entrevista de Guilherme Lage
Você já se sentiu puxado ao limite? Como uma usina de energia que trabalha sem parar, sem um minuto para descanso. Em uma sociedade em que, cada vez mais, o esgotamento é romantizado, parar para olhar para dentro é uma necessidade. É justamente em momentos que a realidade precisa ser questionada que o punk deve entrar em cena. Este ano, quem resolveu discutir uma vida sempre em constante ebulição foi o Garage Fuzz, uma das bandas mais clássicas do hardcore brasileiro.
Em “Powerplant” (2026), EP lançado em agosto, a banda traz reflexões de vida inspiradas nas experiências do próprio vocalista, Victor Franciscon, lidando com o ritmo frenético de um dia a dia que nunca parece cessar, sempre como uma usina elétrica em constante funcionamento. “Powerplant”, que segue o também EP “Grawlix” (2024), mostra que todo esse bombardeio de energia e compulsão por produtividade vira fumaça e precisa sair para algum lugar, seja de uma chaminé, seja dos ouvidos de quem escuta.
O Garage Fuzz traz sua sonoridade clássica, que flerta entre o hardcore melódico e o rock alternativo, em um dos lançamentos mais legais do ano. Em papo com o Scream & Yell, o vocalista Victor e o baixista Fabrício de Sousa, conversam sobre o processo de compor um álbum conceitual, além de como o novo EP se diferencia dos trabalhos anteriores.
Fabrício também rememora os 35 anos da banda, fundada em 1991, em um ano quando o atual vocalista sequer havia nascido. Há espaço para histórias sobre como o Garage Fuzz ajudou a pavimentar o caminho para bandas de hardcore no Brasil e no exterior. E o baixista deixa a promessa: ano que vem o grupo lança um novo disco completo. Confira o papo!
O título do EP, “Powerplant”, faz referência a uma usina a todo vapor funcionando o tempo todo. Podemos levar isso para vários aspectos da vida, tanto de informações que nos bombardeiam o tempo todo, o tempo de tela, e o trabalho, que muitas vezes esgota as pessoas. Era essa a ideia do disco?
Fabrício: Acho que isso o Victor pode explicar bem.
Victor: Cara, é exatamente isso mesmo. É o lance dessa metáfora entre o ser humano moderno e essa correria em que a maioria das pessoas está, de vencer a vida, às vezes nem que custe passar por cima de outras pessoas também. Então as pessoas acabam ficando meio cegas com esse tipo de coisa.
Mas também, levando para um lado mais positivo, acho que todo mundo lida com essa parada de, pô, você tem que trabalhar, fazer o corre, você tem que fazer alguma coisa pra você se sustentar, muito por causa desse capitalismo tardio que a gente tem hoje. Mas acho que o que motiva isso, no final das contas, é essa energia, que é uma coisa negativa, mas que a gente tenta, de alguma forma, transformar em uma coisa positiva, para que a gente possa ter os frutos disso.
Pô, a gente quer fazer um som que a gente gostaria de escutar. O que motiva a gente a fazer isso? Ás vezes a dificuldade. É essa metáfora mesmo, como se a gente fosse, cada um, uma usina de energia pessoal.
Fabrício: É como se fosse usar toda essa pressão do mundo atual, toda essa dinâmica que o mundo te cobra, toda correria, muita cobrança digital, numa coisa boa, seria essa a usina. Transformar essas coisas que são negativas, da pressão atual, em uma coisa legal.
Um conceito como esse faz a gente pensar em muita coisa, porque muitas vezes a gente se depara com uma certa romantização do cansaço, da exaustão das pessoas. Existe esse mito de que para conquistar alguma coisa você não pode ter um segundo de descanso. Existe algum tipo de comentário sobre isso também?
Fabrício: Existem muitos coaches hoje em dia que querem te empurrar isso. “Enquanto os outros dormem, a gente trabalha”, que você tem que acordar cedo pra ralar todo dia. É uma coisa que tentam te empurrar, mas que está criando uma geração de pessoas que adoecem por causa dessa pressão, dessa coisa que você só tem que viver pro trabalho, que não pode ter tempo livre.
