texto de Filipe Albuquerque
“Amo o gospel. O mínimo que você pode esperar de quem faz música é verdade, e não há nada mais verdadeiro do que pessoas cantando sobre seu amor a Deus”, me disse em maio de 2014 Jason Pierce, ateu convicto (ou nem tanto), em entrevista à Rolling Stone, meses antes de trazer o Spiritualized a São Paulo, em agosto daquele ano, acompanhado de um coral gospel de cinco vozes.
“Quando a gente estava produzindo e arranjando, eu queria soar igual ao ‘Loveless‘, falando das guitarras. Tipo aquele paredão borrado, de massa sonora”, falou João Lucas Le Senechal, guitarrista da Vivus, de Uberlândia (MG), fã confesso do My Bloody Valentine, Diiv, Beach House e outros. Aos 21 anos, ele espera que as pessoas ouçam “Olhos Oníricos“, álbum de estreia da banda que lidera junto com seu irmão mais velho, o vocalista e compositor Pedro Le Senechal, de 27, atentas ao o barulho etéreo ensopado de ecos, reverb e ruído estranho. Mas que sobretudo prestem atenção às letras. Vivus, do latim, é vida.
A banda foi criada em 2017 por Pedro com uma primeira intenção: cuidar da música nas vigílias de oração após os cultos de domingo da Shalom Comunidade Cristã, na cidade mineira. Ele tinha 18 anos, e achava que faltava à igreja um pouco mais de busca pelo que, no meio evangélico, é conhecido como presença de Deus. A vigília tinha intenção de estreitar o relacionamento com o Divino. “Para nós, a sonoridade não é só estética, é intencional. As atmosferas que criamos funcionam como instrumentos de adoração, conduzindo pessoas a um espaço de adoração a Deus”, escrevem, como um statement, em postagem no Instagram.
“Olhos Oníricos” chega às plataformas digitais dia 30 de outubro. O álbum foi gravado na Casa Hype, zona leste de São Paulo. Lá, a banda espalhou amplificadores em uma grande sala de estar e registrou o álbum ao vivo, diante de uma plateia pequena, fazendo overdubs e ajustes necessários na mixagem. Em momentos específicos, há orações e reflexões sobre fé e relacionamento com Deus, envoltos na bruma do dreampop emulado pela banda. O título do álbum se refere à crença de que, assim como registrado na Bíblia, Deus segue falando por meio de sonhos. Todo o processo foi documentado em vídeo. A banda já soltou quatro singles, “Me Cobriu”, “Sentimentos”, “Levante-se, querida” e “Como um reflexo”, disponíveis nas plataformas de streaming e no YouTube. Todas as faixas contam também com versões em vídeo (que você poderá assistir ao longo do texto).
Pedro e Lucas contam com Estevão Ferreira (baixo e sintetizadores) e Jonathas de Castro (bateria). Sérgio Anderson (guitarra) e Leonardo Matheus (sintetizadores) participaram das gravações do álbum – Leonardo acompanha a banda ao vivo. O grupo costuma ser visto fazendo barulho e louvor em encontros de jovens e no palco do Overmission, evento cristão que promove maratonas mensais de 12 horas ininterruptas de adoração, com músicas sobre e para Deus – em um deles, no Ginásio da Portuguesa de Desportos, em São Paulo, tocaram para quase 5 mil pessoas. Voltado ao público jovem, o evento monta o lineup com nomes efervescentes da música evangélica atual em programações realizadas em algumas cidades do país (como Vitória, que abrigou o evento em setembro) e do mundo (em 17 de outubro, viaja a Kita, distrito de Nukata, no Japão).
“Me Cobriu” tem as guitarras e a atmosfera borradas que consagraram o gênero. Então o Vivus inaugurou o worship shoegaze? Ou injetou redemoinhos de guitarra no rock cristão? Pedro e João Lucas (nomes de três dos 12 apóstolos de Jesus) não ligam para rótulos. “Cristão sou eu, o João. O Vivus é uma banda”, define Pedro. Shoegaze feito por cristãos não é novidade. Em 1993, o Starflyer 59, da Califórnia, estreou em disco com “Silver” (Tooth and Nail Records), e houve quem classificasse a banda como a resposta norte-americana ao My Bloody Valentine.
