Crítica: “Oasis: Don’t Look Back in Anger” registra a apoteose da mais esperada e improvável reunião do século

texto de Davi Caro

Não é exagero dizer que a turnê de reunião do Oasis já é um dos eventos musicais mais memoráveis desta década. Mesmo aqueles menos afeiçoados às canções que alçaram a banda de Manchester ao estrelato nos anos 90 têm de concordar que a reconciliação dos irmãos Noel e Liam Gallagher constitui uma espécie de milagre contemporâneo – daqueles que só acontecem uma vez a cada 20 anos (ou mais). A dinâmica pessoal conturbada sempre serviu como uma espécie de complemento à interpretação autêntica, por parte de Liam, das geniais canções que seu irmão mais velho compôs; esta mesma combustão gerada pelo choque de egos e personalidades dos dois também terminou sendo a causa da dissolução da banda, em 2009, após a saída barulhenta de Noel. As inúmeras ofensas e comentários ácidos direcionados um ao outro, através da mídia, ao longo dos últimos 15 anos, definitivamente não foram o bastante para que a legião de fãs que o Oasis angariou por todo o mundo abandonasse as esperanças de, um dia, testemunhar o retorno do grupo. Ninguém poderia ter esperado que isso aconteceria – quem dirá se concretizar, (quase) sem atribulações ou brigas.

Neste sentido, “Oasis: Don’t Look Back In Anger” (2026) com certeza cumpre com louvor a missão de documentar a turnê “Live ‘25”, que atravessou o mundo entre julho e novembro de 2025. Mas, em alguns sentidos, consegue ir além: dirigido por Will Lovelace e Dylan Southern (a mesma dupla responsável por dois interessantes e informativos documentários da história recente: “Shut Up And Play the Hits”, de 2012, e “Meet Me In The Bathroom”, de 2022), o filme adquire a característica de registro histórico mesmo por outro motivo: fosse com o objetivo de gerar ainda mais mistério em meio ao público, fosse para evitar quaisquer atritos que pudessem eventualmente colocar a operação em risco, nenhum dos Gallaghers aceitou dar entrevistas antes ou durante a turnê. Deste modo, “Don’t Look Back In Anger” (que teve lançamento limitado nos cinemas brasileiros e, agora, chega ao streaming via Disney+) é o registro definitivo da tour de reunião sob a perspectiva de suas duas maiores estrelas.

Os acontecimentos que antecederam esta mesma jornada de retorno, oficializada em agosto de 2024, não poderiam ser simplesmente ignorados; a dupla de diretores acerta, no entanto, em não dedicar mais tempo do que o necessário a dissecar a briga que resultou no fim do Oasis. Pelo contrário: não demora muito para que a produção se dedique a trechos gravados durante as seis semanas de ensaios dos dois irmãos, junto a seu fiel esquadrão de escudeiros – o baixista Andy Bell (presente na banda desde 2000), o guitarrista Gem Archer (que se juntou à banda na mesma época), o baterista Joey Waronker (reconhecido por uma extensa folha corrida de serviços que inclui R.E.M. e Beck, entre outros), o tecladista de apoio Christian Madden e, mais crucialmente, o guitarrista e membro fundador Paul “Bonehead” Arthurs, que deixou a banda em 1998 após os excessos, em estúdio e na estrada, do controverso “Be Here Now” (1997). Mas o foco, claro, não poderia ser outro; embora todos os membros, e em especial este último, se façam merecedores de referências diretas, nenhum deles é sequer entrevistado pela equipe de filmagens. Todos os trechos dedicados a entrevistas com a banda são inteiramente voltados a Liam e Noel, como se a ideia fosse mostrar que não, a reabilitação das relações musical e fraternal dos dois irmãos não é apenas um truque midiático.

Outro acerto está nas bem capturadas imagens ao vivo da turnê, começando pelo primeiro, e climático, show do Oasis desde 2009, na cidade de Cardiff, no país de Gales. Além de documentar o nível de preparação e tensão dos próprios músicos e equipe frente à estreia da turnê (e resultar em um dos momentos mais impagáveis do filme, com a equipe de segurança sendo instruída sobre como lidar com a catarse que estava prestes a ocorrer), é aqui que fica claro o grande diferencial desta produção. Afinal, como os dois principais integrantes do grupo fazem questão de destacar, seu público é parte fundamental do espetáculo que, contra todas as probabilidades, foi possível materializar. E vamos combinar que mesmo o mais cético dos haters deve achar difícil conter a emoção de ver membros da audiência às lágrimas, mal sendo capazes de acreditar no que estão testemunhando. Desde a performance de “Hello” (a faixa que abriu todas as apresentações da tour), fica claro que não é para menos – ainda que não seja a mesma de outrora, a voz de Liam soa tão inconfundível quanto os timbres de guitarra de Noel, mesmo que o nervosismo do primeiro show de retorno acabe transparecendo em alguns momentos do registro.

