Entrevista: Thamires Vieira fala sobre “Mulheres do Bando”, documentário sobre as atrizes do Bando de Teatro Olodum

entrevista de João Paulo Barreto

Com “Mulheres do Bando” (2026), a diretora Thamires Vieira apresenta na 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro seu primeiro longa-metragem, após uma longa carreira como diretora de curtas, bem como produtora. Gravado em 2021, ainda sob todos os protocolos de segurança exigidos pela pandemia, o documentário traz uma reunião de grandes nomes de diferentes gerações tanto do cinema quanto do teatro baiano.

São nomes como Arlete Dias, Cássia Valle, Edvana Carvalho, Ella Nascimento, Jamille Alves, Luciana Souza, Merry Batista, Naira da Hora, Rejane Maia e Valdinéia Soriano que se reúnem em um cenário diante da Baía de Todos os Santos para uma conversa sobra suas trajetórias no Bando de Teatro Olodum, além de um resgate da história do espetáculo de teatro “Iá ou Anônimas Guerreiras Brasileiras”, de 1982, que contou com a participação de Rejane Maia, bem como de outras atrizes negras baianas.

“Mulheres do Bando” fala sobre os ofícios destas mulheres dentro da atuação, em cima do palco ou em frente às câmeras, e o olhar documental de Thamires, juntamente com a direção de fotografia de Lilis Soares e a montagem de Fábio Rodrigues Filho, cria um registro único desse perfil operário da luta para se manter dentro da arte como um trabalho. Na história dos movimentos, que surge em imagens de arquivo amplamente pesquisado e aprofundado, Thamires apresenta um mergulho nessas trajetórias.

Nesse papo com o Scream & Yell, a diretora Thamires Vieira falou mais sobre o processo de criação de “Mulheres do Bando”. Confira!

A partir de um tema tão forte e importante, e sendo seu primeiro longa metragem, como se deu a ideia de construção de “Mulheres do Bando”?
O filme é um gesto de começo, (pois) é o meu primeiro longa. Acho que tem uma coisa muito forte de eu ter aprendido com o movimento negro, principalmente com o movimento de mulheres, que é essa ideia de olhar a sua individualidade a partir de um coletivo, quando começo a perceber a presença e o processo criativo dessas mulheres. Porque começo a me interessar e pensar no filme quando eu era assistente de direção do “Café com Canela” (2017). Foi quando encontrei Valdinéia (Soriano) e Arlete (Dias) e a minha função como assistente de direção era justamente estar com elenco. E fiquei muito mobilizada e interessada com essa possibilidade de pensar o processo criativo. Era algo muito ausente. Havia uma falta em perceber que isso, filmicamente falando. Não era uma verdade, uma coisa que eu pudesse encontrar como referência com facilidade na cinematografia brasileira. E acho que muito amparada com as coisas que eu estava estudando naquele momento, muito inebriada com Eduardo Coutinho, mas também com os processos criativos de mulheres, o filme começa a aparecer, mas muito nessa de: “Meu Deus, como preciso entender esse gesto de começo?” Isso porque entendi que aquele ia ser o meu primeiro filme. Então, acho que o processo se dá muito a partir desse encontro com essas mulheres, e na tentativa de, inclusive, ir para um ponto de se pensar esse lugar do artista: “O que é ser artista?” Essas perguntas de processos artísticos. De onde é que vem as nossas inspirações? Como a gente se mobiliza para fazer as coisas? Que tipo de inquietação é o que nos é o que nos causa movimento? Quais movimentos queremos fazer com o nosso corpo, com o nosso trabalho, com a nossa arte. Então, são esses essas muitas perguntas, assim, que me fazem entender um pouco e desejar um pouco do processo do filme.

