latino. Latinaço e vira-lata. Só falta sair do armário. Somos todos latinos. Brasil también es latino.

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Produção: Leonardo Vinhas
Masterização: Otavio Bertolo
Arte: Bruno Honda Leite
Lançamento: Scream & Yell – Zona de Obras

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 BRASIL TAMBIÉN ES LATINO – FAIXA A FAIXA

1) “A Montanha” – Nicolás Molina (Uruguai)
Original: Rubinho e Mauro Assumpção
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A relação do uruguaio Nicolás Molina com a música brasileira é tão forte que ele escolheu esse disco como um momento de marcar a estreia de seu projeto solo (que não implica em interrupção das atividades do Molina y Los Cósmicos). Apesar de ter uma premissa mais livre que o projeto que lhe deu fama, a releitura dessa pérola setentista obscura se baseia em elementos já consagrados na música de Molina y Los Cósmicos: o folk épico, as vozes sussurradas e a influência das trilhas dos spaghetti western.

2) “O Cometa” – Ságan feat. Kanaku y El Tigre (Colômbia / Peru)
Original: Rodrigo Amarante
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Os colombianos María Monica Gutiérrez e Felipe Ortega Blanco, coletivamente conhecidos como Ságan, já pensavam em fazer uma versão de alguma composição de Rodrigo Amarante. Com o convite para este disco, “O Cometa” passou a tomar forma, e teve uma guinada inesperada com a participação especial e imprevista dos peruanos Kanaku y El Tigre. As duas bandas se conheceram nos Premios Shock, em Bogotá, e no dia seguinte já dividiam estúdio para criar essa delicada e apaixonante releitura.

3) “Baby” – La Pequeña Revancha (Venezuela)
Original: Mutantes
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Se há brasileiros que conhecem Juan Olmedillo, é porque ele passou duas vezes pelo Brasil com sua banda punk Los Mentas. Mas La Pequeña Revancha, projeto que montou com a cantora e guitarrista Claudia Lizardo, vai para os lados da psicodelia e do indie pop, estéticas que acabam por nortear essa doce execução da pérola pop de Caetano Veloso que os Mutantes levaram para o mundo todo.

4)“Rosa Menina Rosa” – Sotomayor (México)
Original: Jorge Ben
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Cabeças da banda que leva seu sobrenome, Raúl e Paulina Sotomayor são percussionistas e, como tal, apaixonados pela música brasileira. Escalados inicialmente para fazer “Barato Total”, de Gal Costa, optaram por essa pérola de Jorge Ben. Aqui, a composição mantém seu frescor, porém com uma reinvenção de suas batidas e seu clima pela ótica eletrônico-percussiva.

5) “Eu Só Quero Um Xodó” – Rialengo (Costa Rica)
Original: Dominguinhos / Gilberto Gil
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O costarriquenho Carlos Loria, líder do Rialengo, é radicado no Uruguai, onde mantém uma “vida paralela” tocando forró (!) na banda Papo Furado. Já versado no cancioneiro forrozeiro, cogitou muitas canções até decidir pelo clássico de Dominguinhos. Ao vocalista Francisco Murillo coube o papel de crooner, na melhor tradição caribenha. Com essa combinação, a dor da original se transforma em um momento de desapegar do velho para abraçar o novo, renovado sob o sol da própria determinação.

6) “Preta Pretinha” – François Peglau (Peru)
Original: Novos Baianos
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Peruano e filho de mãe francesa, François Peglau não é muito versado em música brasileira. Mesmo assim, aceitou a sugestão de gravar “Nine Out of Ten”, de Caetano Veloso. Afinal, a maior parte da letra é em inglês e fala sobre estar meio deslocado nas ruas londrinas – algo que reflete a experiência de Peglau, que morou na Inglaterra por anos. Só que, deixando o Youtube decidir uma playlist de música brasileira, apareceu o clássico dos Novos Baianos. “Isso é lindo! Alguém vai fazer essa?”, perguntou. Diante da negativa, ele pediu para mudar sua escolha e levou a faixa de “Acabou Chorare” para um lugar entre o lo-fi e a new wave.

7) “Araça Blue” – Mateo Kingman (Equador)
Original: Caetano Veloso

Xamanismo, espiritualidade e sons urbanos misturados aos da selva estão entre os temas que norteiam o trabalho do equatoriano Mateo Kingman. Assim, “Araçá Blue” foi o ponto de partida para sua versão da pérola da estranheza de Caetano Veloso em uma cama eletrônica-psicodélica.