“Como um reflexo obscuro ou como um espelho sujo eu vejo mas tua face eu desejo” canta Pedro em “Como um reflexo”, inspirado em 1ª Coríntios 13:12, enquanto notas retorcidas da guitarra tocadas com um slide arrasta com ela o restante da banda, em um slowcore feito para algum western, algo que David Edwards, do Wovenhand – ele também um músico cristão – assinaria.
“Sentimentos” é, segundo Pedro, “lado C”, por sua letra devocional envolvida por “mil synths, space rock”. “É bem Beach House”, compara João Lucas. Ele é adepto da glide guitar, técnica consagrada por Kevin Shields, do My Bloody Valentine, que consiste em pressionar a alavanca do tremolo em direção às cordas em meio a um acorde para criar uma sensação de distorção da nota. Ao vivo, enquanto usa o reverb numa frequência não convencional no meio evangélico, João usa também um arco de violino sobre as cordas da guitarra, não nos moldes de Jimmy Page, mas como ensinou Jónsi, do Sigur Rós. Em algumas músicas, Pedro usa um telefone, daqueles antigos, de disco, conectado a pedais de efeitos, pra acrescentar texturas diferentes ao vocal.
Do nu metal ao noise
Os dois nasceram em uma família evangélica musical. O avô tocava acordeom; o pai, violão e gostava de cantar. A mãe também cantava. Pedro não foi dos adolescentes mais disciplinados, e a adolescência é quando se tem salvo-conduto para certa dose de irresponsabilidade. Embora atleta – foi judoca competidor até os 19 anos, o que em tese exige disciplina – era fio desencapado. Junto dos amigos, gostava de arrumar encrenca em festas por Uberlândia. Foi o que ele entende como conversão verdadeira que o fez trocar a agressividade pelo desejo de falar de Jesus.
Na igreja evangélica, se é musical mesmo sem querer. A música é intrínseca à cerimônia religiosa; é o meio e a mensagem. Quando Pedro avaliou que a Shalom devia orar mais, a vigília foi o caminho para se aproximar de Deus. Ali, a garotada da igreja iria passar um tempo em oração. Nessa busca, a intenção é se esvaziar do que se interpõe entre o crente e o divino – pensamentos e ações que se acreditam obstáculos à sublimação de mente e espírito. Pra essas reuniões, faltava música. A Vivus nasceu dessa necessidade, mas sem o conceito que tem hoje.
Pedro gostava mesmo era de nu metal. As letras das músicas do louvor lhe falavam sobre o que ele acredita, mas a estética não convencia. Foi então que o Manchester Orchestra, de Atlanta, na Georgia (EUA), apresentado por um amigo, deu um nó na cabeça e nos ouvidos dele e depois do irmão mais novo. O rock de fronteiras bem definidas, em que cada instrumento soa no devido lugar, cedeu espaço ao indie de texturas, borrões e arranjos que escorrem pela margem.
“Procurei gente pra caramba, ninguém podia”, relembra, sobre a busca por um vocalista. Até que um movimento espiritual pegou o garoto pelos colarinhos. Uma infecção generalizada deixou seu pai internado por um longo período. Quando um pastor da Assembleia de Deus, levado por um amigo para orar pelo pai encontrou o filho no quarto do hospital, disse: “você está fugindo de algo que Deus está te entregando”, e afirmou que o posto de vocalista deveria ser dele. Experiência semelhante contada por Rodolfo Abrantes sobre seu processo de conversão, quando uma senhora de uma igreja pentecostal que orava por ele disse que Deus o estava livrando de um câncer.
Igreja gosta de cantar
“Ao mesmo tempo”, retoma João Lucas, sobre querer soar como o MBV, “era algo que a gente discutia: até que ponto faz sentido? Pelo fato de, putz, a galera vai cantar isso, nosso público está na igreja. Então sempre foi um estica e puxa assim… como a gente vai pensar tudo isso?,” questiona.
“A galera precisa entender a letra pra cantar”, emenda Pedro, ao apontar uma característica do shoegaze da Vivus que a diferencia de colegas de estilo: a voz projetada sobre os instrumentos. “A galera da igreja gosta de cantar. Porque se a galera não souber a letra, mano, parece que não consegue entrar na presença de Deus”. Diferente de bandas cristãs que tentam ser mais sutis nas letras pra tentar conquistar o ouvinte que não está interessado em uma mensagem religiosa, a Vivus canta sobre e para Deus.
