“O processo artístico exige ousadia”, diz Felipe Antunes, que está lançando “Dança do Universo”, projeto em disco e livro

entrevista de Elsa Villon

Barba, cabelo e bigode: “Dança do Universo”, de Felipe Antunes, chega em vinil, livro e minidocumentário

A vida na cidade grande é tema e isso já não é novidade. Mas para o cantor, compositor e pesquisador Felipe Antunes, chega de forma nova nas 10 faixas de “Dança do Universo” (2026), álbum lançado em agosto, que ganha versão também em vinil, com projeto gráfico da capa por Rodrigo Fonseca, e em livro, pela Editora Urutau.

Prosa, poesia, pesquisa científica – tudo junto e misturado em formatos distintos na arte transmídia do artista, que também integra a Vitrola Sintética e é pós-doutor em Engenharia de Materiais pela USP. Nascido no extremo da Zona Leste da capital paulista e criado no interior do estado, Felipe chega ao seu quinto álbum pela carreira solo, depois de “Lâmina” (2016), “Cru”(2018), “Visão Noturna” (2020) e “Embarcação” (2025), com trilhas musicais criadas para o teatro e audiovisual.

Resultante da mistura entre MPB, samba e ritmos de matriz africanas, “Dança do Universo” propõe que as experiências sensoriais de quem vive nas metrópoles se mesclam a um coletivo, onde corpo e mente integram algo maior – e também aja como forma de resistência. O viés político ganha vez nos versos: “A morte não pode ter culpa / A culpa é de quem cria morte”, em “Quem tem vida”, sétima faixa do disco, que remete ao governo durante a pandemia de covid-19 e ganhou videoclipe.

Com Estela Paixão e Eloiza Paixão (coro), Allan Abbadia (trombone), Fabio Sá (baixo), Vini Sampaio (violão e guitarra), Cauê Silva (percussão) e Vitor Cabral (bateria e percussão), as 10 músicas também contam com a participação de Salloma Salomão, em “Retalhos”, Rafael Schimidt, em “O Tempo uma Espiral”, Raquel Tobias, em “Eu me vingo da tristeza”, e Jéssica Areias e Ernesto Dabo, em “Di Dia Ó Di Noti / De Dia, de Noite”.

A faixa homônima também conta com clipe e Felipe fechou o combo “barba, cabelo e bigode” de formatos, com um minidocumentário sobre a produção do álbum. Na conversa que você lê abaixo, ele fala sobre o disco, o livro, os clipes, as parcerias, IA., a carreira solo e os planos futuros. Confira:

Você lançou “Dança do Universo” como disco e livro. Conte um pouco mais sobre essa questão transmídia, não apenas para esse trabalho, mas para outros também
É, virou uma prática das minhas obras, de certa forma. Antes de eu começar a lançar os discos solos (este ano faz 10 anos do meu primeiro disco solo, em 2016), eu lançava os discos com a Vitrola Sintética, banda que faço parte. Ali a gente começou a estudar alguns formatos diferentes. Em 2015, no disco “Sintético”, a gente fez uma obra diferente, como uma espécie de zine, feita pelo artista Mario Cappi, que também é artista visual. A partir do “Lâmina”, meu primeiro disco solo, comecei a trabalhar junto com a literatura e aproximar o objeto artístico como um livro. Sou muito parceiro do pessoal da Editora Urutau e do Tiago, um dos fundadores da editora. A gente falava muito sobre a questão das letras e se letra de música é poesia. Gosto de trabalhar as letras como se pudessem também ser poesias e analiso se a letra funcionaria sozinha sem a música. A canção “Cru” entrou primeiro numa revista de poemas como poema concreto, o que me deu incentivo para aproximar a literatura do meu universo da canção. Fiz isso em “Lâmina” (2016), “Cru” (2018), “Visão Noturna” (2020) e agora em “”Dança do Universo” (2026), com exceção do “Embarcação” (2025).

Mas esse livro é de poesia, de literatura, ou mistura as duas coisas?
Mistura um pouco, depende do projeto. No “Lâmina” era mais voltado para as letras, acompanhado de fotografias analógicas que eu mesmo faço e textos extras como prefácios (de Maurício Pereira, Wagner Schwartz, Jackeline Stefanski Bernardes e Allan da Rosa). Em “Dança do Universo”, criei um texto extra em prosa poética que faz a abertura das letras, criando conexão entre elas. Em “Visão Noturna” (2020), feito com Nástio Mosquito (artista de Angola), construí os textos de maneira teatral para serem dramatizados, intercalando prosa e letras.

