Ao vivo: Él Mató promove noite de conforto, pertencimento, acolhimento, senso de comunidade e esperança em São Paulo

texto de Leonardo Vinhas
fotos de Fernando Yokota

Em 2006, 20 anos atrás, o El Mató Un Policía Motorizado tocou pela primeira vez no Brasil. Foi a primeira de muitas  que os argentinos passaram por palcos nacionais, e a primeira vez deles tocando em solo estrangeiro. De lá para cá, a banda, fundada em 2003, desenvolveu uma carreira internacional que chega a vários países da América Latina e Europa, mas nunca deixou de lado as terras brasileiras, com passagens por Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Florianópolis, Belém (no Festival Se Rasgum) e outras cidades. Cada passagem trazia a banda em um novo momento sonoro, e o país em um diferente momento social e cultural. Como tantas coisas podem mudar tanto em tão pouco tempo e, ainda assim, reter parte de sua essência?

O set no Cine Joia em 2026 abriu com “Navidad en los Santos”, lançada em um longínquo 2005 (e presente em duas versões numa coletânea brilhante lançada no Brasil pelo selo Senhor F), e foi sucedida por “Un Segundo Plan” (2023), faixa de abertura de seu último álbum, “Súper Terror”. É bonito e especial ouvir ambas enfileiradas: a primeira traz ainda a sonoridade indie rock propensa a mais explosões, distorção e efeitos barulhentos, enquanto a segunda vem cheia de detalhes, com riff ritmicamente complexo e um sentido de pop épico em sua progressão. Parecem duas coisas distintas quando apresentadas assim, mas na verdade já dava para ouvir os ecos da sonoridade mais ampla e sofisticada de hoje na canção mais antiga, assim como a faixa mais nova não dispensa o ruído e o espírito indie do passado. É como se o El Mató mudasse para ficar cada vez mais próximo da banda que sempre quis ser.

(Teria sido ainda mais bonito se o som não estivesse tão baixo. Embora tenham aumentado um pouco a partir da quarta música, continuou em volume insuficiente a noite toda, chegando absolutamente sem força e pressão na parte coberta pelo mezanino. Só ouvia com um pouquinho mais potência quem estava bem no meio da pista do Cine Joia.)

E o Brasil? Bem, em 2006 éramos outro país, com esperança em estabilidade econômica, crescimento cultural e conquistas sociais. O Brasil de 2026 você sabe como está, e não é preciso descrever o que estamos encontrando em nosso dia a dia. Por isso, é especialmente triste quando soa “Tantas Cosas Buenas”, uma das mais desencantadas canções de “Súper Terror”, com seus duros versos “Não é difícil de entender / Tudo isso vai se perder / Tantas coisas boas / Desmoronando de uma só vez”. Talvez o estado atual das coisas seja mesmo apenas nossa nação voltando ao estado autoritário, sectário e plutocrata que caracteriza o grosso da nossa história. Mas…

…mas a música, sempre ela, faz mais que encantar os ouvidos. Ela alimenta a esperança, cria comunidades, e renova as forças para mais um dia, mesmo sabendo que o dia seguinte pode vir muito difícil. São muitas lutas para lutar e é fácil desanimar. Mas a Avenida Paulista tomada de gente em clamor popular pela democracia naquele mesmo dia 11 de outubro não estava disposta a desanimar. E uma parte dessa multidão tinha ido celebrar a vida ali no Cine Joia, com adesivos de Lula, cantos de “olê, olê, olá, Lula, Lula” e, especialmente, alegria.

Cada canção era saudada com uma emotividade intensa. Era algo diferente de 2022, quando, naquele mesmo Cine Joia (após também passar por Porto Alegre – como neste 2026), o El Mató protagonizava um dos primeiros shows estrangeiros depois de dois anos de isolamento social por conta da pandemia da Covid. Aquele havia sido um show alto, intenso, catártico – com um pogo enorme em que muita gente purgou no suor a tristeza de dois anos isolados sob o comando de um governo genocida, orgulhoso de sua própria negligência. Assim como agora, era um show ocorrido duas semanas antes do segundo turno das eleições. Assim como agora, Santiago Motorizado sabia onde estava pisando – se em 2022 ele fez o L e disse “día 30” (data do segundo turno naquele ano) com um sorriso nos lábios, em 2026 foi a hora de ele dizer “acho importante vocês saberem que essa foi a nossa canção de número 13” logo após uma potente “Yoni B”.

E sim, canções ritmicamente fortes como “Yoni B”, “Ahora Imagino Cosas”, “Chica de Oro” e “Mi Próximo Movimiento” botavam a pista em ebulição, mas canções mais melódicas e de sensibilidade mais aflorada pareciam promover uma emoção mais profunda e causar maior entrega. “El Tesoro”, “Más o Menos Bien”, “La Noche Eterna” e “Fuego” foram momentos altos de um show sem pontos baixos, com muita gente visivelmente tocada por aqueles arranjos lindos e pelos versos cheios de sentimento de comunidade, proximidade e afeto. E quando voltaram para o bis com “El Magnetismo” (dos versos “Ei, quem vai cuidar de você? / Neste mundo perigoso / Temos que ficar juntos”), as últimas pontas soltas se conectaram. Ficou claro que quem estava naquele show não queria “apenas” ver um artista do qual gostava muito, fosse pela primeira vez, fosse um reencontro. Queria pertencimento, acolhimento, conforto, senso de comunidade. E esperança.

E, de fato, parecia ser esse o sentimento que fez as pessoas ficarem ainda um bom tempo pelas imediações do Cine Joia, mesmo com a ameaça de mais chuva (havia caído um temporal pouco antes do show). Não importou o som baixo, o atraso de quase 40 minutos, a terrivelmente equivocada trilha sonora escolhida para soar antes e depois do show (por mais que Santiago Motorizado seja fã de Dean Martin, não deu pra entender aquela interminável sequência de soporíferas canções românticas dos anos 1950 antes de um show do El Mató). As únicas coisas que importaram foram esse encontro com a música e com aqueles que, mesmo desconhecidos, podíamos chamar de “nossos”.

Claro, podemos falar muito mais de música ainda. Sobre como o El Mató é o que é por causa da soma das partes que o compõem – a inventividade e a força do baterista Willy Díaz (“Doctora Muerte”), o virtuosismo indie rock do guitarrista Gustavo Monsalvo (“Niño Elefante), a navegação entre o épico e o introspectivo dos teclados de Agustín Spasoff (“Chatrán Chatrán”), os riffs enérgicos do guitarrista-base Manuel Viamonte (“Pantro Puto”) : guitarra e, claro, as letras e melodias de Santiago Barrionuevo. Basta ver como seus trabalhos solo trazem muitos dos elementos que compõem a música do El Mató a Un Policía Motorizado, mas não entregam o mesmo brilho e envolvimento que a banda.

É essa constatação, que ficou ainda mais clara depois do show do Cine Joia (o quinto que assisti da banda), que permite dizer que o El Mató é resultado de um esforço coletivo para criar canções que atravessem a sua própria efemeridade sem deixar de ser capazes de falar com o presente. Coletividade, esforço, dialogar com o presente – todas coisas muito necessárias agora. Necessárias como o dia 11 de outubro nas ruas, necessárias como um show desse porte numa época dessas.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.
– Fernando Yokota é fotógrafo. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br

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