Entrevista: Os Velhos (Portugal)

por Pedro Salgado, de Lisboa

O começo d´Os Velhos remonta a 2006, quando quatro colegas do Colégio São João de Brito, em Lisboa, se juntaram pelo amor à música, tocando versões de Jack Johnson, White Stripes e Red Hot Chilli Peppers, entre outros. A designação da banda deve-se a uma ideia global de rudeza que o grupo associou ao nome Os Velhos e que mais tarde se definiria no seu trajeto. A sintonia com Manuel Fúria (fundador do selo Amor Fúria) resultou na gravação do primeiro trabalho da banda, o EP “Os Velhos”, de 2009.

Dois anos mais tarde, Francisco Xavier (vocalista e guitarrista), Pedro Lucas (baterista), Sebastião Ribeiro (baixista) e Zé Tavares (guitarrista) lançaram um magnífico álbum homônimo de estreia. Nele, o grupo lisboeta enveredou por um punk dançável e luminoso, do qual se destacaram as faixas “Conservação dos Pregos”, “Deixa-me Dançar” e “Senhora do Monte”. Mais seguros das suas capacidades e propagando shows celebratórios, Os Velhos deixaram a sua marca na emergente cena musical portuguesa.

Ao longo da conversa com Francisco Xavier e o tecladista Frederico Albuquerque (que entrou no grupo após a saída de Zé Tavares) num café lisboeta, a dupla revela simpatia e uma total despreocupação relativamente ao percurso da banda. No novo disco homônimo, Os Velhos apostaram numa folk-rock relaxante, com influências de Bob Dylan, Tom Petty e até do southern rock dos Black Crowes. Questionado sobre uma eventual incompreensão à nova sonoridade por parte de alguns fãs da fase roqueira, Francisco Xavier revela uma postura firme: “Normalmente não esperamos nada de especial em troca, apenas lançamos o disco, ele rola e as classificações que lhe atribuem são secundárias para nós”, diz.

No show de apresentação na Musicbox, a 17 de Novembro, a comunhão entre o público e a banda foi total. Temas como “Preta”, “Estrada Branca” ou “Toda” revelaram uma força lírica e intensidade musical notáveis, traduzindo uma ideia de liberdade individual que foi recebida com a mesma aclamação das faixas mais antigas. Relativamente ao posicionamento na nova cena musical portuguesa, o grupo assume a sua autonomia em face do movimento e prefere destacar outros aspectos. “Os Velhos não fazem distinção entre música portuguesa, anglo-saxônica ou outra. Interessa-nos mais se a música nos marca ou traz coisas boas”, explica Francisco.

Sobre o futuro do grupo, a perspectiva é cautelosa. “Para fazermos este disco demoramos muito tempo, porque temos outra atividade profissional. Assim sendo, a nossa previsão é que será cada vez mais difícil fazermos ensaios e compor muitas canções”, afirma Frederico Albuquerque. De Lisboa para o Brasil, Os Velhos conversaram com o Scream & Yell. Confira:

Porque demoraram cinco anos para gravar um novo disco?
Geralmente, não damos nomes aos discos, mas, por vezes, falar de um novo disco homônimo soa um bocado confuso (risos). Isso aconteceu por duas razões, por um lado ocupamos a maior parte do tempo estudando e agora trabalhando juntos como arquitetos. Fazemos música porque à parte da nossa vida normal gostamos de música e habituámo-nos a tocar durante vários anos. Por outro lado, quando surgem alguns temas que estejam terminados e justifiquem o lançamento de um disco dedicamo-nos a isso e foi o que aconteceu com o novo álbum. Como temos outra ocupação profissional, o processo musical fica mais lento e só nos dedicamos à música no ritmo que interessa ao grupo. Fundamentalmente não tínhamos a certeza se faríamos este disco nem sabemos se faremos outro, mas somos autônomos relativamente aos calendários editoriais.

O novo disco homônimo apresenta uma mudança relativa ao trabalho anterior. Porque vocês substituíram a energia do punk por um folk-rock mais calmo?
Na realidade, não houve uma opção consciente de seguir essa via. Foram aparecendo algumas músicas e outras ficaram para trás e na seleção musical apostamos nas canções de que gostávamos mais. Os temas com que nos relacionávamos melhor acabaram por ser os mais calmos. Existem diferenças nítidas entre os dois discos e aquilo que mais nos interessava no outro álbum manteve-se neste trabalho com diferentes instrumentos, estruturas e tempos musicais.