Lembro de ter entrevistado a Luciana Souza e termos conversado sobre a ideia dela ser uma atriz/operária. Há no filme uma construção narrativa que celebra aquelas profissionais das artes, mas que também analisa as suas dificuldades em se manter no ofício. Como foi essa construção?
Acredito que mais do que uma nota sobre a falta, acho que é uma celebração sobre o trabalho. Tenho 33 anos e o Bando tem mais de 35 anos. É muito mais um celebrar o trabalho. Insisto muito em acreditar que os atores e as atrizes são a linha de frente do trabalho artístico, principalmente esse do cinema brasileiro. Os atores negros estão nesse lugar de terem começado primeiro. A gente tem muito mais atores negros mais antigos do que cineastas negros antigos. Vejo o lugar do ator como uma grande linha de frente, se a gente pudesse colocar nesse lugar de hierarquia das coisas da produção artística da população negra no Brasil, falando inclusive de cinema e de teatro. Então, acredito que o filme foi muito mais para o lugar da celebração. Ainda que eu seja de uma geração que também questiona muito, as minhas intervenções iam muito mais no lugar de um certo feminismo e de uma escola feminista mais radical, talvez com perguntas mais conscientes. Mas sinto que a prática delas era quase a resposta das minhas perguntas. E daí vem todo o nosso trabalho crítico, toda percepção de entender que, estruturamente falando, mesmo um trabalho de 35 anos, acho que quando Naira (da Hora) traz ali no filme, como uma representante do Bando, mas de uma outra geração, é justamente disso: um movimento que se movimenta, mas que também faz uma autocrítica. As coisas são celebrativas, são importantes, mas elas precisam ser constantemente revisitadas. Já que estruturalmente, a gente está falando de muitos problemas.

Cena de “Mulheres do Bando”

Como foi o seu diálogo com o Fábio Rodrigues Filho em relação à montagem do filme, uma que ela chama atenção por fugir de uma estrutura comum de documentários depoimentos apenas, inserindo, aqui, performances e música com as falas se contrapondo muito bem às imagens de arquivo.
Fábio é o meu parceiro de longa data. Estudamos juntos na UFRB. A gente construiu algumas coisas e, inclusive, ele vai defender a tese de doutorado dele. Acabou de chegar aqui “Um Poeta dos Gestos” sobre o Mario Gusmão. Acho que, juntos, o filme nasce no lugar de se pensar os atores. Acho que ele lá no doutorado e eu com o filme. Em algum momento, eu entendi que o filme precisava ser montado por ele. É o primeiro filme que ele monta. O primeira longa dele. Entreguei muito nesse lugar de aposta de que precisamos construir e esse lugar de coincidência com os arquivos. Então, a gente montou um planejamento de filmagem por estar rodando na pandemia. Como é um documentário, a gente viveu vários riscos. Então, muitas coisas não aconteceram. A Covid estava muito forte naquele momento. Então, era um momento extremamente delicado. Por isso, muita coisa de produção não aconteceu. A ilha de edição virou o nosso grande laboratório. E a gente participou, também, de um momento com a Cristina Amaral aqui no Panorama de Cinema (O PanLab de montagem). E essa construção com Fábio se dava muito nesse lugar tanto das intervenções que a gente já construía fora do filme. Assim, acho que o nosso pensamento sempre foi muito questionador em relação a como se constrói as coisas de um lugar que não necessariamente é o lugar da resposta, mas, sim, o lugar da pergunta. E como perguntando a gente vai gerando outras coisas. A gente foi trabalhando assim por um longo período, períodos angustiantes mesmo, porque temos um tempo de fazer as coisas com muita reflexão, muitas novas ideias. E se deixasse a gente continuaria montando, montando, montando… (risos) até ter outros muitos filmes. Acho que a montagem foi inclusive um lugar de entender que esse era um possível caminho. É quando a gente começa a encontrar. Tanto que a primeira coincidência e não coincidência foi nisso. Eu tive acesso ao arquivo do Bando durante o processo do filme. Em algum momento, eu tinha todo esse material e eu comecei a perceber que o movimento se repetia, as conversas, as pautas, as músicas, os gestos se repetiam. E Fábio foi, também, pesquisando essas imagens dentro desses arquivos e contribuindo de um jeito, inclusive, nessa estrutura mais clássica de três atos que o filme tem. Podemos dizer que o filme tem esse lugar de estrutura. E também tem uma coisa muito que o Fábio coloca que também está no trabalho dele e que já era um desejo meu. Porque quando eu trouxe o trabalho do Zumvi, aquelas são as imagens do Zumvi Arquivo Fotográfico. E a primeira imagem que eu encontro é a que Rejane (Mais) recebe. E aquela captura das imagens, aquela dança das imagens, é uma coisa que eu sei que Fábio faria muito bem e que isso, também, contribuiria com a história. Essa história que já não era mais a história que eu escrevi. Já não era mais só a história que eu estava pensando, mas a história desse encontro com essas mulheres, e esse reencontro com esse com esse amigo que pensa cinema também. Acho que um pouco nesse lugar.

