Três shows: gueersh, Nigéria Futebol Clube, Vera Fischer Era Clubber

texto de Alexandre Lopes
fotos de Julia Rocha (gueersh)
fotos de Doug Mosh (Nigéria / Veras)

gueersh no Centro da Terra (08/09)
Na terça-feira pós-feriado da Independência, a gueersh levou ao Centro da Terra, em São Paulo, uma apresentação especial batizada de “Coletivas Mãos”. O risco era considerável: em vez de apostar nos bons momentos já conhecidos de “Tempo Elástico” (2023) e “Interferências na Fazendinha” (2024), a banda fluminense radicada na capital paulista decidiu tocar na íntegra “Macarrão de Guerrilha” (2026), disco que só chegaria às plataformas na semana seguinte. Para uma plateia que ainda não conhecia aquelas músicas, poderia ser uma aposta ingrata. Mas passou bem longe disso. No palco, Lívia Gomes (voz e synths), David Dinucci (guitarra), Guilherme Paz (guitarra e percussão), Thomaz Alves (baixo) e Igor Arruda (bateria), ganharam o reforço de Eduardo Manso, responsável pelas manipulações e colagens sonoras e também coprodutor do álbum. Juntos, eles construíram uma performance que não pretendia apenas reproduzir o disco, mas descobrir diante do público até onde aquelas músicas poderiam chegar. A abertura com “Nova Esperança” já indicava o caminho: baterias inquietas e baixo firme sustentavam linhas de guitarras tortas, enquanto synths, vozes, ruídos e colagens ajudavam a criar uma atmosfera quase quimérica. Era um som difícil de enquadrar, mas fascinante de acompanhar como um novo organismo que ia se transformando diante dos ouvidos e olhos. As retroprojeções orgânicas e mutantes de Ruth con Teache e Isabela Besen remetiam aos Liquid Light Shows (experiências visuais que acompanharam os primeiros shows do Pink Floyd ainda com Syd Barrett no underground londrino dos anos 1960). Assim, som e imagem funcionavam como partes intrínsecas da mesma viagem. “Tempo das Coisas” foi um dos melhores exemplos da diferença entre a gueersh no disco e no palco: a gravação não chega a produzir o mesmo impacto que a música tem ao vivo, quando ganha mais peso e cadência. “Guerreires do Jóquei” criou uma espécie de transe coletivo com ritmos repetitivos e hipnóticos. Em “Sempre Pode Ser”, Lívia mostrou que não está com medo de experimentar as diferentes nuances de sua voz e soltou o gogó como nunca. Já “Mangueira Prata” levou a apresentação para um lugar ainda mais viajante perto do fim. Mas o público não pareceu disposto a encerrar a experiência ali e pediu mais. A gueersh voltou para um bis com uma música inédita que não faz parte do novo álbum, mostrando que a banda ainda tem mais maluquices instigantes guardadas. Que venham mais shows assim da gueersh em teatros.


