textos de Jorge Wagner

“Descontente”, de Beatriz Serrano (Editora Record)
Marisa, uma diretora de contas de 32 anos que enfrenta ansiedade, solidão, tédio e dependência de ansiolíticos para suportar a rotina em uma agência de publicidade de Madri é a personagem central de “Descontente”, livro da espanhola Beatriz Serrano (Editora Record, 2023) que ganhou edição brasileira em 2026 com tradução de Alexia Gonçalves. Com humor ácido, a autora desmonta a linguagem corporativa e a teatralidade do ambiente de trabalho: reuniões inúteis, entusiasmo performático, discursos sobre propósito, celebrações vazias e a ideia de que colegas formam uma “família” aparecem como parte de uma encenação coletiva. As observações de Marisa divertem num primeiro momento, com tiradas mordazes sobre a vida no escritório, mas logo revelam um desconforto maior. A sensação é a de ler o relato sincero de alguém consumido pelo trabalho, e não apenas uma obra de ficção. Serrano mostra como a lógica da produtividade transforma pessoas em peças substituíveis, enquanto exige dedicação emocional irrestrita em troca de muito pouco. Mais que sátira ao universo das agências de publicidade, “Descontente” amplia o foco para o mercado de trabalho contemporâneo como um todo. Sorrisos forçados, frases motivacionais, palestras ao som de Coldplay, fofocas de corredor, reuniões sem propósito e o recurso crescente a medicamentos para suportar a rotina deixam de ser particularidades de um setor e passam a representar um modelo de relações profissionais marcado pela alienação. Mais espelho do que lente de aumento, o romance expõe os mecanismos que fazem do imperativo de “vestir a camisa” um caminho cada vez mais próximo da camisa de força.

“Foto no Privado”, de Simon Chevrier (Editora Ercolano)
Em fragmentos secos e quase inventariais, “Foto no Privado”, de Simon Chevrier, lançamento da Editora Ercolano (2026) com tradução de Alexandre Rabelo, narra o cotidiano de um jovem gay em Toulouse, na França: a rotina na academia, os encontros pagos ou não via aplicativo e as buscas discretas às margens do Garonne, enquanto a faculdade e o futuro vão ficando cada vez mais distantes. O narrador é uma espécie de Holden Caulfield já adulto, assumidamente gay e profissionalmente um michê — a mesma verborragia contida, a mesma desconfiança de tudo que cheira a instituição, só que aqui trocada por scroll e pela tentativa de manter um corpo trabalhado, como se o próprio corpo fosse currículo. Sua apatia cede diante da obsessão por descobrir a identidade verdadeira do modelo de uma foto tirada em 1981; a investigação passa por galerias, livros, registros e pessoas, servindo de eixo para um romance que avança por pequenas descobertas, não por reviravoltas. Curto, de cerca de 130 páginas, o livro nunca transforma seus temas mais pesados em solenidade: a epidemia de AIDS nos anos 1980 e a pandemia de Covid-19 atravessam a narrativa sem quebrar seu ritmo fragmentário. O luto também aparece, na doença terminal e degradação física de um pai, tratado com delicadeza não piegas. Solidão, trabalho precário, relações orientadas pelo dinheiro, hiperconexão e dificuldade de encontrar sentido — nada aqui é metafórico; tudo é exatamente o que parece.

“The Rolling Stones: Sessenta anos (Edição revista e atualizada)”, de Christopher Sandford (Record)
É possível, talvez até muito provável, que Mick Jagger estivesse falando sério quando, aos vinte e poucos anos, disse que preferiria estar morto a ter de cantar “Satisfaction” aos quarenta e cinco. Mas os quarenta e cinco chegaram, quase quarenta anos se passaram e Jagger ainda está por aí, cantando “Satisfaction”, lançando discos e mantendo as pedras rolando montanha abaixo. Para a alegria de seus biógrafos, como o jornalista Christopher Sanford. O ano era 2012 quando Sanford lançou a biografia que se propunha definitiva sobre a banda. Afinal, o que mais a história poderia reservar para o pequeno bando? Eis que vieram: turnê dos 50 anos, ainda em 2012; o suicídio de L’Wren Scott, companheira de Jagger, em 2014; a morte do saxofonista Bobby Keys, o “sexto membro” dos Stones, em 2014; lançamento de “Blue & Lonesome” (2016), disco de covers de blues espinafrado por Greil Marcus: “Exceto por Jagger, todos soam entediados”; morte de Anita Pallenberg, em 2017; turnê entre 2018 e 2019; morte de Charlie Watts, em 2021. Em “The Rolling Stones, 60 Anos: edição revista e atualizada” (Editora Record, 2026, tradução de Catharina Pinheiro), Sanford permanece fiel ao texto original e acrescenta apenas um pequeno capítulo, “O Pós”, com dezesseis páginas dedicadas a esses acontecimentos. O resultado destoa da pesquisa minuciosa do restante da obra e funciona mais como um apêndice. O livro termina em 2021, com o autor dizendo ser “tentador apostar que eles vão durar mais alguns anos”. De lá para cá vieram mais dois discos de inéditas — “Hackney Diamonds”, em 2023, e “Foreign Tongues”, lançado em 2026. Não parece impossível que uma edição dos 70 anos venha a se tornar necessária por volta de 2032. Resta saber se o biógrafo, como seu objeto de estudo, ainda estará vivo e produtivo. De Jagger e Richards, acompanhados ou não por Ron Wood, não podemos duvidar.

– Jorge Wagner é jornalista, produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell. Lançou em 2023 o álbum “Toda Forma de Adeus“.
