Sky Down reencontra a própria identidade em EP homônimo

entrevista de Alexandre Lopes

Em 2025, a Sky Down, banda de “alternative / dark / punk / noise / rock” do ABC Paulista, perdeu um integrante e ganhou uma pergunta: o que fazer a partir dali? Com a saída do baixista Nova Buttler, Caio Felipe (vocais e guitarra) e André Ricardo (bateria) voltaram à formação de dois integrantes que marcou o começo do grupo, em 2012. A diferença é que, desta vez, os dois chegavam a esse ponto carregando mais de uma década de estrada.

Foi dessa circunstância que nasceu “Sky Down“, EP homônimo lançado em 28 de julho. O disco olha diretamente para a própria banda: quatro músicas inéditas e uma versão acústica que revisitam diferentes elementos de sua trajetória sem tentar reproduzir o que já foi feito.

A mudança na formação também alterou o processo de composição. Durante os ensaios, Caio passou a alternar entre guitarra, vocal e um loop de baixo criado por ele mesmo. Foi assim que surgiu “Lambs & Mirrors”, faixa que acabou abrindo o EP e ajudando a definir os caminhos que a banda seguiria dali em diante. “Essa música é o começo do recomeço”, resume o vocalista.

A frase também ajuda a entender o momento da Sky Down. O retorno à formação original não significou uma tentativa de recuperar a banda de 2012, mas uma oportunidade para Caio e André descobrirem o que ainda existia naquela dinâmica depois de tantos anos. O ponto de partida era conhecido, mas os músicos que chegaram até ele eram outros.

“A gente acabou reimaginando a Sky Down a partir do nosso começo, quando éramos eu e o André. Essa foi a primeira mudança, e esse EP é o resultado disso, mas sem olhar tanto pra trás. Esse ‘futuro’ é o que ele representa, literalmente”, explica Caio.

Gravado no 74 Club, em Santo André, com produção de Caio Felipe e Carlos Motta, o EP “Sky Down” reúne “Lambs & Mirrors”, “The Void”, “Chaostrophobic” e “Pisces Home”, além da versão acústica da última. A ausência de um nome próprio para o EP também foi uma escolha consciente. “Todos os nossos lançamentos têm um título, mas nesse não demos nome nenhum, porque somos nós e tem um pouquinho de tudo o que somos ali”, diz Caio.

Nesse sentido, chamar o disco simplesmente de “Sky Down” não é exatamente uma falta de título: é uma afirmação. Depois de mudanças de formação, diferentes lançamentos e mais de uma década de atividade, a banda decidiu não apresentar o trabalho a partir de um conceito externo; o próprio nome basta.

Agora com Henrique Bitencourt assumindo o baixo nos shows, a Sky Down começa a levar essa nova configuração para os palcos. O EP nasce de uma circunstância que poderia ter interrompido o percurso da banda, mas acabou produzindo outra possibilidade: voltar ao começo sem precisar ser a mesma banda de antes. Por e-mail, Caio Felipe conversou com o Scream & Yell sobre a mudança de formação, o processo de composição de “Sky Down”, as influências da banda e a cena independente do ABC Paulista. Ouça o EP na integra abaixo e confira o papo.

O último lançamento de inéditas da Sky Down antes do EP havia sido o álbum “Lethargy“, em 2023. O que mudou na banda desde então e o que vocês sentem que este EP representa na trajetória do grupo?
A gente acabou reimaginando o Sky Down a partir do nosso começo, quando éramos eu e o André. Essa foi a primeira mudança e esse EP é o resultado disso, mas sem olhar tanto pra trás. Esse “futuro” é o que ele representa, literalmente.

O primeiro álbum, “…nowhere“, saiu em 2014, e agora vocês lançam um EP homônimo. Existe um simbolismo em batizar este trabalho simplesmente de “Sky Down”? É uma espécie de recomeço?
De certa forma, sim. Todos nossos lançamentos têm um título, mas nesse não demos nome nenhum, porque somos nós e tem um pouquinho de tudo o que somos ali.

O disco traz quatro faixas. Como vocês chegaram à seleção dessas músicas e qual foi a ideia por trás da sequência do EP? Outras faixas ficaram de fora?
Tem mais material que estávamos trabalhando, mas conforme essas quatro músicas foram criando mais forma, elas foram ficando e fui construindo algo na minha cabeça. Quando comecei a escrever as letras fiquei imaginando uma ordem também. Gravamos apenas elas e esse bônus track – uma versão acústica de “Pisces Home”, que foi algo espontâneo que saiu quando estávamos gravando as vozes. Mostrei para o Nenê [o produtor Carlos Motta] como a música soava quando era uma demo e, por sorte, o Deni tinha um violão no estúdio, gravamos e gostamos tanto que entrou no EP.

