Cinema: “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, de André Novais Oliveira, destrincha a dor oriunda da perda de um grande amor

texto de João Paulo Barreto

Abertura da 20ª edição do CineBH, “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, de André Novais Oliveira, destrincha a dor oriunda da súbita e inesperada ausência de alguém com quem se dividiu uma vida

Grande vencedor do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e longa de abertura da 20ª edição da Mostra de Cinema de Belo Horizonte – CineBH, “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” (2026), do diretor e roteirista André Novais Oliveira, foca em um sentimento que requer mais do que uma entrega total de uma vida em prol de envelhecer ao lado de outra pessoa. O amor de meio século de idade que existe entre Gilberto e Jacira, casal protagonista da obra, destaca um significado diferente para essa palavra. Novais, em seu roteiro, traz uma definição que foge de qualquer sentido banal ou puramente romantizado do que, de fato, é o amor em sua essência. Ao apontar sua câmera e sua caneta para a história de um casal de terceira idade que se vê privado de sua rotina mútua e um deles passa a viver uma dolorosa solidão, o diretor de “Ela Volta na Quinta” (2014) ilustra a perda de um norte e o desalinho de uma vida.

“Se Eu Fosse Vivo… Vivia” traz muito de uma reflexão sobre terceira idade, sobre a morte que pode ser iminente (o diálogo dentro de um cemitério observado à distância é pungente), sobre esse refletir da perenidade de um relacionamento que, ao final, é composto por uma companhia agradável, por um dengo, um carinho e um afeto roteiros que, quando ficam para trás, percebe-se sua importância. A rotina mútua em questão aborda temas sérios, como a questão dos cuidados com a saúde física e mental de ambos, mas é nos aspectos ditos banais, mas que nem de longe o são, que o tesouro daquela vida em conjunto se constrói. André destaca gestos que parecem simples e rotineiros, como a admiração por um descascar completo de uma laranja sem que se deixe a casca de romper; do simples degustar de um churrasco no quintal de casa; do demonstrar de um desejo por um pão fresquinho feito na chapa e degustado com café; o beijo carinhoso na testa ou do despertar de um cochilo no sofá com a TV ligada. Quando tais “pequenos” momentos ficam para trás, é que se nota a sua devida importância.

Assim como em “Quintal”, marcante curta dirigido por André em 2015, “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” flerta de modo cômico com a ficção científica, brincando com a ideia de uma presença alienígena nos arredores de Contagem, cidade mineira onde vivem Gilberto e Jacira (e onde se passa muitas histórias da produtora local, a Filmes de Plástico). As gags cômicas desses momentos, com comitê de recepção alienígena servindo como desculpa para reunião social para “tomar uma” e abrir a mala do carro com o som alto, são alguns dos pontos hilários da obra.

E é nessa ideia da chegada alienígena que Gilberto encontra uma trilha a seguir. Na ausência de equilíbrio dessa balança representada pela relação a dois, agora desfalcada, é que Gilberto encontra alguma orientação, mesmo que claramente confusa e cambaleante pela ausência de sua alma gêmea. E é justamente em um flashback do casal ainda jovem que esse contato com forças extraterrestres acontece pela primeira vez, abrindo para o filme um leque de possibilidades que Novais, de forma inteligente, deixa para o espectador as conclusões do que significou para Jacira e Gilberto aquele contato imediato do terceiro grau há cinquenta anos.

Neste ponto, o diretor do doloroso e redentor “O Dia Que Te Conheci” (2023) cria uma fábula alienígena romântica que tem suas raízes nos bailes black. Logo em seu início, em uma reconstituição de época primorosa, conhecemos Jacira e Gilberto ainda jovens (Tainá Evaristo e Jean Paulo Campos com um timing preciso) em um desses bailes. Na voz de Hyldon cantando sobre “As Dores do Mundo” é que percebemos a ligação entre os dois e, em seguida, somos surpreendidos pela longevidade daquele relacionamento.

Norberto Novais Oliveira e Conceição Evaristo vivem as versões maduras de Gilberto e Jacira. Seu Norberto, figura já conhecida dos filmes dirigidos pelo filho André, está cada vez mais à vontade na atuação. Aqui, entrega sua melhor performance como ator, captando o desespero da perda em pequenas nuances de tristeza. Mas antes disso, é na química perfeita entre ele e a escritora Conceição Evaristo que reside o tesouro de “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”. Estreando como atriz, a autora traz uma naturalidade impressionante para sua Jacira, a companheira teimosa que não cumpre recomendações de saúde e insiste em sua dieta baseada em torresmo e guloseimas. No olhar dela diante da censura médica, bem como a oriunda do marido por conta de sua teimosia em não seguir as recomendações profissionais, reside um dos pontos de melhor comicidade na obra de André. Ponto para sua direção e para a de Kelly Pfeiffer, preparadora de elenco.

A presença da escritora, inclusive, remete de maneira tocante à da dona Maria José Novais Oliveira, saudosa mãe do cineasta André Novais, que também se tornou atriz por influência do filho diretor. Em sua naturalidade em cena, sua presença maternal, seu afeto tão evidente, muito de dona Maria José transparece em Conceição Evaristo, cuja criação de Jacira denota exatamente esse cuidado. Não seria surpreendente saber que muitos dos diálogos entre Jacira e Gilberto acerca de café fraco e descascar de laranjas tenham tido origem na saudade que André tem de sua mãe, cuja presença poética e cinematográfica se faz atuante na bela logo da produtora Malute a abrir o filme. Mais um belo trabalho dessa turma mineira que despontou em 2010 com o já clássico curta “Fantasmas”, primeiro trabalho de direção de André Novais Oliveira. Nunca assistiu? Faça um favor a si mesmo e dê play no vídeo abaixo agora.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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