texto de Alexandre Lopes
fotos de Fernando Yokota
O Toe não precisa de muitas palavras para estabelecer uma conversa com o público. Na noite de quinta-feira (17/9), no Cine Joia, em São Paulo, o quarteto japonês passou pouco mais de uma hora alternando delicadeza, silêncio, melodias cuidadosamente construídas e explosões de ruído. O resultado foi um daqueles shows em que a plateia parece conhecer cada mudança de andamento e linha de guitarra melhor do que provavelmente conhece o nome dos próprios vizinhos.
Formado por Hirokazu Yamazaki (guitarra, violão e vocais), Mino Takaaki (guitarra), Satoshi Yamane (baixo) e Takashi Kashikura (bateria), o Toe nasceu em 2000 no território do math rock, cresceu cercado pelas possibilidades do pós-rock e aparentemente decidiu que rótulos são uma coisa que se aplicam a outras bandas, não a eles. São guitarras entrelaçadas e explosões controladas por viradas bruscas de bateria. Uma banda quase totalmente instrumental, mas isso não significa que seja silenciosa. Pelo contrário; há algo quase gritante na maneira como Kashikura conduz a bateria, enquanto Mino faz a guitarra respirar, Yamane sustenta as músicas pelo baixo e como Yamazaki alterna guitarra, violão e raros momentos de voz.

Nessa noite, o repertório do grupo se dividiu principalmente entre os álbuns “For Long Tomorrow”, de 2009, e o mais recente “Now I See the Light”, lançado em 2024. O tecladista convidado Keisaku Nakamura completou a formação, sem permanecer necessariamente em atividade durante todo o espetáculo. Em certos momentos, ele escolhia sentar no canto do palco, bebericando o que parecia ser uma latinha de Coca-Cola. O músico estava ali quando a música precisava dele e desaparecia quando não era necessário.
Mino Takaaki ocupava sua porção do palco com sua Jazzmaster, que parecia estar sempre em movimento. Entre dedilhados, distorções e ataques mais secos, transformava aquilo que poderia ser apenas uma execução precisa em uma performance física. Yamane permanecia mais centrado, sustentando o andamento com o baixo e aparecendo ocasionalmente com intervenções mais expansivas. E, ironicamente, trajava uma blusa que parecia ser da banda norueguesa de black metal Mayhem – uma associação curiosa para um grupo tão obcecado por precisão.

A formação de duas guitarras também mudava de acordo com a música. Em alguns momentos, o violão de Yamazaki alterava a textura do grupo. Em outros, ele empunha uma Telecaster para fazê-la chorar, enquanto as duas guitarras se encontravam para criar camadas e dedilhados intrincados.
A abertura com “LONELINESS WILL SHINE”, seguida por “Long Tomorrow” e “Kaze to Kioku”, já estabeleceu a dinâmica do show. A plateia, abarrotada no Cine Joia, acompanhava os músicos em atenção quase silenciosa. Nas pausas de “Kodoku no Hatsumei”, os fãs cantarolavam a linha de guitarra que puxava a canção de volta.
Em “Chiaroscuro”, veio o show particular de Kashikura. O baterista é o centro físico da faixa, com o corpo ditando cada virada. Há momentos em que ele parece tentar escapar da sequência repetitiva de notas tocadas pelas guitarras. Em outros, conduz pequenos detalhes rítmicos até desembocar em explosões percussivas que o fazem se levantar do kit de tanta empolgação. Ao final, vieram aplausos fortes e gritos de “Toe! Toe! Toe!”.

“Because I Hear You” teve resposta semelhante. Entre uma faixa e outra, o público parecia acompanhar atenta a engenharia das músicas: uma mudança de compasso, uma entrada da bateria, uma guitarra que surge em outro ponto da construção e, de repente, os fãs respondiam com exaltações à banda.
Para introduzir as canções, às vezes o Toe entrava em pequenos improvisos: um dedilhado de guitarra, uma frase repetida no violão ou um loop disparado por um pedal. Em determinado momento, um desses loops incorporou um som parecido com uma sirene da Guarda Civil Metropolitana. Por alguns segundos, parecia que o Cine Joia tinha sido transportado para uma esquina qualquer do centro quase abandonado de São Paulo.
Enquanto os instrumentistas parecem se comunicar o tempo inteiro por meio dos próprios arranjos, Yamazaki mantém uma postura mais reservada. O guitarrista e vocalista demorou mais de uma hora para se dirigir ao público pelo microfone. Em certos momentos, falou fora dele, tornando impossível entender o que pretendia dizer. É uma presença tímida, quase deslocada do centro do próprio espetáculo. Os poucos momentos de vocais são tratados quase como mais um instrumento, e não como o centro das composições.

Mais arrastadas e melancólicas, “NOW I SEE THE LIGHT” e “F_A_R” levaram o show ao trecho final antes do bis. Houve também espaço para uma declaração mais explícita de afeto pelo Brasil. Uma bandeira que misturava os símbolos dos dois países apareceu no público e foi parar nas mãos de Yamazaki. Depois, o grupo chamou uma brasileira ao palco para ler uma longa mensagem de amor ao país. O texto também falava sobre a importância de fazer aquilo que se gosta sem abrir mão dos próprios princípios – ideia que resume a própria existência do Toe.
No bis, “Two Moons” e “After Image” deslocaram o show para uma sonoridade mais acústica, com Hirokazu e Mino utilizando violões. O trecho final funcionou quase como uma segunda apresentação dentro da primeira: menos interessado na explosão e mais atento à melancolia, aos espaços entre as notas e às linhas melódicas que os violões apontavam.
O encerramento oportuno com “Goodbye” foi a conclusão natural daquela conversa. Não houve necessidade de grandes gestos extrovertidos ou de transformar o Cine Joia em uma arena com riffs e coros apoteóticos. A comunicação aconteceu nos dedilhados que a plateia cantarolava, nas mudanças de andamento, nos aplausos que surgiam depois de músicas encerradas. O Toe tocou e o público ouviu. Por quase duas horas, esses dois lados descobriram que é possível conversar sem precisar dizer muita coisa.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br