Músicos entraram e saíram da Vivus, e em determinado momento foi preciso pedir Jonathas que segurasse nas viradas, porque não era esse o som que a Vivus queria botar pra fora. Havia um desejo por soar diferente, pegar pela estranheza, de se distanciar do lugar comum, quase tão urgente quanto a vontade de cantar sobre o amor de Jesus.
Um antigo guitarrista, também cristão, achou a banda crente demais, e disse que ali não havia espaço pra ele. “A gente pode parecer descoladinho, ou qualquer coisa que a galera queira chamar, olhar e ver a gente de brinco, tatuagem, mas a gente precisa muito de santidade”, afirma. Todo o material gráfico da banda atende a uma agenda estética conectada ao som, algo que a independente 4AD ensinou bem ensinado ao longo dos anos 80 e 90.
“Jovens Ateus, muito massa”
“Os caras estão estourados”, cita João Lucas quando surge na conversa o nome da terraplana, banda de Curitiba, talvez a principal referência do gênero hoje no país, com turnês pelo exterior, e abertura no Brasil de shows do Deafheaven e Slowdive – o grupo abre a noite para o Chapterhouse em 29 de setembro, no Cine Joia, em São Paulo. Eles sabem do que acontece fora das quatro paredes do templo. Cita os também curitibanos do Marrakesh e os Jovens Ateus, de Maringá – “pós-punk, muito massa”, elogia – e reflete sobre a possibilidade de arriscar investidas do lado de fora da igreja, e sobre o que teriam a dizer.
“A gente sente que está nesse nicho do pessoal diferentão mas que vive dentro desse contexto de igreja. A galera do Overmission é muito assim, é mais nichado, um pouquinho diferente, tatuagem, mais streetwear, as coisas conversam”. Algo semelhante ao ocorrido no início dos anos 90, quando num antigo cinema na Aclimação, em São Paulo, a igreja Renascer em Cristo botou bandas de rock pra tocar nas noites de segunda-feira e viu o espaço encher semanalmente de tipos que não se vestiam ou falavam como o crente tradicional – o gospel criou uma subcultura específica, mais jovem e urbana, com gírias e maneirismos próprios, e os desdobramentos disso estão por aí. “Sinceramente, espero primeiro ver a resposta desse pessoal pra saber como que o som vai rodar, como as pessoas vão responder a isso, porque ao mesmo tempo que a gente tem essa preocupação de [fazer] chegar a mensagem, a gente não está preocupado em soar de acordo com o que dá certo”, sinaliza.
A mensagem transmitida, deixam claro, é inegociável. “E eu não sei até que ponto essa conversa lá fora faz sentido pra outras pessoas. Não sei nem aqui dentro como as pessoas vão absorver isso. Acredito que primeiro a gente está esperando uma resposta nesse sentido”, explica João Lucas. Pra botar o pé pra fora, os irmãos esperam ouvir a voz de Deus e então seguir o comando. “A gente quer estar onde a nuvem está, onde a presença de Deus vai nos levar”, metaforiza Pedro. “A gente ama as texturas, os sons, mas a gente ama mais a Deus”, diz João.
A voz de Deus
Em algum momento dos anos 80, Steve Sutherland, do mais antigo jornal sobre música existente, e hoje extinto, o Melody Maker, chamou o Cocteau Twins de “a voz de Deus”. Em “Heaven or Las Vegas”, faixa do álbum homônimo (1990), Liz Fraser se pergunta se está no Paraíso ou na cidade da perdição. Em post sobre “Still in a Dream“, livro sobre o shoegaze, Simon Reynolds registrou que a reverberação do Cocteau Twins fazia crer que eles estavam constantemente dentro de uma catedral.
Talvez o dreampop e o shoegaze estejam próximos da ideia de elevação espiritual. Mais pela estética etérea do que pelo discurso, embora muitas das bandas do gênero tenham buscado no onírico a inspiração para as composições – outras, em aditivos químicos. Vocais sussurrados são a prece que colide e se mistura ao rugido dos amplificadores, como uma representação da jornada do ser humano, entre o sacro desejo da elevação espiritual diante das tentações e da pancadaria da vida adulta. “Watch the waves so far away”, de “Waves”, sexta faixa de “Just for a day” (1991), do Slowdive, é um convite à contemplação de uma das forças mais impressionantes da natureza, ou da criação, dependendo das lentes que se usa.