Além dos clipes, tem um minidocumentário sobre a produção do álbum que se conecta com sua produção para o teatro e audiovisual, certo? Você pode falar um pouco sobre o mini doc e essa sua relação com o teatro?
Chamei o pessoal do audiovisual para registrar o que acontecia no estúdio. É um disco muito de arranjador, orquestrador, produzido por Fábio Sá e Allan Abbadia, que escreveu muitos arranjos de sopro e percussão. Achamos interessante registrar o processo e virar um mini doc simples mostrando a gravação. Quanto ao teatro, faço trilhas sonoras desde 2015. Tenho uma parceria muito sólida com a Bete Coelho (Companhia Teatro Filme). Neste momento, por exemplo, há dois espetáculos rodando em Minas Gerais: “Lia Lia” (com Bete Coelho e Camila Pitanga) e “Ana Lívia’ (com Bete Coelho e Georgette Fadel). Já fiz peças como “Mãe Coragem”, “A Gaivota”, “Medeia”, entre outras. Também trabalho com o espaço Alvenaria, com a Jaque (Jackeline Stefanski Bernardes) e com o coletivo de diretores. O teatro e o audiovisual se tornaram muito importantes na minha carreira.

E é uma experiência totalmente diferente criar trilhas para o teatro, pois é outro sensorial e outra forma de consumo, certo?
Eu adoro. No processo de “Lia Lia”, ensaiávamos quase todos os dias e eu já ia compondo ali na sala de ensaio. Gosto de pensar o som contido na imagem e no texto, ou simbolizar o que não está explícito. Em “Medeia”, fiz uma canção sobre uma água-viva imortal (“Turritopsis Nutricula”), pois Medeia no texto era como uma figura imortal navegando pelos mares e queimando como sol; a água-viva simbolizava a personagem de forma metafórica.

Pegar símbolos de mitologias, juntar com conhecimento científico e unir dentro da arte.
Exatamente.

A divulgação menciona as questões vividas nas grandes cidades, reflexões da mente e do corpo. Esse desgaste urbano nos coloca no automático. O combo prosa, verso e diálogo no disco busca amenizar essa sensação?
Acho que sim. A gente refletia que não precisávamos falar de coisas difíceis de um jeito difícil. O Bob Marley, por exemplo, trazia temas políticos fortes em uma vibração festiva e dançante. Trouxemos esse universo corporal conectado ao samba e aos ritmos afro-diaspóricos, com arranjos do Allan Abbadia e parcerias com Salloma Salomão. Queríamos trazer uma pulsão corporal para não atravessar a dureza das cidades grandes apenas com a exaustão mental. Nos shows, percebemos que o público sente e reage imediatamente a essa vibração.

Eu tenho uma relação muito sensorial com a música. Metais e percussões me geram arrepio quando sinto que a música é orgânica, e este disco me trouxe exatamente isso.
Que legal! Ele é de fato super orgânico, quase sem sintetizadores: é sopro, corda e percussão. Tínhamos até uma ideia antiga de fazer um disco só com instrumentos não temperados, sem trastes, tudo orgânico e flutuante. Essa sensação se conecta com o ancestral. Hoje em dia, a inteligência artificial traz uma ansiedade de querer chegar direto ao fim sem passar pelo processo de criação. E passar pelo processo é o mais gostoso; por isso a sensação de ouvir instrumentos reais tocados por pessoas vivas é diferente.

A gente sabe quando algo é feito por gente e quando não é. Sou a favor da IA para tarefas práticas, mas contra para a criação artística.
Totalmente. Não faz sentido criar algo se você não quer passar pelo processo criativo. Se nos conectarmos apenas com demandas mercadológicas automáticas, ficamos parecidos com a IA e somos substituídos. O processo artístico exige ousadia.

E a IA bebe de referências que já existem. Se todo mundo usar IA, do que ela vai beber?
Vai ficar tudo homogêneo e “pasteurizado”. A graça da arte é a heterogeneidade.

As pequenas falhas humanas e imperfeições fazem parte da arte. Quando algo é perfeito ou simétrico demais, gera desconforto.
Exatamente. Tudo no digital é quadriculado, é feito de zeros e uns. O som orgânico e o vinil são arredondados, analógicos e quentes. O digital tenta montar curvas por cálculos, mas faltam a reverberação e a presença do ao vivo.

