Com disco novo na mão, Ludovic mostra que está mais vivo que nunca em show em SP

texto, fotos e vídeos de Bruno Capelas

Formada exatamente no ano 2000, a banda paulistana Ludovic já viveu muitas vidas ao longo deste século. No início da carreira, quando gravou discos como “Servil” (2004) e “Idioma Morto” (2006), o grupo chamava pouca atenção – e o cansaço de dar murro em ponta de faca fez a banda abruptamente encerrar atividades em 2009, após um malfadado show em Curitiba. Nos anos seguintes, porém, o grupo viraria fenômeno de culto, graças à reverência de bandas como gorduratrans e Lupe de Lupe. O renovado interesse fez o grupo de Jair Naves (voz e baixo), Zeek Underwood (guitarra e vocais) e Eduardo Praça (guitarra) voltar para shows de reunião esporádicos desde 2015, quase sempre marcados por uma catarse coletiva.

Um disco novo, porém, parecia longe dos planos do grupo – por vezes, Jair disse que não seria capaz de voltar a escrever algo que fizesse sentido na estrutura da banda, cujas composições não só cheiravam, mas transpiravam espírito adolescente. Faz sentido: após o final do Ludovic, cada um de seus integrantes seguiu caminhos diversos. O vocalista enveredou numa bem-sucedida carreira solo, em que mistura verve de cantautor com momentos experimentais. Zeek, por sua vez, formou o Single Parents e o Mudhill; já o “caçula” Eduardo liderou o pós-punk Quarto Negro e hoje grava sob o codinome Apeles.

Mas, negando a canção, sempre há caminhos para voltar. Duas décadas após “Idioma Morto” (reeditado em 2024 em vinil, e atualmente esgotado), o Ludovic retomou seus registros fonográficos com um álbum auto-intitulado – e o apresentou pela primeira vez ao vivo na noite da sexta-feira, 14 de agosto, durante a programação de shows da primeira edição da São Paulo Independent Music (SPIM). O local não poderia ser mais apropriado: a Casa Rockambole – não só um dos espaços mais aconchegantes da capital paulista para shows, mas também palco de uma das melhores exibições do Ludovic nos últimos anos, no aquecimento para o Balaclava Fest 2023.

Jovens Ateus

A abertura da noite ficou por conta dos Jovens Ateus, que tocaram para uma Casa Rockambole já bastante cheia. Executando as canções de seu álbum de estreia, “Vol. 1” (2025), os paranaenses abusaram da iluminação indireta e do gelo seco para criar uma atmosfera densa, digna das canções pós-punk de seu repertório. De certa forma alienante, a proposta agradou o público, a ponto dos Jovens Ateus se sentirem à vontade para testar duas canções inéditas – ambas ainda sem título e bastante dentro da cartilha oitentista do grupo.

Após um breve intervalo, o trio do Ludovic subiu ao palco por volta das 22h30, acompanhado do já efetivado Rodrigo Montorso (bateria). De partida, foram quatro canções do novo trabalho, que soaram como uma profissão de fé do momento da banda. Sempre cardíaco em suas interpretações, Jair parecia viver na pele os versos de abertura de “Desde Que Eu Morri”, que abriu o show: “eu me impus essa missão / por mais um dia existir / e me mantive vivo por um triz”.

À beira do palco, um público mais jovem do que o próprio Ludovic agradecia, cantando novos temas – como a emocionante “Pedestal” e a colérica “Dilúvio de Dinheiro Algum” – como se fossem velhas conhecidas. Já em “Marja”, foi possível conferir o que os anos fizeram pelo grupo: climática, a faixa guarda resquícios tanto dos experimentos de Eduardo no Quarto Negro quanto das incursões líricas de Jair em seus mais recentes álbuns.

Ludovic

A resposta da plateia não passou despercebida ao vocalista: durante o show, ele várias vezes agradeceu aos presentes e até confessou que estrear um novo repertório havia lhe feito ficar com frio na barriga como há muito não acontecia. Talvez desde a estreia de canções como “Boas Sementes, Bons Frutos”, “Eu Fiz Pouco Caso de Um Gênio” ou “Janeiro Continua Sendo O Pior do Meses”, três criações antigas que apareceram na sequência.

Todas elas transformaram o meio da pista da Rockambole num redemoinho, subindo a temperatura de uma amena noite paulistana – a ponto do guitarrista Zeek Underwood, sempre executando belos backing vocals, decidir tirar a camisa lá pelo meio do show, em gesto que foi acompanhado por Montorso. A cena era curiosa, graças ao contraste com o figurino all black de Eduardo e Jair, mas não deixou de servir como representação visual do espírito do grupo – que ora propicia rodas de pogo inesquecíveis, ora homenageia um autor obscuro como o surrealista Qorpo Santo.

Outras duas novas, “Irmã Pólvora” e “Reina”, se seguiram. Se a segunda soa também como decorrência do Quarto Negro, a primeira serve como elo entre o Ludovic dos 20-e-poucos e dos 40-e-alguns anos de idade, especialmente pela ênfase dada a versos como “cê diz que eu não me ajudo”. Ao todo, sete canções do disco novo foram apresentadas na noite – menção válida ainda à poderosa “Nenhum Carma”, outra em que o coro de apoio de Zeek fez a diferença na execução.

Ludovic

Para o terço de encerramento do show, o Ludovic reservou não só uma chuva de petardos dos álbuns antigos, mas também uma porção de discursos comoventes. “Atrofiando / Recém-Convertido / Ex-Futuro Diplomata” foi dedicada por Jair “aos eleitores de Bolsonaro”, enquanto “CVV” teve um chamado à saúde mental. Já a primeira composição do vocalista, “Vane Vane Vane”, serviu de mote para exaltar a força criativa. “Nunca acreditem que vocês não podem fazer arte. Essa foi a primeira música que eu fiz na vida e eu não imaginava tocá-la num palco. Se eu posso, vocês podem”, disse Jair, repetindo um recado que muita gente entendeu ao longo das últimas décadas.

O melhor, porém, ficou para o final: antes de tocar “Você Sempre Terá Alguém a Seus Pés”, o vocalista resolveu contar a história do Ludovic a seu próprio modo. “Uma vez, fui ver um show e vi um garoto tocando. Eu decidi fuder com a vida dele e chamei ele para a minha banda”, brincou Jair, em referência a Eduardo.

Já livre do baixo, repassado a Fernando Sanches, ele continuou: “Esse show não é nosso, esse show é de vocês”, repassando a senha para uma execução emocionada da faixa que abre o primeiro trabalho do grupo. E enquanto todos os presentes gritavam “grande bosta”, o vocalista repetiu um gesto já clássico: pulou do palco e se atirou para a galera sem largar o microfone, transformando em ato o espírito de comunhão entre público e artistas. Se isso é se manter vivo por um triz, que tenha vida longa o Ludovic.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.

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