Crítica: Representante do Brasil no Oscar 2027, “Feito Pipa” é singelo, esperançoso e fofo

texto de Leandro Luz

Soltar pipa é mesmo uma brincadeira afeita a metáforas. Já no início dos anos 2000 o grupo Bonde do Tigrão cantava sobre “passar cerol na mão” e “aparar pela rabiola”. Poderosa essa imagem de um objeto de corpo frágil que voa aparentemente livre nos céus, mas sempre preso a uma linha controlada por alguém. Esse mesmo objeto pode voar alto demais e também pode ser abandonado à deriva após um corte abrupto. Para manter uma pipa – ou papagaio, arraia, cafifa, a depender da região do país da qual se fala – no ar, é preciso olhar fixamente para o alto e, de um modo ou de outro, acreditar na força e na vontade invisível dos ventos.

“Feito Pipa” (Allan Deberton, 2026) conta a história de Gugu, um garoto alegre de 12 anos que ama dançar e jogar futebol. Criado pela avó Dilma, ele convive com bons amigos, sabe tudo de moda e não tem vergonha de ser quem é. Ele é consciente de que a forma como enxerga o mundo – sem essa de “coisa de menino ou de menina” – pode ofender algumas pessoas, e sofre as consequências disso, inclusive. Enfrenta de cabeça erguida os bullies da escola, mas é nas relações familiares que ele encontra a maior dificuldade para se movimentar como gostaria. Já de cara notamos que o filme se orientará pelo carisma de Yuri Gomes, jovem e talentoso ator capaz de corresponder às expectativas de um roteiro que exige uma performance convincente. Este seria um filme fadado ao fracasso caso seus realizadores não tivessem encontrado a pequena estrela.

 

Lázaro Ramos interpreta Batista, pai de Gugu, com dureza, em oposição às interpretações de Gomes e de Teca Pereira, grande atriz que recebe Dilma como um presente e não desperdiça. Esse triângulo familiar será responsável pelos principais conflitos do filme. Gugu aparenta ser maduro para a sua idade e constantemente inverte papéis com a avó: é o menino que chama a atenção dela quando esquece de tomar remédios ou quando exagera ao lidar com os pretendentes no forró. Deberton tenta construir um retrato positivo da terceira idade e outro da infância, ambientados no Ceará, sem se esquivar de grandes problemas estruturais da nossa sociedade. Nessa busca, o cineasta acerta muitas vezes, mas também deixa pontas soltas no desenvolvimento dos personagens e na forma de representar as viradas dramáticas de seu filme.

O escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil no Oscar em 2027 tem o trabalho de elenco e os esforços das equipes de direção de arte e de figurino como as suas principais virtudes. Gabriella Marra ajuda a construir a personalidade de Gugu com roupas super elaboradas, ainda que feitas de materiais aparentemente simples. O olhar atento da figurinista resulta em momentos marcantes do filme, como a abertura hollywoodiana que apresenta Gugu para o público e, mais para o final, quando o menino aparece, já morando com o pai, com roupas mais conservadores, quase sem acessórios – à exceção do colar que mantém como resistência à truculência paterna. Dayse Barreto, diretora de arte, também faz um trabalho minucioso e consegue transmitir uma série de informações importantes para a trama apenas com o bom uso de objetos de cena, como é o caso das fotos da mãe de Gugu pela casa e das roupas íntimas de Dilma no varal.

A ausência da filha de Dilma e mãe de Gugu é um elemento primordial em “Feito Pipa”. Os primeiros sintomas da doença neurodegenerativa de Dilma a fazem trazer à tona a memória dolorosa da filha. Aos poucos, descobrimos que a morte dessa personagem foi mais trágica do que imaginávamos e que está diretamente ligada ao histórico de alagamento daquela comunidade. Na trama, Gugu constantemente observa o nível da água baixando e revelando uma cidade alagada no passado em função da construção de uma barragem. Primeiro, a torre da velha igreja e, aos poucos, o restante da cidade – e dos mistérios – começam a emergir. O filme utiliza essas imagens para marcar a passagem do tempo e, consequentemente, a sua progressão narrativa.

É por não entender por completo o passado da mãe e por não aceitar o presente com o pai que Gugu se transforma em uma criança cada vez mais introspectiva. São muitos os planos que isolam o protagonista de outros personagens e das coisas que ele mais gosta de fazer. Gugu passa por micro-agressões – a imagem dele segurando um sinalizador rosa no chá revelação da nova irmãzinha que está para nascer é particularmente dolorosa de se ver – e por violências escancaradas – o espancamento no bosque também é duro de se presenciar.

Deberton e seu roteirista, Andre Araujo, tentam unir água e óleo: “Feito Pipa” é fofo, singelo e esperançoso ao tratar de preconceitos, violências e abandonos. Ainda que guarde boas intenções, a manipulação é excessiva. Percebemos, enquanto público, que estamos sendo conduzidos pelo roteiro a sentir as mais diversas emoções em um espaço muito curto de tempo. Outro problema do roteiro é a dificuldade de lidar com Batista. Sem curvas ou sombras, ao personagem resta um lugar estático, com poucas nuances.

“Eu tô indo salvar o mundo”, diz Gugu ao fim da primeira sequência do filme. Embora acreditemos por um instante em nosso herói – a sua capa não deixa dúvidas sobre os seus super-poderes -, também somos confrontados com um mundo que não temos certeza se queremos que seja salvo. Depois de tantos acontecimentos – Dilma é internada, Gugu acaba morando com o pai, contra a sua vontade -, resta ao filme confiar nos fortes laços estabelecidos entre avó e neto.

O plano mais bonito de “Feito Pipa” faz a câmera se aproximar de Dilma, sentada ao lado de uma cadeira vazia. Aos poucos, com um travelling, descobrimos que Gugu também está lá, na tentativa de se reaproximar da avó. Num salto quase de fantasia, o filme termina com os dois em uma moto, cada um usando um par dos brincos que Gugu trouxe de volta para a avó. É um desfecho que irrompe como uma música pop (talvez como “Time After Time”, de Cyndi Lauper, também insista em ocupar a banda sonora), mas pouco comprometido em resolver os problemas reais que o próprio filme criou para si.

– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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