As faixas “Manso” e “Estrada Branca” impressionaram-me pela intensidade e emotividade. Foi essa a razão pela qual as escolheram como singles?
As primeiras músicas lançadas foram as que estavam prontas. O disco foi gravado em duas sessões de dois dias separados por alguns meses. A primeira sessão teve seis canções e a segunda teve três. Nesse sentido, começámos a lançar músicas no final do ano passado e “Aberta Nova” foi o primeiro tema que liberamos e tivemos de escolher entre as seis primeiras e o “Manso” nem sequer estava concluído nessa altura. A razão pela qual saíram os singles “Aberta Nova” e depois “Estrada Branca” foi por serem as canções que tinham mais força para sair naquele momento. A maneira como fazemos as coisas não implica nenhum calculismo nem pretende obter resultados. Também pensamos em avançar com as faixas mais simbólicas para que o público compreendesse o que estávamos fazendo. Por isso, essas canções sintetizam melhor o sentido do disco, como é o caso de “Manso” e talvez não sejam tão extremadas.

A edição de “Os Velhos” coincide com o encerramento do selo Amor Fúria. Que balanço fazem da vossa parceria?
Fazemos um balanço positivo. Basicamente, o nosso envolvimento com a Amor Fúria coincidiu com o momento em que preparávamos o nosso EP “Os Velhos”, de 2009, bem como o início de atividade desse selo. Nós já conhecíamos o Manuel Fúria e houve logo um sincronismo de vontades. Eles queriam gravar e nós pretendíamos lançar a nossa música. Na prática, a Amor Fúria incluía três ou quatro pessoas com quem fomos estabelecendo relações de amizade e isso era o mais importante para Os Velhos. Uma vez que era um selo independente, não profissionalizado e constituído por amigos, ajudou a desenvolver o processo musical. No que diz respeito às atividades da banda, houve uma melhor promoção para shows e presença na rádio, que provavelmente teríamos mais dificuldade de executar se a fizéssemos sozinhos. O nosso primeiro álbum foi gravado pelo técnico de som José Fortes (que gravou com os Heróis do Mar, Rui Veloso e Jorge Palma). Nós queríamos ter um som de sala e garagem e a capacidade de concretização da Amor Fúria possibilitou que o Fortes montasse o seu estúdio ambulante em nossa casa. O mais importante da relação com a Amor Fúria foram as relações que criamos e embora eles tenham terminado, os seus integrantes continuam ativos e trabalhando na área musical.

No show de apresentação do álbum, os fãs cantaram as vossas canções como se estivessem entoando hinos. Esta devoção ainda vos surpreende?
Relativamente a Os Velhos esperamos que não seja devoção (risos). O sinal mais importante é que as pessoas gostam do disco e identificam-se com ele. Não sabemos dizer a razão pela qual fazemos músicas, mas acaba por ser uma necessidade. Uma coisa é certa, fazemos canções com as quais nos relacionamos. São importantes para nós e como representam algo de profundo e forte, por vezes nem são confortáveis de tocar ao vivo. A melhor coisa que os temas podem propor é um encontro entre a banda e os fãs nesse lugar íntimo, embora não pensemos nas pessoas quando compomos. No show da Musicbox exibimos a nossa relação com a música e não falamos muito com o público. E não é uma questão de statement ou estilo, talvez seja apenas timidez. Quem quiser tirar algo da atuação é livre de o fazer e esperamos que não extraia uma conclusão negativa.

Gostariam de deixar uma mensagem para os leitores do Scream & Yell?
Esperamos que as nossas músicas possam trazer algo de bom às pessoas que nos escutarem no Brasil e, para isso, elas vão ter de fazer um esforço de compreensão do nosso português (risos). Gostaríamos de ir ao Brasil e acreditamos que isso é possível. Houve uma época em que escutávamos Los Hermanos e até já nos cruzamos com o Marcelo Camelo em Lisboa, mas não conhecemos muito bem o seu trajeto solo. No entanto, o Pedro Lucas (baterista) é um grande conhecedor de música brasileira e está atento às novidades.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui. A foto que abre o texto é de David Caetano / Divulgação

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