Em noite sold out em São Paulo, Kneecap transforma show em rave política às vésperas da eleição presidencial

texto de Alexandre Lopes
fotos de Fernando Yokota

Depois de uma passagem pela América Latina que incluiu Cidade do México, Bogotá, Buenos Aires e Santiago, o Kneecap encerrou a turnê pelo continente na sexta-feira (23), no Cine Joia, em São Paulo. Em sua estreia brasileira, o trio irlandês de hip-hop apresentou um show que combinou batidas eletrônicas, sátira política e palavras de ordem com manifestações de apoio à Palestina e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A apresentação chegou a ser ameaçada por uma iniciativa que levou o Ministério Público de São Paulo a abrir um inquérito civil, mas aconteceu com ingressos esgotados e uma plateia disposta a responder cada provocação com coros.

O Kneecap nasceu em Belfast, na Irlanda do Norte, em 2017, e construiu sua identidade misturando inglês e irlandês em letras que atravessam a experiência da classe trabalhadora, a identidade nacional e o legado do domínio britânico. O primeiro álbum, “Fine Art”, saiu em 2024, e “FENIAN”, o segundo, chegou em maio de 2026. A defesa da língua irlandesa é parte central do projeto, assim como a disposição de afrontar autoridades e transformar controvérsia em combustível artístico. Não é à toa que o nome do grupo remete à prática histórica do republicanismo irlandês de atirar nos joelhos de pessoas consideradas traidoras ou criminosas.

No palco, tudo isso ganha uma dimensão muito mais física. O Kneecap não tem uma banda tradicional com guitarra, baixo ou bateria, mas tem beats, rimas, samples, um DJ e MCs que parecem ter descoberto como converter a multidão em parte incendiária do show. E a pancada vem de graves que atravessam o peito, refrões que se transformam em palavras de ordem e uma sucessão de mudanças de andamento que não dá aos corpos tempo suficiente para decidir se quer dançar, pular ou abrir uma roda.

No Cine Joia, antes mesmo de o grupo entrar no palco, o público já gritava “Olê, olê, olê, olá… Lula, Lula” e cantava “Favourite”, do Fontaines D.C., que tocava no sistema de som e anunciava que o show estava para começar. Pouco depois, um coro de “Free, free Palestine” tomou conta do lugar. A temperatura da casa subiu junto com essa antecipação. O ar-condicionado não parecia dar conta do calor, mas ninguém ali demonstrava querer diminuir o ritmo.

No telão, mensagens em português denunciavam o grande número de mortes de palestinos desde 2023 e o apoio militar e político dos Estados Unidos a Israel. Em seguida, apareceu a mensagem “Palestina livre!”. O coro que já vinha se formando na plateia ganhou corpo e o Kneecap entrou em cena, com “Éire go Deo” preparando o terreno para a chegada de DJ Próvaí, de rosto coberto por uma balaclava, atrás das pickups. Uma bandeira palestina e outra irlandesa decoravam sua mesa.

Mo Chara e Móglaí Bap surgiram no palco para cantar “Smugglers & Scholars”. O primeiro usava um lenço palestino ao redor do pescoço e fez o L com a mão, gesto recebido com uma explosão de gritos dos fãs. O segundo parecia disposto a gastar até a última gota de energia disponível no recinto. Não demorou para ficar claro que uma forte relação entre o grupo e o público brasileiro já havia se estabelecido: o segundo turno das eleições naquele fim de semana inspirava uma pré-disposição para o confronto e os irlandeses sabiam exatamente o que fazer com isso.

“Carnival” trouxe imagens de circo ao telão e o coro de “Free Mo Chara, free, free Mo Chara”. A partir daí, o espetáculo visual passou a disputar atenção com a música. Políticos britânicos e outras figuras públicas eram transformados em caricaturas grotescas, numa galeria de inimigos que incluía Keir Starmer, Benjamin Netanyahu e Kemi Badenoch. Em outros momentos, Donald Trump também apareceria no repertório de provocações vocais.

A temperatura continuava subindo. Em “Better Way to Live”, a imagem de Grian Chatten do Fontaines D.C. apareceu na tela para cantar os refrões e a plateia também assumiu os vocais. “Sick in the Head” trouxe mais uma onda de gritos de “olê, Lula”, agora acompanhados pelo próprio grupo. Depois de convocar o público com um “Brazil, are you ready?”, o trio disparou “Gael Phonics”, enquanto DJ Próvaí se aproximava da beira do palco para interagir com a multidão e puxar bandeiras e camisetas pró-Lula.

Em “Cold at the Top”, Móglaí Bap ainda encontrou disposição para pegar objetos estendidos pela plateia, autografar e devolvê-los. Era um pequeno gesto de cordialidade no meio de uma apresentação que levava tudo ao limite. Antes de “An Ra”, os gritos contra Flávio Bolsonaro se misturaram à música. A essa altura, o público não precisava de instruções para encontrar seus próprios alvos.

“Nós chegamos ao Brasil ontem à noite e sabemos que esta é uma época importante aqui”, disse um dos integrantes, antes de receber outra rodada de coros pró-Lula. O recado seguinte foi direto: o Kneecap estava ao lado do público brasileiro, seguido de um “fuck Donald Trump, fuck Bolsonaro”. A brincadeira com os slogans políticos dos Estados Unidos apareceu em uma provocação que adaptava o conhecido “lock her up”, usado por apoiadores de Trump contra Hillary Clinton. O grupo também mandou o governo britânico se ferrar antes de “Get Your Brits Out”, título que dispensa maiores explicações.