A importância e a dedicação dos fãs nunca deixam de estar em foco aqui: um bom exemplo disso está na malta de seguidores da banda que pulou a cerca do Heaton Park, de Manchester, onde o show do grupo em sua cidade natal acabou sendo realizado. Mesmo sem ingressos, legiões de fãs se dependuraram em árvores e cercas para escutar uma reluzente “Some Might Say”, que Liam dedica aos determinados penetras. Mas a tal admiração, se pode ver, é perceptível muito além das fronteiras do município onde o Oasis se formou: seja na Coreia do Sul, onde a execução de “Acquiesce” é sobreposta com a rotina de mergulhadores e coletores de algas apaixonados pela banda; seja na Argentina, onde a paixão pela banda, que espelha a devoção local religiosa pelo futebol, se pode notar em cada instante de uma “Wonderwall” cantada em uníssono; ou mesmo nos EUA, onde o status de one-hit-wonder do grupo mancuniano se mostra, no mínimo, questionável, após uma eletrizante “Roll With It”, gravada no mítico Rose Bowl.

Alguns momentos, no entanto, se destacam por seu peso histórico e/ou emocional. O espectador pode acompanhar uma fã inglesa da banda, que sobreviveu ao atentado terrorista de maio de 2017, na Manchester Arena (onde mais de vinte pessoas foram assassinadas pelo Estado Islâmico durante um show de Ariana Grande) e que fala sobre a importância da canção que dá título ao filme, e que é incluída aqui em uma redentora versão estendida, gravada no estádio de Wembley. E, como não poderia deixar de ser, o Brasil acaba cobrando certo protagonismo no filme: dá um quentinho no coração acompanhar a fã que, embora não identificada, superou a depressão graças às canções do Oasis, chegando inclusive a nomear seu simpático cachorro com o mesmo apelido de Bonehead. Representando os dois derradeiros shows da tour, a passagem por São Paulo, em novembro de 2025, com duas performances realizadas no estádio do Morumbi, carrega um peso todo próprio: para além de eternizadas aqui via uma demolidora “Bring It On Down”, as apresentações também ocorreram pouco após o falecimento de Gary “Mani” Mounfield, eterno baixista dos Stone Roses e um dos primeiros grandes nomes a se aproximarem de um Oasis ainda iniciante. É ao falecido ídolo e amigo que um visivelmente emocionado Liam canta a sempre arrepiante “Live Forever”, à beira das lágrimas.

Já se sabe, no entanto, que os dois shows no Morumbi não foram, afinal, os últimos shows do Oasis: uma nova turnê, programada para começar em maio de 2027, deve levar a banda mais uma vez a estádios da Europa e dos EUA, culminando no que se espera ser o triunfal retorno dos Gallagher e sua trupe ao Knebworth Park (onde, há mais de 30 anos, a banda realizou seus shows mais emblemáticos). Poderia ser interpretado como apenas a extensão de uma rentável excursão; os mais cínicos poderiam, inclusive, argumentar que este pode se tornar apenas um novo hábito bianual, que há de se provar bastante proveitoso financeiramente mesmo que os irmãos nunca registrem uma única nova composição juntos sequer. No entanto, nem Liam nem Noel nunca fizeram questão de esconder seus objetivos – assim como sua lendária arrogância, a satisfação dos dois em seu retorno conjunto aos palcos, depois de mais de dez anos de animosidades e expectativas frustradas, se mostra genuína. No trecho final do longa, Noel fala sobre como a imprensa nunca entendeu o Oasis, mas que “eles” entendem exatamente do que se trata. “Eles”, podendo se referir a uma porção de pessoas diferentes – os dedicados fãs, os leais músicos que os acompanham, ou (mais provavelmente) os próprios Liam e Noel. Muito distante de ser a porta de entrada para novas gerações de fãs, o filme de Lovelace e Southern pode frustrar aqueles em busca de iluminadas reconsiderações do passado (o documentário “Oasis: Supersonic”, de Mat Whitecross, lançado em 2016, cumpre este papel). Deixe para lá qualquer má-vontade: “eu preciso ser eu mesmo/não posso ser mais ninguém” são as palavras que abriram o primeiro single desta singela, embora determinada banda, em um já distante 1994; “Oasis: Don’t Look Back In Anger” faz estas mesmas palavras valerem mais do que nunca, independentemente de qualquer improbabilidade ou cinismo. Nem todos acreditam em milagres – mas é difícil não acreditar no Oasis.

– Davi Caro é professor, tradutor,  músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

One thought on “Crítica: “Oasis: Don’t Look Back in Anger” registra a apoteose da mais esperada e improvável reunião do século”

  1. Vi em sp com meus dois filhos,.minha companheira e a companheira de meu filho mais velho. Poucas bandas nos unem de forma tão crua como Oasis. Apenas Beatles e Ramones talvez tenham essa aproximação. O documentário me emocionou bastante.

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