A gente vê agora esse movimento da galera que é contra o fim da escala 6×1 no trabalho. É preciso ter muito cuidado em relação a isso, as pessoas precisam questionar. Cada um tem seu tempo, e esse tempo precisa ser respeitado para não criarmos uma geração de pessoas que adoece por conta de ansiedade e cobrança, que é uma coisa que a gente já vê bastante hoje em dia.
Victor: Mas acho que não chega a ser um tipo de conselho. As letras do “Powerplant” falam mais sobre uma reflexão muito pessoal, mas acho que muitas pessoas conseguem transparecer isso na vida também de várias formas. Acho que é mais uma reflexão do que a gente é empurrado, do que a gente é obrigado a fazer no dia a dia pra que a gente possa continuar existindo, sobrevivendo. Cada um tem que achar a própria fonte de energia pra poder transformar isso.
Fabrício: Quando a gente começou a divulgar essa letra, que o Victor sabiamente fez, um monte de gente se identificou e, muitas vezes, não querem, nem admitir pra si mesmo essa versão que sofre, mas se identificou com toda essa abordagem sobre o mundo atual.

E como surgiu pra vocês esse conceito de fazer EPs ao invés de discos cheios nesses últimos anos? O “Powerplant”, como fala de algo muito dinâmico e que acontece muito rápido, achei perfeito pra ser um EP mesmo, serem cinco músicas que acontecem rápido. Como surgiram as ideias dos outros EPs antes desse?
Fabrício: Quando o Victor entrou a gente tinha uma certa urgência de lançar material novo com ele, então o primeiro EP foi meio por causa disso. Só que a gente gostou dessa dinâmica de lançar EPs, porque como o mundo anda muito dinâmico, como a gente vem falando, é uma maneira da gente já ir produzindo e lançando e alcançando um novo público e mostrando o material novo pro público que já conhece o Garage Fuzz.
As plataformas digitais, a forma como se divulga música hoje, propicia fazer esse lance mais rápido, produzir música e lançar EPs. O Garage é uma banda que não lança disco todo ano, a gente tem um processo um pouco lento, porque a gente vai absorvendo, entre um disco e outro, as coisas que vão acontecendo na nossa vida, que refletem na música e nas letras e elas têm uma interferência e nem sempre as músicas entram nos álbuns, então a gente tem esse olhar.
Então como agora a gente tem como produzir, compor, gravar e lançar um EP, a gente gostou desse formato. Mas a gente já tem um plano, um material composto pra que no ano que vem a gente lance um álbum inteiro.
No som do Garage Fuzz há essa influência do hardcore melódico californiano, mas talvez pelo fato de serem de Santos, sempre notei em alguns riffs uma certa levada que me fazia pensar não na surf music tradicional, mas aquela música de surfe ligada ao hardcore, do skate. É algo presente nas influências de vocês?
Fabrício: Quando começamos, a gente estava inserido na cena do grunge, das guitar bands que estavam se iniciando no Brasil. Aquela cena de São Paulo que tinha o Pin Ups, o Cold Turkey, o Mickey Junkies, a gente começou inserido ali. Só que a gente veio de bandas que eram de hardcore e de punk, do Psychic Possessor, uma banda que ficou notória pelo “Nós Somos A América do Sul” (EP de 1989), no fim dos anos 80, (lançado) pela Cogumelo Discos.
A gente começou a resgatar esse som hardcore, que era o nosso berço musical, e misturamos esse som. Pegamos o início do hardcore melódico, com Bad Religion, que era o grande expoente. Depois veio o NOFX, Pennywise, então a gente absorveu tudo isso e criou a sonoridade do Garage Fuzz. Com o passar do tempo, a gente foi escutando outras coisas, a gente gosta de som indie, a gente gosta de stoner, e foi incorporando tudo isso no nosso som, que criou essa sonoridade do Garage Fuzz.