A sonoridade da banda sempre transitou entre o punk 77, o grunge e o noise rock. Vocês sentem que essas referências aparecem de forma diferente neste novo trabalho em comparação aos primeiros lançamentos?
Com certeza. Tem muito do jeito como a gente interpreta esses gêneros que citou, mas com outros temperos, ou talvez uma receita um pouco mais confiante também. Vejo o “…nowhere “como um grunge mais puxado ao punk, indo mais pro lado de bandas como Mudhoney, Melvins, L7, Germs, etc. Mas ele também já tinha um pézinho no post-punk como a faixa título. O “Lethargy” já vai mais para um caminho do rock alternativo com um pouco de noise, melodias viajantes, talvez denso. Esse “EP” é como um passeio por novos ares e que abre outras possibilidades.

Arte da capa de “Sky Down” (EP)

“Lambs & Mirrors” abre o EP com uma letra bastante imagética, falando sobre espelhos, identidade e reconstrução. Como nasceu essa composição e o que ela significa para vocês?
Ela é o ponto de partida de tudo que envolve a produção desse disco. Quando voltamos a ensaiar só eu e o André, nós tínhamos uma “limitação” (estavamos sem baixista), que poderia ser explorada de forma diferente e nova por nós. Quando fiz o riff, queria algo que soasse um riff grande de rock pesado, mas era uma época que estava ouvindo bastante dub também, então quando fiz o baixo acabou indo pra um lado mais repetitivo, outro groove e o André captou isso num ritmo mais dançante. Ficamos um tempo trabalhando no estúdio, comigo uma hora pegando o baixo e tocando o loop para o André começar e depois correndo pra guitarra. Essa música, dos ensaios ao take final do disco, sou eu e o André no estúdio tocando ao vivo em cima do loop de baixo. A letra é um pequeno poema de uma Alice não “através do espelho”, mas querendo ser o espelho. Essa música é o começo do recomeço, sabe?

Títulos como “The Void”, “Chaostrophobic” e “Pisces Home” sugerem um clima mais introspectivo. Existe um conceito ligando as quatro músicas ou cada uma surgiu de forma independente?
Elas foram compostas de forma independente, mas liricamente foram pensadas como um ciclo até que específico. No fim, as músicas se encaixaram perfeitamente nas cenas compostas. Diria que é um “disco conceitual”… (risos)

A saída de Nova Buttler, em 2025, mudou de que forma a dinâmica da banda? Como foi atravessar essa transição e seguir em frente com Henrique Bitencourt nos shows?
Sim, sempre muda, cada um trás um pouco de si e outras cores. Quando o Buttler entrou a gente vinha de certa forma se distanciando um pouco do som mais punk rock pra algo um pouco menos “quadrado”, 4×4, e sim mais melódico, às vezes viajante e com outras camadas. Quando ele saiu, caímos naquilo que comentei de eu, André no começo da banda, que é algo que agora a gente explorou de uma outra forma e foi muito legal. Não queria voltar para aquele caminho óbvio do som do começo e nem também reinventar a roda. Agora com o Henrique foi natural também, nós tínhamos convidado ele pra fazer alguns shows e depois da gravação desse disco fomos ver se ele tava afim de continuar o trabalho conosco. Ele é um músico incrível, que capta ideias, sons e traz novas texturas pra banda.

Vocês começaram como um power trio em 2012 e acompanham há mais de uma década as mudanças na cena independente do ABC Paulista. Como enxergam esse circuito hoje em comparação aos primeiros anos da banda?
O ABC continua uma fábrica de bandas e uma das cenas mais legais e plurais, seja na música ou na arte visual em geral. Essa “fábrica” é feita por pessoas reais, gente que também está há um bom tempo no garimpo aqui. Tem outras bandas que também vêm de uma década ou mais, como o Giallos, Projetonave, Conde Favela Sexteto, Statues On Fire, que continuam produzindo com um frescor surpreendente. E muita gente nova experimentando sem medo. Artistas e pessoas que realmente vivem o underground, não só no Instagram. Muito disso também é possível graças a lugares como o 74club, que ajudam a fomentar essa cena, músicos e artistas de todo tipo há anos. É importante ter lugares assim. Tem vários lugares que tenho muito carinho, mas o ABC Paulista é foda e fico muito feliz quando as pessoas se ligam nisso. Dificuldades sempre existiram, mas enquanto isso seguimos na luta. Valeu!

 Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br. A foto que abre o texto é de Fabio Zerbini

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