Dentro ou fora
Em 1999, quando comecei com um amigo luterano uma banda chamada Duelectrum, achei que fosse possível juntar noise e letras a respeito das nossas convicções sobre fé, e então tocar em qualquer lugar. Pra um ato como esse vingar é preciso ser organizado demais (coisa que eu nunca fui), porque idiossincrasias e visões de mundo não raro conflitantes podem ser jogadas na sua cara. Há ainda uma boa dose de ousadia envolvida, sobretudo em um momento em que parte da igreja evangélica abraçou um projeto reacionário de poder (“É preciso ter coragem para amar nosso Senhor”, canta Nasi em “O Homem que eu amo”, do único disco dos Voluntários da Pátria, de 1984, em citação a um discurso do Papa João Paulo II [1920-2005]).
Se isso lhes interessar algum dia, o trabalho da Vivus para romper as fronteiras da igreja passa por estabelecer vínculos com o público adepto da estética que eles adotaram, mas pouco disposto a um discurso que de algum modo lhes soe doutrinador. Sem abrir mão de convicções espirituais, pode ser possível se mostrar relevante em uma cena jovem, que reempacota o passado para criar o presente ao seu modo.
Em “Inspirations”, documentário de Michael Apted, de 1997, David Bowie deu a jovens artistas o seguinte conselho: “se você se sente seguro na área em que está trabalhando, você não está trabalhando na área certa. Sempre vá um pouco mais para a água do que você sente que é capaz de entrar. E, quando você sentir que seus pés não estão tocando totalmente o fundo, você estará no lugar exato para fazer algo emocionante”. Bowie sabia como ninguém que fazer arte é correr riscos o tempo todo.
Shoegazers e post-punkers espalhados pelo país – Loomer, terraplana, This Lonely Crowd, Adorável Clichê, Céu de Abril, Sky Down, Jovens Ateus, gorduratrans, Swave e outros – deram os pulos necessários para de um jeito involuntário construir um ambiente feito de conexões que se costuma chamar de cena. Há espaço pra uma banda confessional em meio a eles? Ou a Vivus prefere seguir ensurdecendo irmãs e irmãos em cultos e eventos religiosos? Talvez não se trate de estar em um segmento e excluir o outro, mas de encontrar caminhos que lhes permitam atravessar ambos e sair ilesos do outro lado.
O vento sopra onde quer
Rosetta Tharpe eletrificou o gospel nos anos 40 ao empunhar uma Gibson SG branca e cantar hinos religiosos; hoje, tardiamente, é reconhecida como a mãe do rock’n’roll. Figuras que incendiaram a juventude na década seguinte acelerando o gospel e o blues foram criadas em igrejas evangélicas nos Estados Unidos. Larry Norman, o músico cristão que no fim da década de 60 inventou de fazer rock sobre Jesus para converter hippies, é visto com reverência por gente como Pete Townshend e Frank Black. A trilogia cristã de Bob Dylan está riscada nos sulcos de “Slow Train Coming” (1979), “Saved” (1980) e “Shot of Love” (1981). Bono afirmou que “I still haven’t found what I’m looking for” é sobre sua busca pelo Espírito Santo. “Senhor, me perdoe os pecados, porque eu não consigo suportar essa vida sem essas coisas”, cantavam Pierce e Peter Kemper em “Sound of Confusion”, nos tempos de Spacemen 3. Em se tratando dos dois, a gente sabe bem que coisas eram aquelas. Renato Russo inseriu o versículo 1 de 1ª Coríntios, 13, em “Monte Castelo”. O Evanescence nasceu em um acampamento de adolescentes cristãos. A banda norte-americana Pedro The Lion, que toca no Festival Balaclava em setembro, tem toda a discografia baseada nas brigas que seu líder David Bazan se metia com Deus. As conexões entre o rock e a religião cristã são infinitas. Algumas deram certo; outras, nem tanto.
Pedro: “eu gosto muito do versículo de João 3:8 – ‘O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito’ – Então, se o vento soprar, e a gente tiver essa sensibilidade, nós, como nascidos do Espírito, entendermos que o vento está para a esquerda, e não para a direita, a gente vai seguir”.
João Lucas: “a gente não vai ser hipócrita de falar que… ‘ah, você não tem vontade de tocar no Lolla?’ O olho brilha”.
– Filipe Albuquerque é jornalista e autor do livro “Um culto ao Velvet Underground num salão de forró da Baixada Fluminense“ (Editora Sapopemba, 2025)
