texto de Jorge Wagner
Precisaria perguntar pra confirmar, mas acredito que tenha sido o meu orientador no TCC da graduação quem me emprestou, em algum momento ali pelo fim de 2005, meio de 2006, o disco “The ‘Priest’ They Called Him” (1993), uma colaboração entre o poeta beat William Burroughs e o líder do Nirvana, Kurt Cobain, o primeiro declamando seus poemas enquanto o outro o acompanhava em uma guitarra ruidosa, triste e barulhenta.
Apesar da minha simpatia por coisas mais alternativas e pelos beats — a quem eu quero enganar? A essa altura eu provavelmente havia lido tudo que pude encontrar do Kerouac, mas também só do Kerouac, talvez no máximo alguma coisa do Ginsberg —, com meu inglês medíocre e meu pouco apreço pelo Nirvana, achei tudo uma merda.
Vinte anos depois, eu provavelmente nunca mais tinha pensado em Burroughs; pelo menos com certeza não tinha pensado naquele disco. Pode ser que tenha lido algo a respeito numa das biografias do Bowie que passaram por mim. Pelo menos sei da ligação do poeta como inspiração para a persona de Ziggy, mas não muito mais que isso. Sempre tem gente demais pra ler, gente demais pra ouvir, e, nas escolhas ao longo da vida, o beat foi atropelado.
Em todo caso, tem certa ironia o fato de eu ter voltado a ler com afinco para me atualizar quanto à produção contemporânea de literatura pop, ter direcionado parte desse esforço para ler mais mulheres, latino-americanos e asiáticos e, no mesmo embalo, estar agora lendo mais um estadunidense e seu romance experimental lançado quando tudo ainda era mato.
Em minha defesa, embora tenha sido lançado originalmente em 1971 e tenha um papel influente na cultura pop — o já citado David Bowie, os punks, pós-punks, pós-pós-punks, o disco ruim com o Cobain etc. —, “Garotos Selvagens” (“The Wild Boys: A Book of the Dead” no original) nunca tinha saído por aqui, algo que a DarkSide Books acabou de resolver com o lançamento desta versão em capa dura, com tradução de Alexandre Barbosa de Souza e ilustrações de João Pinheiro.

Retomando o termo “romance experimental”, é preciso destacar bem a segunda palavra, o principal mérito da obra. O que Burroughs faz aqui é construir um futuro distópico onde gangues de jovens homossexuais atravessam cidades, desertos e zonas de guerra, em meio a sexo, drogas, violência, mutações e governos empenhados em controlar o que puder ser controlado. A história avança aos solavancos, com pontos de vista que mudam de uma hora pra outra e uma câmera imaginária que se desloca de lá pra cá, aproxima, se afasta, sobrevoa paisagens e muda o enquadramento, conduzindo o olhar do leitor por uma sucessão de cenas. Sai a narrativa linear e entra a colagem alucinada, recorrendo ao cut-up, técnica que consiste em cortar e recombinar fragmentos para produzir novas associações e sentidos. O procedimento embaralha personagens, lugares, tempos e acontecimentos e faz o texto funcionar à base de choques, repetições, montagem e associação, e não apenas de continuidade.
Lembro daquela crítica do Truman Capote, o romancista autor de “A Sangue Frio” (1966), sobre seus contemporâneos beats, acusando-os de não fazer mais que datilografia. Considerando Burroughs, a crítica se mostra, no mínimo, injusta. Porque sim, é claro que é datilografia, mas não dá pra ignorar todo o trabalho de cortar, picotar, sortear a esmo, colar… Datilografar é só uma parte da coisa.
Vale destacar também o trabalho do ilustrador. Nesta edição — que chegou aqui junto à versão ilustrada de “A Odisseia“, também da Darkside Books. que ainda não li, mas lerei em breve —, João oferece pequenas pausas entre os textos, com artes que acompanham a lógica fragmentada do livro. Trabalhando com profundidade de campo, ele consegue mostrar ações acontecendo em mais de um lugar ao mesmo tempo, dando algum contexto ao caos de Burroughs sem propriamente tentar organizá-lo. E a escolha de João não foi aleatória: em 2015, pela Veneta, ele já havia publicado a HQ Burroughs, uma incursão anterior pelo universo e pelo imaginário do escritor.
Não estou disposto a tentar ouvir “The ‘Priest’ They Called Him outra vez. Não tem resgate de memória que pareça valer a pena (mas se você quiser tentar, só dar play abaixo). Mas teria sido legal ter algo parecido com essa edição de “Garotos Selvagens” há vinte e poucos anos. Teria lido mais que só aquele monte de Kerouac.
Leia também: O diário de William S. Burroughs
– Jorge Wagner é jornalista, produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell. Lançou em 2023 o álbum “Toda Forma de Adeus“.
