texto de Bruno Capelas
fotos de Fernando Yokota
Há um rito que muitos fãs de música repetem em São Paulo: a caminhada no corredor com chão de paralelepípedos, entre antigos galpões industriais convertidos em espaço cultural. Na noite da última quinta-feira, 24, porém, a chegada ao tradicional palco da comedoria do Sesc Pompeia (eleito pelo britânico Guardian um dos melhores edifícios de concreto do mundo) foi um bocado diferente: em meio a uma pequena multidão, uma placa avisava: “Tinariwen – Ingressos esgotados”. Um grupo nada desprezível de pessoas circulava pelo local com placas, avisos e até mesmo panfletos pendurados em cordões de crachá dizendo “compro ingresso”, em busca de uma última chance para ver o grupo tuaregue se apresentar na primeira de suas duas datas esgotadas em São Paulo.
A alta procura tinha motivo: os 1600 ingressos para as duas noites do Tinariwen no Sesc Pompeia sumiram em poucos minutos do site da entidade. Nos dias que antecederam a apresentação, houve fluxo intenso de entradas sendo transferidas pelo WhatsApp, num câmbio mais movido por relações pessoais do que pelo comércio de fato. Ainda assim, não suficiente para atender a demanda dos paulistanos em meio a turnê do grupo pelo Brasil, que teve ainda passagens por Olinda, Franca e Rio de Janeiro em ações do MIMO Festival. Houve até quem tentasse um movimento popular para convencer o Sesc a abrir a porta da antiga choperia, permitindo que quem estivesse de fora pudesse ver ao menos uma fresta do show.

Lá dentro, outra faixa, com inscrições sobrepostas a uma bandeira branca, azul, vermelha e amarela, chamava a atenção de quem passava por ali: “Bem-vindo Tinariwen ao Brasil. Vossa luta é a nossa luta”. A mesma bandeira voltaria a reaparecer momentos depois, já no palco, quando homens e mulheres de turbantes a entregaram a Abdallah Ag Alhousseyni, um dos seis integrantes do Tinariwen que fizeram parte da apresentação no Sesc Pompeia. Pode parecer um mero detalhe, mas ela é a chave para entender por que a música do grupo vai muito além dos clichês batidos de “blues tuaregue” ou “Jimi Hendrix no deserto” (algo que Mdou Moctar aprofundou aqui mesmo no Scream & Yell).
Há quem tente dizer que não se deve misturar música e política. No caso do Tinariwen, isso é inevitável: fundador do grupo (e ausente das apresentações no Brasil), Ibrahim Ag Alhabib viu seu pai ser morto aos quatro anos de idade, em 1963, durante uma rebelião tuaregue no Mali. É uma luta que se estende até os dias de hoje: historicamente espalhados por uma região que atravessa o Saara e o Sahel, os tuaregues viram seus territórios de circulação serem divididos pelas fronteiras coloniais e, depois, pelos Estados nacionais surgidos com a descolonização africana – caso do Mali, mas também da Argélia, de Burkina Faso, do Níger e da Líbia.

Em cada um desses países, os tuaregues tiveram de conviver com diferentes modelos de governo – no Mali, as rebeliões começaram porque o governo central do país centralizava a política e mandava poucos recursos para o Norte, onde vivia o povo berbere. Depois de perder o pai, Ibrahim viveu como refugiado na Argélia, onde construiu sua primeira guitarra com uma lata de óleo, um fio de freio de bicicleta e um pau de madeira – a inspiração, reza a lenda, veio de um filme em que um cowboy tocava o instrumento.
Ibrahim também perambulou por outros países da região, absorvendo a música da Argélia e do Mali, ao mesmo tempo em que ouvia registros contrabandeados de Bob Dylan, Jimi Hendrix e outros artistas americanos. Já adulto, em 1979, ele conseguiu comprar sua primeira guitarra e formou uma banda para tocar em festas e casamentos. No ano seguinte, foi convocado pelo governo líbio de Muammar Gaddafi para receber treinamento militar, junto de outros jovens tuaregues. Entre exercícios e planejamentos, o Tinariwen nasceu como um coletivo de músicos, gravando fitas cassetes que circularam pelo Saara.

Ao longo dos anos seguintes, Ibrahim e outros membros fundadores do grupo, como Alhassane Ag Touhami e Abdallah Ag Alhousseyni, alternaram a carreira musical e a luta armada, até que um acordo de paz em 1991 encerrasse os conflitos e permitisse que eles se dedicassem a gravar o primeiro disco do grupo, “Kel Tinariwen”. De lá para cá, foram mais de uma dezena de discos, um Grammy de Melhor Álbum de World Music em 2012 (seja lá o que isso signifique) e múltiplas colaborações com nomes como Kurt Vile, Tunde Adebimpe, Mark Lanegan, Nels Cline ou Josh Klinghoffer, além de duas passagens pelo Brasil, em 2011 e 2016.
O mais recente capítulo dessa história é o disco “Hoggar” (2026), gravado na Argélia, lançado no início deste ano e marcado por uma forte carga política, em meio ao recrudescimento do conflito no Mali. Hoje, um grupo de separatistas tuaregues busca a independência do país que chamam de Azawad, lutando contra o governo malinês. Dona da tal bandeira que apareceu no Sesc Pompeia, a Frente de Libertação de Azawad (FLA) também enfrenta o Africa Corps, estrutura administrada pelo Ministério da Defesa russo que sucedeu a organização paramilitar Wagner Group na região.