O Kneecap entende a política como ideologia, mas também como linguagem e comédia. Sua capacidade de provocar depende tanto da contundência quanto da disposição para o absurdo. As frases de efeito e a caricatura dos adversários no telão não são meros coadjuvantes da música, pois também adicionam ao espetáculo. É uma estratégia que pode parecer excessiva para quem espera alguma sutileza, mas que mostra que o trio não está interessado em meias palavras ou isenção política. O grupo está interessado em inflar os ânimos da plateia a ponto de participar de uma guerra.

“Significa muito para nós vir da Irlanda até aqui para o Brasil”, disse um dos integrantes. “E foda-se os bastardos que cancelaram e tentam desmarcar os nossos shows.” A frase foi recebida como se fosse mais um refrão e causou comoção. Não era difícil entender por quê: o grupo havia atravessado a América Latina para chegar ao país e encerrava a passagem pelo continente em uma cidade onde a realização do evento também tinha se tornado objeto de disputa pública por parte de uma denúncia de uma vereadora conservadora do Partido Novo.

Em seguida, veio “Sayonara”, precedida por uma convocação ao mosh pit. A instrução era simples: se alguém caísse, os outros deveriam ajudar a pessoa a se levantar. É uma regra básica de qualquer roda que se preze, mas ouvir isso de uma banda com grande vocação para o caos tem um caráter acolhedor. A violência do espetáculo não é exatamente entre as pessoas, mas uma descarga coletiva – desde que ninguém confunda o direito de pogar com derrubar os outros e deixá-los no chão.

O grupo ainda comentou que aquele era o último show turnê latino-americana, mencionou o café colombiano e fez uma menção à Argentina, recebida com vaias por parte da plateia, seguido de vários “fuck Milei”. “Your Sniffer Dogs Are Shite” provocou uma nova explosão. “I bhFiacha Linne” veio pesada, sem aliviar a pressão sobre os corpos. Em “Fine Art”, Móglaí Bap finalmente tirou o hoodie de seu moleton, revelando o cabelo grudado de suor. A plateia respondia como se ainda tivesse energia sobrando. O que impressionava não era apenas o volume da reação, mas a maneira como o trio conseguia reanimar um público que parecia ter chegado ao limite físico minutos antes.

“Rhino Ket” veio com uma versão particularmente brutal, culminando no verso “I’m k-holed off my head, this shit puts Rhinos to bed”. Depois, quando o grupo afirmou que aquele poderia ter sido o melhor show da turnê latino-americana, a frase já não soava como uma gentileza ou rasgação de seda: o que se via no Cine Joia era uma sucessão de corpos exaustos acompanhando uma máquina intermitente que não dava sinais de desaceleração.

“Liars Tale” abriu caminho para “FENIAN”, recebida com a plateia soletrando o título junto com o grupo. “Big Bad Mo” e “Parful” deslocaram a apresentação para um clima de rave cada vez mais inquieta. O rap continuava ali, mas já não era possível separar com precisão suas fronteiras do punk, do techno e da música eletrônica que atravessa o repertório do trio. DJ Próvaí estava ali para preencher os espaços entre as rimas e manter o motor funcionando enquanto os dois MCs se revezavam entre as provocações nos microfones.

Se ainda havia alguém no Cine Joia pensando em economizar energia para o caminho de volta para casa, “H.O.O.D.” tratou de frustrar essa segurança. O público voltou a cantar em massa, um fã chegou a subir no palco e o verso “it’s gonna be a bloodbath” ganhou a dimensão de uma ameaça e combustível para a dança. Móglaí Bap já estava sem camisa, consolidado como o sex symbol da noite, enquanto Mo Chara seguia comandando o público sabendo que a plateia não precisava de muito incentivo para responder.

Mas havia uma dimensão bem menos revolucionária circulando pelo recinto. Camisetas a R$ 180, bonés a R$ 150 e adesivos a R$ 80 lembravam que a iconografia dessa revolta também tem preços altos. Não chega a ser uma contradição exclusiva do Kneecap ou uma razão para desqualificar o show; é apenas uma daquelas imagens que o capitalismo oferece de graça em nossas caras, enquanto cobra caro por todo o resto. A rebeldia ainda pode ser encarada como uma mercadoria e também pode ser comprada por quem acabou de passar duas horas gritando contra o poder e o colonialismo em diversas línguas.

Antes de “THE RECAP”, vieram mais gritos de “Fuck Bolsonaro” e “Lula”. Uma bandeira referenciando o presidente apareceu na plateia, e o telão exibiu um “Bora Lula”. Enquanto os integrantes se despediam no palco, o sistema de som reproduzia “Bella Ciao”, a canção italiana que se tornou um dos hinos internacionais do antifascismo, associada à Resistência contra a ocupação nazista e o fascismo na Itália. A escolha para acompanhar a saída de banda e público funcionou como um epílogo: ela encerrou a noite sem tentar resolver todas as contradições que podem ter surgido, mas oferecia um recado fácil de reconhecer e difícil de separar do mundo atual – e especialmente do Brasil naquele fim de semana.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br. 
– Fernando Yokota é fotógrafo. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br

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