O vinil exige um ritual de contemplação e atenção que se perdeu na economia do tempo.
Sim, é um ritual de presença e escuta atenta. Junto com o livro, torna-se uma experiência completa.

“Dança do Universo”, de Felipe Antunes, o livro

Você citou poesia concreta e faz referências a Waly Salomão. Como foi esse processo?
O Salloma Salomão é meu parceiro nessa faixa e em várias outras. Quando ele foi gravar a participação dele na música “Retalhos”, trouxe contraposições poéticas de forma espontânea, citando a lua, o descanso e as durezas urbanas. Ele mencionou Waly Salomão e fez uma associação brincalhona com “Sailor Moon” (“o viajante da lua”). No exato momento em que gravávamos e falávamos de Waly Salomão, o Rovilson Pascoal (dono do estúdio) nos avisou que o Jards Macalé tinha acabado de falecer naquele instante, criando uma energia forte no estúdio. Waly Salomão é uma referência constante de como vestir a poesia com música.

Tem poesia que já nasce cantada e cheia de musicalidade.
Sim! Eu fiz duas músicas para poemas do Oswaldo de Camargo . O próprio texto já traz ritmo e melodia da fala. O Allan Abbadia brinca: “Todo mundo tem ritmo, se você anda na rua sem esbarrar nas pessoas, você tem ritmo”. A fala tem melodia própria.

A Maria Bethânia faz muito isso com Fernando Pessoa.
Exatamente! No disco do ano passado fiz a canção “Ode Marítima” a partir de um trecho de um poema do Fernando Pessoa.

Quais cidades grandes te inspiraram no álbum “Dança do Universo’?
Principalmente São Paulo. Nasci no extremo da Zona Leste (São Miguel Paulista / Vila Curuçá), cresci em Bragança Paulista e voltei para São Paulo há muitos anos. A cidade habita o álbum em suas contradições: a exaustão, o barulho, o ritmo acelerado, mas também a riqueza multicultural e os encontros artísticos. Além disso, há o olhar para as dificuldades políticas e a exclusão social gerada pela gestão neoliberal na cidade.

E você sente isso em regiões específicas, como nos extremos periféricos em comparação com o centro?
Todos os extremos sofrem com a especulação imobiliária que empurra as pessoas para a margem. Nos shows de lançamento de “Dança do Universo”, fiz questão de levar a apresentação para as periferias: toquei em Bragança, em São Bernardo do Campo (na Fábrica de Cultura) e em dois locais no extremo da Zona Leste (Vila Curuçá e Itaim Paulista). Levei convidados como Raquel Tobias, Jéssica Areias, Rapper Xis e Rafael Schimidt. No Itaim Paulista, fizemos bate-papo com jovens que faziam oficinas de produção cultural.

A faixa “Quem Tem Vida” (que ganhou clipe) me soou quase como um cântico de luto. Qual foi a intenção dessa música?
É uma homenagem e um manifesto a quem enfrenta a dor e aos cuidadores da vida (profissionais da saúde). A letra nasceu no contexto da pandemia. Há o trecho: “A morte não pode ter culpa, a culpa é de quem cria a morte”, reagindo contra a negligência política e a violência. Mas a música busca trazer uma pulsão de vida e um abraço ao corpo diante das perdas e do luto.

A faixa “Di Dia Ó Di Noti / De Dia, De Noit”, com Ernesto Dabó, me marcou muito pela mistura de MPB, folk, ritmos africanos e metais…
Ernesto Dabó é um artista histórico da Guiné-Bissau. Ele participou de um show meu no Sesi Paulista. Gravamos uma base de violão e voz em 2019 e guardamos. Era uma música inédita dele que ele sugeriu que gravássemos. Retomamos (essa canção) no disco (“Dança do Universo”), o Allan Abbadia escreveu um arranjo fluido só com sopros, baixo e bateria. É uma poesia de amor singela e sensual cantada em português e crioulo guineense.

É música para tomar vinho e comer queijo ouvindo o vinil.
Exatamente, tem essa atmosfera contemplativa.

Quais são os próximos passos, shows ou videoclipes?
Estamos em fase de divulgação dos shows, vou gravar o videoclipe de “O Tempo É Uma Espiral” e estamos trabalhando no projeto de um álbum ao vivo derivado da turnê.

– Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas. 

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