Talvez pouco ou nada disso passasse pela cabeça de quem esteve no Sesc Pompeia. Entender esses conflitos, porém, é fundamental para compreender, por exemplo, a ausência do fundador Ibrahim Ag Alhabib em São Paulo. Há alguns anos, o Tinariwen já não conta com uma formação fixa: além do estilo de vida nômade e da comunicação ainda difícil no deserto, o grupo tem de lidar com questões de fronteiras nacionais para poder viajar. Além disso, a banda ainda tem aberto espaço a jovens músicos tuaregues, como forma de renovar a mensagem que busca transmitir pelo mundo – não só de resistência, mas também de saudade, melancolia e contemplação da paisagem do deserto.
Não que a ausência do veterano tenha sido gravemente sentida: desde os primeiros acordes, com os rostos por vezes cobertos por turbantes, o grupo impressiona. Quem começa cantando é Abdallah Ag Alhousseyni, que ao longo da noite se alternará entre o microfone e um violão muito espertamente tocado, com uma ágil mão direita. A mesma técnica será utilizada pelos outros guitarristas do grupo, o jovem Elaga Ag Hamid (guitarra base) e Iayd Moussa Ben Abderrahmane, responsável também por assumir as faixas do ausente decano no palco. É o caso da nova “Imidiwan Takyadam”, que soa como meditação na versão em estúdio com José Gonzalez, mas ganha ares balançados na versão ao vivo.

Boa parte do balanço, por sua vez, se deve à nada discreta cozinha do Tinariwen, composta pelo baixista Cheick Ag Tiglia e pelo percussionista Said Ag Ayad. Enquanto o segundo trabalha de maneira minimalista, mais presente, o baixista é responsável por uma profusão de notas, fazendo muitas vezes a cama para que seus colegas cantem – e a plateia dance junto com as mãos levantadas.
O grande trunfo do grupo, porém, é o membro fundador Alhassane Ag Touhami. Na maior parte do espetáculo, ele se dedica a dançar e cantar de maneira entusiasmada, muitas vezes assumindo o papel de se conectar com a plateia – uma espécie de Bez tuaregue, para fazer uma aproximação nada sutil com o integrante chave do Happy Mondays. É quando pega a guitarra e usa todos os dedos, sem palheta, porém, que Hassan mostra a que veio. Em faixas como “Tahoult” e “Tamatant Tilay”, são dele os momentos mais faiscantes do grupo no uso do instrumento. Nelas, se torna mais perceptível a passagem do Tinariwen pela encruzilhada entre a música berbere e a influência do blues e do rock norte-americanos.

Falar em encruzilhada, porém, talvez não seja a melhor maneira de expressar a rota que compõe a música do Tinariwen, apesar da figura caber muito bem ao imaginário do blues. A verdade é que, no mundo da música, a água que corre por diferentes rios pode ser a mesma água, seja num oásis do Saara ou no delta do Mississippi. Em torno da lamentação de uma terra perdida, não só no espaço, mas também no tempo, os tuaregues respeitam a estrutura da canção, num show que é mais circular do que exatamente hipnótico ou explosivo. É um espetáculo para dançar e celebrar a vida – não porque ela é boa, mas justamente porque ela é difícil, como bem ensinou Luiz Antônio Simas.
Talvez parte desse caráter festivo se deva também à barreira linguística: apesar da presença de alguns compatriotas do grupo e de um punhado de fãs capaz de cantar as letras em tamacheque (a língua tuaregue), a vasta maioria dos presentes no Sesc Pompeia não exatamente compreende o que o Tinariwen canta. O advérbio da frase anterior poderia ser descartado, mas tem lá sua justificativa: afinal, a carga política pode permanecer ausente para muitos, mas a incompreensão também faz sobressair a beleza das melodias e harmonias do sexteto. Não à toa, é fácil perceber a potência de “Afric Tendam”, que abriu o bis com Abderhammane inicialmente sozinho no palco com sua guitarra, depois acompanhado pelos colegas. “É uma canção para a África”, disse o percussionista Said, em francês e depois em inglês.

Foi um raro momento em que o grupo falou diretamente com a plateia – na maior parte do tempo, os integrantes do Tinariwen alternaram “obrigado” e “merci”. Não que a comunicação não tenha funcionado: após longos pedidos da plateia, o grupo correspondeu o carinho no bis com duas execuções primorosas de “Sastanaqam” e “Chaghaybou”, com direito ao baixo de Cheick Ag Tiglia colocando a comedoria toda do Sesc Pompeia para pular e bater palmas. A noite lá fora era fria, mas havia muito calor dentro da comedoria – e a certeza de que assim como os tuaregues se acostumaram a circular pelo deserto, sua arte também é prova de que a música vai além das fronteiras.
O show do Tinariwen é também uma amostra do que Joey Santiago, guitarrista dos Pixies, confidenciou ao Scream & Yell numa entrevista feita recentemente – e ainda inédita. Questionado sobre o declínio das bandas de rock, ele respondeu: “a guitarra elétrica não vai sumir. Ela é um instrumento muito poderoso de expressão”. Vendo o Tinariwen no palco e pensando em sua história da lata de óleo ao domínio da ágil mão direita no Sesc Pompeia, é difícil discordar.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/
Todas as fotos de Fernando Yokota, exceto a foto da faixa, por Carlos Soares