O fato de ter sido filmado durante ainda uma fase da pandemia, ter aquele o único cenário também ajudou bastante, não? O local, aquela única locação, as pessoas conversando no entorno, aquela vista. Funcionou bem nesse sentido, também.
Sim, e tem uma coisa de como pensar Salvador. Como pensar essa cidade. Acho que a sala define bem a geografia, porque sabemos que Salvador tem esse lugar. Em muitos lugares vamos ver o mar. Em quase toda a cidade. Eu nasci no subúrbio de Salvador, então, mesmo não sendo a pessoa da orla, a gente sabe que o mar é um direito quase de todos. E tem uma coisa muito forte que é conseguir reunir todas em um momento e elas falam sobre isso, né? É a primeira vez que isso acontece. E, também, é muito estranho perceber que a exclusividade de estar entre mulheres foi também por conta de um momento tão delicado. Mas o tom, apesar de ter sido de medo, de perigo, acho que o que Arlete (Dias) traz no filme é um de celebração. Mesmo. Estávamos muito empolgadas. Mesmo depois de um ano de pandemia, começar um projeto que eu já tinha começado, ru já tinha me aproximado do Bando, eu já tinha apresentado a proposta do projeto do filme. Então, a pandemia virou um lugar de possibilidade.

Há um momento bem emocional com a Rejane Maia, atriz veterana do Bando, e o seu filme serve, também, como uma homenagem à trajetória. Como foi encontrar esses momentos de uma conjunção emocional junto com as histórias dessas atrizes?
Acho que tem uma coisa de não colocá-las no mesmo lugar. Acho que a coisa mais interessante e mais desafiadora enquanto diretora era entender que éramos muitas mulheres negras, mas muitas histórias muito diferentes assim. Pessoas que conseguem inclusive transitar em lugares diferentes, em ter comportamentos, família, gestos. Apesar de serem pessoas de Salvador, pessoas do mesmo grupo, acho que a coisa da singularidade era o que mais me interessava, assim. Inclusive, por conta dessa história de que todo preto é igual, de que todo preto se parece. E fazer com que Rejane (Maia) fosse homenageada em vida. Acho que tem uma coisa do protagonismo. Desse protagonismo que essas mulheres têm. E é quase que uma recuperação de um protagonismo de alguém que é muito protagonista. Acho que a ideia dessa investigação e, até quando Rejane me interrompe ali, é porque ela não esperava. Eu não a avisei sobre a foto. Mas durante a pesquisa, quando entendi que a foto de arquivo que a gente tinha lá no Zumvi, uma daquelas mulheres era uma mulher do Bando, eu falei: “Não, a gente precisa falar muito sobre isso e organizar essa história.” Organizar, inclusive, do jeito que o tempo merece. Rejane tem 62 anos, acho, agora. Mas na época tinha 60. Ela é a atriz com mais experiência no grupo, ainda que não tenha essa hierarquia marcada sobre a idade. Mas é alguém que estava, inclusive, antes do próprio Bando nascer, E estava, inclusive, contribuindo com o movimento negro, que está nesse registro, que está nessa imagem. É alguém, também, que eu acho que o tempo, a cidade e as coisas não trata como protagonista. Então, acho que tem uma emoção que está muito nesse lugar de me ver e de contribuir com que essas mulheres também se vejam da forma como elas caminham nas suas histórias.