Falando de uma banda que tem 35 anos, vemos todos dias bandas acabando porque fica inviável pra muita gente. Equipamento é difícil, pegar estrada é muito difícil. Como vocês conseguem manter esse pique? Ainda mais pro Victor, que vem de outras bandas e entrou há menos tempo em outra muito bem consolidada. Essa longevidade já não é mais tão natural no Brasil.
Fabrício: É verdade, mas acho que é porque a gente começou muito novo. Comecei no Garage Fuzz com 19 anos, e a gente já incorporou no nosso estilo de vida conduzir a banda junto, a gente vai arrumando um jeito de incorporar os trabalhos paralelos com a função da banda. A pessoa tem que saber a hora de acelerar, a hora de ficar mais pausado, acelerar de novo, porque isso também mantém a saúde da banda. E outra, você tem que ter sempre um próximo projeto. Você tem que ter sempre um próximo disco, um próximo álbum, próximo EP, próxima música, próximo DVD, próxima turnê, isso torna saudável todo o processo de tocar a banda.
E Victor, imagino que você já fosse fã do Garage, né? Porque sua voz encaixou perfeitamente com a banda quando entrou.
Victor: Cara, isso que o Fabrício falou, imagina quando você está todo os dias ouvindo o som dos caras. Pra mim é uma coisa surreal. Eu sempre falo brincando que é uma ficha que espero que nunca caia (risos). Sempre escutei Garage Fuzz, sempre me identifiquei. Quando me toquei no “quero ser músico, quero tocar”, conheci o Garage e, pra mim, do Brasil, sempre foi uma das maiores referências.
Acho que foi a primeira das bandas que conheci e pensei: pô, tem banda fazendo som nesse estilo, e fazendo som em inglês, que é uma coisa que tenho mais facilidade também, então sempre foi um grande referencial pra mim. Hoje é um privilégio estar aí junto dos caras, poder estar aprendendo cada vez mais de uma banda que, inclusive, é mais velha do que eu, então não preciso nem dizer o quão foda é pra mim estar vivendo isso.
E você falou um pouco sobre as letras do “Powerplant”, que são um pouco mais pessoais, no sentido de que mesmo sendo pessoais, houve uma identificação. Vi que você fez também bases pras músicas. De onde surgiu esse lugar em você pra essas músicas, de se abrir um pouco mais nessas letras pra esse EP em especial?
Victor: Eu sempre gostei de escrever, (de fazer) reflexões, coisas do dia a dia, situações que eu ficava refletindo. Nunca gostei de escrever letras apontando o dedo, falando como alguém deveria ser ou como deveria agir, porque todo mundo é de um jeito.
O processo de escrever letra é uma parada que sempre levo com muito cuidado, porque é uma coisa que vai ficar registrada e as pessoas vão poder ver isso. Cada linha, cada palavra, sempre pensei em escolher a melhor forma de dizer o que quero dizer, sem que soe muito apontando o dedo ou também extremamente pessoal ou misterioso, sabe?
É algo de querer uma coisa explícita, mas não necessariamente tão explícita assim, então é um processo muito complexo, depende muito do mood que estou no dia. Falando do “Powerplant”, especificamente, acho que é um dos trabalhos de letras que eu mais gosto. A gente costuma gostar sempre da coisa mais recente, mas posse dizer que de gravação e de parte lírica é um dos trabalhos que eu mais gosto até hoje.
Expõe uma visão, uma reflexão pessoal minha, mas acho que o mundo é uma rede de pessoas e pensamentos, então a gente nunca tira algo do nada, tudo que acontece acaba influenciando a forma como a gente pensa e age no dia a dia.
E pra você, Fabrício, como foi ter acesso a essas letras e poder trabalhar a partir delas?
Fabrício: Cara, o Victor é um letrista incrível. Ele escreve muito bem, escreve super rápido, compõe super rápido. A gente manda as bases das músicas pra ele e daqui a pouco ele já manda as melodias de voz, as letras (risos). Esse disco teve músicas, por exemplo, a “Flashpoint”, que ele fez praticamente sozinho, mandou pra gente, já com a parte instrumental 90% feita e a letra.