8) “Refuse/Resist” – Lefunders (Argentina)
Original: Sepultura
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Vendo os Lefunders ao vivo, não há como não perceber a influência de heavy metal na bateria de Miguel Nikolov. Assim, após um show e antes de uma entrevista para o Scream & Yell, disse a ele que “vocês deviam gravar Sepultura no estilo de vocês”. A ideia nunca saiu da minha cabeça, e não sosseguei enquanto não os convenci. A persistência valeu a pena, como se pode escutar.

9) “Será” – Valle de Muñecas (Argentina)
Original: Legião Urbana
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A canção do Legião Urbana abria um cassete com “as melhores faixas do rock brasileiro”, de procedência incerta. O que se sabe é que a fitinha passou pela mão dos irmãos Luciano e Mariano Esain, respectivamente baterista e guitarrista/vocalista do Valle de Muñecas. A memória afetiva determinou a escolha da canção, mas o arranjo buscou referências em outra influência querida ao quarteto argentino: o power pop dos EUA, com as guitarras na frente e sem medo de falar alto para levar a melodia. Como se fosse pouco, cometeram uma bela versão em espanhol da letra.

10) “Inferno” – Buenos Muchachos (Uruguai)
Original: Nação Zumbi
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Pedro Dalton, vocalista dos Buenos Muchachos, é um dos mais respeitados letristas do rock uruguaio. Empenhou-se em verter a letra para o espanhol, mas manteve versos em nosso idioma. “Sempre senti que deveria cantar o refrão em português, falar com minha alma brasileira. A letra da Nação é muito precisa, e se por um lado é niilista, tem a força da palavra certa. Me emociono com o risco da mensagem”, explicou. A banda acompanha essa convicção, e entrega uma versão tão épica quanto sombria.

11) “Só Vendo que Beleza (Marambaia)” – Andrés Correa (Colômbia)
Original: Henricão e Rubinho Campos
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A cantora Carmen Costa gravou, em 1942, “Só Vendo que Beleza”, que no mesmo ano seria “reimaginada” como “Casinha da Marambaia” pelos mesmos autores, Henricão e Rubens Campos. Em algumas das versões posteriores – de Elis Regina (a mais conhecida), Maria Bethânia, Moreno+2 e outros – as duas se fundem. O colombiano Andrés Correa, entusiasta e “fuçador” da música brasileira, deu sua própria versão da letra, em um take simples, emocionante e pessoal.

 “Brasil Tambien És Latino” é o nono álbum produzido e oferecido pelo Scream & Yell: os anteriores foram “Ainda Há Coração” (em tributo a Alceu Valença), “Caleidoscópio” (em homenagem aos Paralamas do Sucesso), “Temperança” (Um Manifesto Contra o Ódio), “Ainda Somos os Mesmos” (em homenagem ao Belchior), “Espelho Retrovisor” (Engenheiros do Hawaii, que já ultrapassou a marca de 22.500 mil downloads), “Mil Tom” (a Milton Nascimento, próximo dos 21 mil downloads), “Projeto Visto” (uma troca musical entre brasileiros e portugueses) e “Somos Todos Latinos” (com 16 artistas independentes brasileiros regravando temas do cancioneiro pop e rock dos países de idioma espanhol). O site também já disponibilizou álbuns de Antonio Novaes, Giancarlo Rufatto, Leonardo Marques, Marcelo Perdido, Natália Matos, Transmissor e Walverdes.

9 thoughts on “Download: Brasil También Es Latino

  1. Na música 7 na descrição das faixas o título está “Jorge da Capadócia” mas o texto é sobre a “Araça Azul”. Rolou essa versão do Jorge Ben ou foi um erro de escrita?

    1. Po, Cap Troz! Valeu a chamada! É “Araçá Blue”, mesmo. Ia ser o clássico do Jorge Ben, mas o Mateo Kingman mudou de ideia de ultima hora.

  2. Oi, este não é um comentário. Pretendo divulgar o disco ‘Brasil También Es Latino’ no site Uma Casca de Noz, no qual sou colaborador. Podem me dizer se tem planos para novos trabalhos em 2017? Já tem algo encaminhado?

    Grato e depois eu envio o link.

    Abs.

    Marcos Imbrizi

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