Cena de “Mulheres do Bando”

Como foi o processo de busca de informações acerca do espetáculo “Iá ou Anônimas Guerreiras Brasileiras”?
Primeiro procurei o autor, o Antônio Godi, que já faleceu. Ele disse que não tinha nenhum arquivo, nenhum material. As coisas, na época, se construíram de um jeito muito precário e, também, muito espontâneo. E a única atriz do Bando que pertenceu a esse espetáculo foi Regina. E a gente tinha o áudio de Saraí Reis, que é uma mulher do movimento negro, sendo, às vezes, figurinista do Bando. Isso contribuiu, também, de outra forma. Fomos tentando investigar para descobrir o que tinha de materialidade. E é justamente desse lugar de um pouco do que Regina lembrava, um pouco do que tinha na foto, um pouco que tem no áudio da Saraí de propor um espetáculo quase fabulativo. E aquela pergunta que eu faço para ela é: “E se a gente fosse montar?” Porque o desejo do filme, inclusive, é promover e provocar um espetáculo com essas mulheres. Como seria? Não temos o dado oficial de como era o espetáculo, mas ela, enquanto atrizes, estavam muito abertas a tudo que eu propunha. Tinha uma disposição muito grande. Acho que o fato, sem dúvida, de ser uma diretora mulher e negra, alguém que também estava próxima ali, então, tinha um lugar muito íntimo que criamos. A gente tinha uma equipe pequena. Tínhamos uma diretora de fotografia também, uma mulher (Lilis Soares). Era um muito confortável. Elas eram a maioria, e por isso, eu acho que as coisas aconteceram também.

Lembro de ter assistido seu curta, “O Dia que Ele Decidiu Sair” na ocasião do lançamento em 2015 e queria te perguntar sobre essa sua trajetória tanto como produtora quanto como diretora.
Eu começo dirigindo “O Dia que Ele Decidiu Sair”, e acabo construindo muito a minha história como produtora, mas nunca abandonando de vez a direção. Mas acho que enquanto mulher, enfim, nordestina de Salvador, acho que fui construindo minha história com cinema muito como isso que Luciana traz em relação a ser uma operária. Me vejo contribuindo com muitas obras. Trabalhei em muitos lugares do Brasil e é a partir dessa estrutura que começo a entender o meu lugar de contribuição nos trabalhos que me envolvo. É a partir, também, do momento em que eu me encontro um determinado espaço, quando começo a pensar e a assumir, arriscar, a direção. Dirigi um curta em 2021 chamado “Nunca Pare na Pista”, que também está no Canal Brasil, e é um filme experimental. É uma não-ficção, mas que também beira à ficção feito com a minha família. E o “Mulheres do Bando” está no meio de um processo que já vai abrir portas para coisas que já estou construindo. Rodei uma série de ficção no início do ano. Vou rodar um segundo longa ano que vem. De Brasília, já vou para o Brasil CineMundi (CineBH 2026) em um laboratório com um outro projeto de longa de ficção que vou dirigir através da minha empresa, a Terá Filmes. Então, acho que tem muito de uma construção pessoal dessa crença, desse olhar. Acho que muito por aprender com essas mulheres e de entender esse lugar de protagonismo. Acho que sempre estive nesse lugar, mas acho que tem a ver com as oportunidades, com as possibilidades, com as estruturas. Então, acho que é encarar a direção, também, como um trabalho. E um trabalho que eu, também, me disponho a fazer, me desafio a fazer e me enxergo fazendo daqui para frente. Esse e outros projetos existem por conta de muitos parceiros e muita gente que foi se somando nesse processo.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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