E aí a gente montou só algumas partes nossas, arranjos de guitarra, de baixo, bateria e músicas que a gente mandou pra ele e ele fez a letra. Acompanho o trabalho do Victor desde a época da banda Take Off The Halter, que é antes do Bullett Bane, e eu sempre achava ele um vocalista incrível. Quando a gente precisou de vocalista, o primeiro nome, e o único, que veio à cabeça era ele. Ainda bem que ele topou e está desenvolvendo um trabalho animal com a gente. Estamos muito felizes com o resultado desse trabalho.
Em 2015 eu vi vocês aqui em Vitória em um festival chamado “Vitória Heavy Music”, com Krisiun, Sepultura, Dead Fish e Ratos de Porão. Fiquei interessado em perguntar: uma banda de hardcore subindo no palco com bandas de metal extremo, dois públicos distintos no mesmo lugar. Como é pra vocês estar de frente a um público diferente dessa forma?
Fabrício: A gente já escutou algumas vezes de pessoas de outros estilos, como metal, ou indie, que conseguimos conquistar uma coisa que a gente acha muito importante: as pessoas respeitam a história do Garage Fuzz. De repente um fã do Krisiun pode não gostar tanto do estilo, mas quem conhece o Garage, a história, a originalidade que a banda tem, ele respeita muito, então a gente consegue transitar em muitos estilos musicais.
É aquilo, a pessoa gosta ou não gosta, mas a pessoa respeita. Isso é uma coisa que o Garage Fuzz conquistou. E no caso, pra mim, particularmente, é normal porque, como falei, comecei nos anos 80 com o Psychic Possessor, que era uma banda de metal, de uma gravadora de metal, que era a gravadora do Sepultura, tinha gravado o Ratos de Porão, então eu já me habituei também a aqueles ambientes.
O Boka, do Ratos de Porão, começou comigo no Psychic Possessor, gravou o disco. Eu sempre transitei por esses ambientes, muita gente conhece minha história com o Psychic Possesor, com a Cogumelo. Então, por isso, o pessoal sempre teve muito respeito pelo Garage Fuzz. Pra mim é super normal, gosto muito de fazer isso, sabe? Respeito muito, escuto bastante som extremo, acho foda pra caralho! Pra mim é uma satisfação enorme poder tocar com essas bandas.
No cenário hardcore internacional tem acontecido uma renovação, a gente tem visto bandas como Turnstile, Knocked Loose, fazendo bastante sucesso. Vocês diriam que essas bandas têm uma influência na forma que o hardcore brasileiro tem feito nos últimos anos?
Fabrício: Cara, eu acho que foi muito importante uma banda como Turnstile estourar da forma como estourou, porque resgatou uma galera nova pra cena, pega uma galera pra prestar atenção no hardcore. Estava faltando (bandas), desde ali dos anos 90, início dos anos 2000, que surgiram as bandas que ficaram conhecidas, como Bad Religion, Offspring, desde então a gente não tinha uma banda tão popular.
Então o Turnstile trouxe de volta a atenção da galera. Se você ouve o som deles, você consegue garfar ali uma influência de Bad Religion, de Bad Brains, uma coisa bem 80 e 90, mas com uma leitura mais moderna, trazendo algo mais moderno. Acho que foi muito legal e muito importante pra resgatar uma galera pro estilo, e vejo várias bandas nacionais sim fazendo esse corre. Ainda é uma coisa nova, que está surgindo agora, mas que já está influenciando uma geração que gosta de hardcore. Dá pra gente importar isso.
A gente falou um pouco sobre as letras do “Poweplant”, mas o instrumental parece mais pensado e mais elaborado justamente pra essa roupagem do Garage de 2026, ele não faz uma repetição do trabalho de vocês.
Fabrício: Acho maior legal essa análise, porque a gente não pensa muito quando compõe (risos). A gente simplesmente incorpora o som que a gente vem escutando, as influências que a gente tem sempre dão as caras no trabalho que a gente vai fazer. O “Powerplant” foi, mais uma vez, isso. Incorporando coisas que a gente vinha escutando às nossas novas influências, mas mantendo as influências antigas.