Nigéria Futebol Clube na Casa Natura Musical (10/09)
O Nigéria Futebol Clube abriu a noite na Casa Natura depois de passar o dia gravando uma participação no programa Cultura Livre. Se havia alguma tensão acumulada pela tarde inteira de gravações, o coletivo resolveu desopilar da maneira mais adequada possível para eles mesmos: com um longo improviso noise/free jazz, em que músicos e convidados se alternavam entre vocais, trompete e bateria no palco. Para quem já conhecia a banda, não era nada muito fora do modus operandi imprevisível do grupo. O trio fixo de Itaquaquecetuba formado por Conceição, Rodrigo e Eduardo Lengui ganhou a companhia de uma dupla de palhaços queer que ocupava o palco com danças e caras e bocas. Conceição de repente surgiu agachado no meio da plateia, invocando no microfone sem fio “os inquilinos da noite” para o espetáculo. No palco, Derick (também guitarrista da D’Artagnan Não Mora Mais Aqui) tocava o trompete de maneira estridente. Lengui segurava o tempo no baixo e Rodrigo manipulava noises na guitarra e loops nos pedais. Depois de cerca de 11 minutos de improvisação instrumental, o grupo entrou em uma longa jam que misturava seu lado mais rock e no wave, evocando a letra de “Nerds/Punks”. “Afinal, para quem você paga pau?”, perguntava Conceição ao microfone enquanto acelerava o ritmo. A dissonância permanecia em primeiro plano e, no rostos dos espectadores, as expressões se alternavam entre caras de admiração, confusão ou êxtase. Os palhaços continuavam dançando em meio ao caos, que também ganhava momentos groovados com algumas batidas dançantes por parte dos músicos. Quem nunca tinha visto o Nigéria ao vivo provavelmente não entendeu muita coisa. Mas o público cativo do projeto, que sempre está presente, embarcou na vibe: rodas de dança e pogo se abriam sem aviso na Casa Natura. No meio do furdunço, sobrou provocações ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas: “o carioca não vai privatizar”, repetia um dos palhaços no microfone. A frase poderia soar deslocada para quem estava ali só aguardando a apresentação do Vera Fischer Era Clubber a seguir, mas combinava perfeitamente com a lógica contestadora do grupo: jogar ideias, corpos, ruídos e manifestações políticas no mesmo caldeirão e deixar que cada um lide com aquilo. No Nigéria Futebol Clube, o improviso não é só um intervalo ou extensão entre as músicas: é a própria linguagem do show. E, naquela noite, a banda não parecia muito interessada em oferecer legenda ou intérprete para quem não falava seu idioma. Azar de quem não conseguiu se deixar embalar por essa balbúrdia pitoresca.


Vera Fischer Era Clubber na Casa Natura Musical (10/09)
Depois do Nigéria Futebol Clube, as Veras subiram ao palco da Casa Natura Musical para a última apresentação dedicada inteiramente ao repertório de estreia de “Veras I”, lançado em 2025. Começando pela falsa bossa nova de “Altinha”, Crystal conduziu o show entre conversas com a plateia, provocações de sexualidade escrachada, momentos de vulnerabilidade e boas doses de autoironia. Ao redor dela, Malu (baixo), Pek0 (beats) e Vick Luz (teclas) construíram uma base segura, potencializada pela estrutura da casa. O repertório avançou gradualmente de momentos mais introspectivos para outros em que a plateia passou a participar cada vez mais. Nas faixas mais dançantes, como “A Gata Agora”, “Lololove U” e “Vera Fischer Era Clubber”, as letras voltavam do público em coro, com uma intensidade que dizia tanto sobre as próprias canções quanto sobre a relação já construída entre o grupo e quem estava ali. Antes de “Eu Sem Depressão”, Crystal construiu uma série de loops com a própria voz, alternando risadas e vocalizações que se repetiam ao longo da canção. O recurso acentuava o caráter borderline da faixa e também evidenciava uma característica importante do show: a vocalista não se limita a apenas cantar as músicas, mas também transforma o próprio corpo e interpretação em parte da instrumentação. É nesse ponto que as Veras parecem encontrar sua maior força ao vivo. Beats, letras debochadas e presença de palco se misturam e são abraçados pelos fãs. Crystal provoca e o público responde na mesma moeda. A sexualidade explícita e o humor fazem parte dessa troca e identificação. Tendo participado da audição antecipada de “Veras II” na noite anterior, no Porta, ficou inevitável imaginar como aquela mesma plateia receberia as novas canções. O segundo disco apresenta instrumentais mais elaborados, letras que avançam para o autoconhecimento e batidas mais pesadas. Mas a última noite dedicada a “Veras I” terminou deixando essa curiosidade no ar. O encontro com “Veras II” ficou somente para o show de lançamento do disco, marcado para 15 de outubro, no Sesc Avenida Paulista.

Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br. 

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