texto de Fernando Yokota
fotos de @30ebr / @pridiabr
“Quero ver jogar assim numa terça à noite chuvosa em Stoke”. O jargão futebolístico, popular na Inglaterra, lembra que o “joga bonito” sob as luzes da ribalta são a exceção e que a glória é igualmente fruto dos três pontos conquistados naqueles jogos duros de ver e de jogar. E foi numa terça-feira de tempo feio que, vinte anos depois de sua última aparição no país, Robbie Williams, filho ilustre de Stoke-on-Trent, se apresentou no Nubank Parque em São Paulo no encerramento da fase latinoamericana da turnê que promove seu álbum de 2026, “Britpop”.
Abrindo com “Let Me Entertain You” e falando ao público em seguida, o inglês explica em verso e depois em prosa que seu show é uma ode ao entretenimento. Williams deixa claro que é mercador do pão e circo, fato que fez com que a aristocracia da cultura pop torcesse o nariz para ele desde os tempos do Take That. Sem as arestas afiadas dos irmãos Gallagher ou o pernosticismo oxfordiano do Radiohead, Williams sempre foi o mais vulnerável dos ícones da cool britannia noventista, e mesmo mostrando que nunca esteve mais confortável em sua própria pele, o tom autodepreciativo das piadas (quem assistiu a “Better Man” entende bem o nível da coisa toda) ainda mostra as cicatrizes de alguém marcado pela necessidade da validação externa. Quando pergunta ao público se ele ainda o ama mesmo com os cabelos brancos e vinte anos depois, é mais para receber o grito do público e devolver com gratidão autêntica do que alimentar o leviatã egotístico faminto por atenção.

A candidez de espírito, contudo, cobra seu preço na dinâmica do show que começa e pára a cada pausa entre músicas em que usa palco como divã para falar sobre a vida. A isso, soma-se o tempo feio, o estádio com metade da capacidade e um público aquém da expectativa (tanto em termos de quantidade quanto de ânimo) criada pelo fenômeno global do “come to Brazil” e estava criada a receita para uma noite desastrosa.
Mas Williams, operário do entretenimento, sabe que o pão é ganho tanto em Knebworth com 120 mil pessoas quanto na Barra Funda com uma fração disso. Às vezes os 90% de transpiração são mais valiosos que os 10% de inspiração e não faltou suor tampouco a voz, mesmo nos registros mais altos. Da cartilha do frontman, o truque dominado à perfeição é o de encarar diretamente a câmera, e o olhar cortante nos telões era pessoal ao ponto de constranger o eventual fã “flagrado” ao celular. O grande irmão do entretenimento vigiava a todos de cima do palco o tempo todo!
Ainda assim, arregaçar as mangas proverbiais de nada adianta sem a matéria prima. A banda, liderada pelo baterista Karl Brazil, é precisa como uma trilha de musical mas preserva a pegada de banda de rock, se equilibrando entre Frank Sinatra (“My Way”) e Motorhead (“Ace Of Spades”). Já o repertório pesa nos hits como um ginasta que cumpre os elementos obrigatórios de sua série (“Feel”, “Rock DJ” ou “Sexed Up”, trilha de novela por aqui) e os refrões grudentos. Junte a isso as partes icônicas de guitarra (o slide de Gary Nuttall em “Angels”), middle eights matadores (“No Regrets”, “Come Undone”) e coisas simples como a pitada de metanarrativa (“and that’s a good line to take it to the bridge…” em “Strong”) ou o aceno a clássicos culturais (o sample de “You Only Live Twice” como espinha dorsal em “Millenium”).

“Angels”, o ato final, é um capítulo à parte. Boas canções, hits e clássicos existem aos montes, mas e quando ela vira sucesso de velório? A música, que chegou a ser a mais popular nos serviços funerários no Reino Unido nos anos 2000, ganhou o Coração Púrpura da cultura pop ao sobreviver a uma versão a(ssa)ssinada pelos cavaleiros do neoconservadorismo do KLB, provando que seu status de hit absoluto se mantém inabalado.
Se o tempo não colaborou e o estádio não encheu, tudo isso não parece abalar o Robbie Williams cinquentão de 2026 que entrou em campo e cantou pelos três pontos como se estivesse em Wembley ou Glastonbury. Com os cabelos brancos, aprendeu que o que importa é a jornada e não o destino, que a vida é um torneio de pontos corridos: seja em Stoke ou em São Paulo, no fim das contas o troféu é ganho nessas terças-feiras frias e chuvosas, mais transpiradas que inspiradas. No ramo do entretenimento, em ocasiões como essa, ao animador resta o peso nos ombros do ônus da diversão, que Robbie Williams vestiu com maestria.

Setlist:
Let Me Entertain You
Rocket
Rock DJ
Strong
Supreme
Let Love Be Your Energy
Love My Life
Better Man
Tripping / Angels / Feel / Sexed Up / Candy / Wonderwall (seção acústica)
Something Beautiful
Millenium
New York, New York
No Regrets
Ace of Spades / Seven Nation Army / Hips Don’t Lie / Livin’ On A Prayer / Acenda o Farol / Take On Me / Hey Jude (apresentação da banda)
Come Undone
Kids
She’s The One
My Way
Feel
Angels

– Fernando Yokota é fotógrafo. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br