Acho que, talvez o que tenha sido diferente nessa produção, é que a gente pegou ideias mais individuais. A gente teve um jeito novo de produzir. Antigamente a gente fazia no estilo old school: levava ideias pro ensaio e produzia todo mundo junto, desenvolvendo as nossas ideias no ensaio. Dessa vez a gente pegou ideias mais individuais, foi passando de um pro outro, e todo mundo foi incorporando sua parte.
Por exemplo, de novo, a “Flashpoint” foi uma música feita pelo Victor, que a gente pegou e incorporou a nossa parte. “Powerplant”, por incrível que pareça, nasceu de uns arranjos da “Flashpoint”, do Victor! Quando levei (esses arranjos) no ensaio, os caras falaram: “Pô, Fabrício, dá pra gente pensar outra música em cima dessas suas ideias”. Aí, foram ideias minhas que começaram a “Powerplant”. A “Synergy” já foi uma música que o Nando (Fernando Bassetto, guitarra) fez praticamente sozinho também. Ele compôs, botou uma bateria eletrônica e depois o Daniel (Siqueira, bateria), colocou do jeito dele e cada um foi incorporando a sua parte.
Talvez isso tenha dado um certo detalhe diferente para essas músicas. As influências mantém coisas que a gente sempre teve e incorporam novas influências das coisas que a gente vinha escutando, só que agora acompanhado de uma produção, de uma coisa mais moderna, de hoje em dia, de cada um fazer as coisas no seu canto, mandar pro outro e a gente finalizar tudo isso na sala de ensaio.
Victor: Acho que tem gente que, muitas vezes, pensa que pra fazer música existe alguma fórmula. Será que existe uma fórmula? Eu acho que não. Talvez até (exista e) funcione para algumas pessoas, mas acho que esse processo que o Garage fez no “Powerplant” e que eu sempre fiz na minha vida, facilita produzir mais, fazer mais. O brilho da parada é exatamente isso, cada música ser feita da sua maneira, no seu mood. Acho que esse EP resume bem essa parada. É uma forma, como o Fabrício disse também, de dar um tempo pras ideias amadurecerem, você começa a fazer muitas músicas num período curto, elas começam a soar muito parecidas, muito tempo na caixinha. Acho que estar sempre escutando referências novas, buscando montar o som que você gostaria de escutar, tá ligado? Sem pensar “vou fazer isso pra agradar fulano” ou “vou fazer tal tipo de som pra agradar a multidão” ou “vou fazer isso porque fulano fez e deu certo”. Eu acho que é a parada de fazer “free stress” e de uma forma que seja prazerosa, tá ligada?
Fabrício: O Victor falou uma coisa que é verdade: o Garage Fuzz, desde o início, é um projeto nosso de ser uma banda que a gente gostaria de escutar, então a gente sempre fez a música pra gente. A gente teve o privilégio de várias pessoas também gostarem e se sentirem representadas pelas músicas que a gente faz. Então a gente nunca ficou pensando muito em como vai fazer (risos), a coisa sempre foi fluindo. A gente sempre gostou de ter esse tempo, entre uma coisa e outra, como Victor falou, pra coisa não soar repetitiva, pra gente poder ter influências novas e ir arejando a nossa criação.
E acho que o Garage já chegou a um ponto em que a banda pode ser autorreferencial mesmo, né? As influências da banda podem ser vocês mesmo!
Victor: Cara, vou te falar que, por mim, vira e mexe eu estou sempre escutando o som do Garage, coisas que escutei por muito tempo, desde que estou na banda. A gente tem as músicas do setlist, mas tem várias outras que não estão no setlist e hora ou outra entram, pois estou sempre escutando os CDs mais antigos, pra também bater essa parada de identidade da banda. Não pra necessariamente fazer uma música igual à que era no primeiro CD ou que está em tal EP, mas absorvendo essa ideia pra poder mesclar com algo que a gente está criando hoje.
E vocês gravaram “Jaded” (presente no EP “Grawlix”, de 2024) nesse novo EP. O que levou vocês a regravarem essa música em especial?
Fabrício: Foi uma sugestão do pessoal da Odd Sounds, a nossa gravadora. Eles queriam que a gente gravasse algumas músicas e a gente achou legal focar nela, porque ela representa muito o que é o Garage Fuzz atual, do jeito que a gente é hoje em dia, o Victor junto com a gente. E pra aproveitar quem entende do estúdio, a produção, todo o investimento que eles estavam fazendo, um tremendo de um estúdio. Então isso levou a gente a refazer “Jaded”, toda a produção e que represente também essa nova do Garage Fuzz, por isso ela foi escolhida.
E uma coisa que sempre quis perguntar: sendo uma banda punk no Brasil, óbvio que no início dos anos 90, tínhamos bandas punk que cantavam em inglês no Brasil, mas com o passar do tempo houve algum tipo de resistência de alguma parcela do público em relação às letras em inglês?
Victor: Cara, acho que sempre vai existir alguém apontando o dedo para o que você está fazendo (risos). Nunca vai ter um mundo perfeito pra todo mundo olhar e falar: é isso!
As pessoas vão achar problemas e beleza, cada um sabe o que acha que é certo. Não acho que seja um problema, acho que a questão é muito mais a fundo do que simplesmente focar nessa parada. A parada de fazer em inglês, eu digo por mim, é uma coisa que sempre tive facilidade, sempre gostei. Desde pequeno sempre ia entrar nesses sites de letra de músicas e ia buscar as letras das músicas que eu gostava pra entender, pra ler, então sempre gostei, fui até professor de inglês durante um tempo.
Pra mim é até uma coisa legal que eu consigo manter essa gramática, de estar sempre estudando, mentalizando com a língua. E, cara, acho que é uma língua universal, simples. Acho que é mais por isso, é uma língua mais provável de atingir mais públicos, não de quantidade, mas de lugares, acho que é mais fácil de ser absorvida.
Gosto muito de bandas em português, a gente não tem problema nenhum com isso. Na verdade, acho maior da hora e até mais difícil escrever em português, é um desafio foda quando faço algumas coisas em português, e é bem mais difícil fazer do que com o Garage, essa questão de canetar. Mas acho que é isso: problema sempre alguém vai achar (risos).
Fabrício: Costumo dizer que quando a gente começou, esse nosso estilo musical não tinha referência, nossas referências eram todas de fora, todas em inglês. No som mais punk, no hardcore mais punk, tinha o Cólera, Ratos de Porão, Olho Seco, existia toda uma cena em português, então as bandas tinham toda aquela referência para compor em português.
No estilo do Garage, não. A gente foi uma das primeiras bandas a serem lançadas no circuito de grandes magazines, como Carrefour, Lojas Americanas, Lojas Brasileiras, que nem existem mais. Na época do CD (“Relax In Your Favorite Chair”, de 1995, que saiu pela Roadrunner, gravadora que lançou discos do Sepultura, Ratos de Porão e Metallica), eles eram distribuídos de Manaus, no Amazonas, a Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e em Vitória, por esses grandes magazines. Essa sempre foi nossa referência. Hoje a gente continua mantendo esse estilo que já virou uma marca registrada do Garage Fuzz.
Victor: O português é uma língua muito rica, mas ao mesmo tempo mais delicada também, porque às vezes é uma palavra que é sinônimo de outra, você fala ela e é algo completamente diferente.
Desse cenário brasileiro atual, a gente tem visto um ressurgimento muito forte do underground no Brasil, bandas que estão sempre na estrada, como Manger Cadavre?, Sangue de Bode, principalmente no Sudeste. Vocês acompanham de perto esse ressurgimento no punk, no metal?
Fabrício: Sim, porque a gente também está na estrada, a gente toca com essas bandas, a gente acompanha, muitas delas são até amigos nossos. Acho que nunca a cena brasileira foi tão boa, porque o nível dos músicos, das bandas, das produções, é excelente.
Acho que eu, que já estou aqui, desde que… dá pra dizer que era tudo mato (risos), eu nunca vi uma cena tão rica como a de hoje em dia, onde existe um circuito onde há pessoas mais profissionais fazendo shows, dá pra fazer show de pequeno, médio e grande porte.
Existem bandas excelentes, como Bayside Kings, o Bad Luv. Tem bandas excelentes com excelentes músicos, a cena hoje está excelente, posso afirmar isso aí.
Vocês foram precursores da cena de Santos, quando começaram em 1991. Muitas bandas consagradas de São Paulo tiveram a ideia de formar uma banda vendo o Garage tocar. Como foi pra vocês ser essa chama inicial no litoral de São Paulo?
Fabrício: Pra mim é uma honra enorme, um privilégio, porque posso afirmar, com certeza, que quando a gente começou lá atrás, a gente não tinha essa intenção e nem essa ideia. A gente estava seguindo o nosso instinto, o jeito que a gente era, e acabou gerando esses frutos. Lembro que a primeira turnê desse tipo de som no Brasil foi feita em 1995 com a Roadrunner, que era nossa gravadora, que era uma gravadora internacional. Não tinha um circuito montado no Brasil, não tinha banda de hardcore que tocava no Brasil inteiro.
Então, pelo fato de ter lançado disco no Brasil inteiro, a gravadora chegou pra gente e fez uma proposta: “Fabrício, vem pelo menos uma vez por semana, quantas vezes você quiser, no nosso escritório em São Paulo, pode usar o telefone o tempo que você quiser, liga pra quem você quiser, que a gente vai bancar essa turnê pra vocês”. Isso não existia no Brasil. As bandas tocavam hoje, faziam outro show daqui a dois meses, não existia isso (de turnê). Existia na Europa, no mundo todo, mas não existia no Brasil.
Eu ia lá na Roadrunner algumas vezes por semana, porque não tinha internet, ligação interurbana naquela época era caríssimo, era caríssimo você montar uma turnê dessas sem apoio quando você ainda estava começando. Então eu ia lá uma ou duas vezes por semana, pegava o telefone com um cara de um fanzine, que passava o telefone pro cara de uma banda de outra cidade e iam montando o contato. Aí eu ligava pra um cara e incentivava ele a fazer um show do Garage Fuzz na cidade. Sem perceber, eu estava meio que montando um caminho pras outras gerações.
Não quero ser pretensioso, porque a gente nunca fez isso com pretensão, mas a gente foi meio que botando a semente em cada cidade, pavimentando o caminho pras próximas gerações, ter esse caminho montado pra todo mundo utilizar e eu fico muito feliz com isso.
E quais os planos pro EP? Vocês já vão pegar a estrada? Vai ter uma tour com ele?
Fabrício: A gente está montando a tour. Temos marcado Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba, shows no interior de São Paulo, já já a gente solta a agenda (quer levar a “Powerplant Tour” pra sua cidade? Clica aqui). E ano que vem tem material novo do Garage Fuzz com apoio da Odd Sounds.
Só faltou Vitória e Vila Velha, hein?
Fabrício: A gente está doido pra voltar praí, a gente está doido pra voltar pra Vitória, com certeza! Temos uma história muito legal (com o Espírito Santo), desde o Sala 11. Tocamos com o Seaweed em Vitória, com o Dead Fish várias vezes, até com o Massacration a gente já tocou em Vitória (risos)! Estamos com saudade de voltar pra Vitória e Vila Velha.
Victor: Comigo ainda não rolou (ES), em outros estados já rolou, mas aí ainda não. Já fui com o Bullett Bane algumas vezes pra Vila Velha também, lá no Correria Music Bar, é da hora, gosto muito da cidade.
Fabrício: Fazer um Mukeka di Rato e Garage Fuzz, seria maravilhoso. Grande Mozine, Paulista, galera amiga nossa de muitos anos.
– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!
