Guia do Pop Francófono Anos 00

por Eduardo Palandi

Ah, a França… meninas bem vestidas, castelos, croissants, perfumes, paixões… e boa música. Muito boa música, e uma cena contemporânea que vem em uma curva ascendente desde o início do século, com novas gravadoras e artistas revitalizando o pop cuja árvore genealógica remonta a Serge Gainsbourg, Édith Piaf e Jacques Brel. E, se esse último era belga, a atual geração também ultrapassa as fronteiras gaulesas, com nomes do Québec, do Mali e da Suíça, por exemplo, entrando na dança.

Infelizmente, pouco disso chega por aqui. Se nem o pop português, unido pelo idioma, ganha a devida atenção no país da mandioca, como seria diferente com a música francesa atual? Difícil. Mas o Scream & Yell é uma mãe para você e mostra agora o que de melhor vem sendo cantado no idioma de Balzac, Julie Delpy e Victor Hugo, dando os caminhos para você se iniciar nesse universo à parte.

Como a intenção é mostrar um panorama do pop francês deste século, nenhum dos clássicos apreciados desde o nascimento da chanson, na década de 1950, até 2000, consta aqui. Da mesma forma, artistas como Charlotte Gainsbourg, Phoenix e Air, que cantam majoritariamente em inglês, também não aparecem – também por isso, ficou fora um dos meus discos preferidos do pop francês, “Ultra Orange & Emmanuelle”. Feitas essas explicações, eis aqui umas dicas para ouvir pop com biquinho da melhor qualidade:

Superbus: se pop perfeito é seu negócio, você tem de conhecer o Superbus. Apesar de o nome lembrar um busão com superpoderes, na verdade quer dizer “soberbo” em latim, adjetivo que se aplica tanto a suas músicas quanto à belíssima vocalista Jennifer Ayache, capaz de dar personalidade própria até a “Breed”, do Nirvana (que faz parte dos shows).

– Para quem gosta de: Blondie, Dandy Warhols, Miranda!
– Por onde começar: por “Lova lova”, “Ça mousse” e “Més defauts”, todas presentes na ótima coletânea “Happy Busday”. Depois dela, vá pelos discos “Lova lova” e “Wow”.

Vincent Delerm: o trovador normando é um dos grandes letristas da França atual, injetando ironia e citações pop enquanto descreve situações cotidianas. Anda muito bem acompanhado, e é o principal nome da gravadora Tôt ou Tard, uma das principais a investir no pop francês revitalizado.

– Para quem gosta de: Pulp, Serge Gainsbourg, Beck da década de 2000
– Por onde começar: pelo terceiro disco, “Les Piqûres d’araignée”, com a divertida “Sous les avalanches” e a balada “Marine”. Mas não deixe de conferir “Tes parents” e o hit “Natation synchronisée”, presentes em outros discos.

BB Brunes – já chamado por aí de “o Green Day francês”, embora pouco tenha a ver com o grupo americano, o trio de malacos em jaquetas de couro é a prova de que o país dos croissants não rechaça tudo que é do Tio Sam. No primeiro disco, “Blonde comme moi”, tocavam alto e arrebataram uma legião de fãs, especialmente adolescentes. No segundo, “Nico Teen Love”, o ritmo ficou mais lento e meloso – afinal de contas, os punks também amam.

– Para quem gosta de: Strokes, Arctic Monkeys, The Coral.
– Por onde começar: pelo punk básico a 150 km/h do disco “Blonde comme moi”, de onde se destacam “Sixty eight” e “Perdus cette nuit”.

Louise Attaque – apadrinhado e produzido por Gordon Gano, do Violent Femmes (Louise atacando é uma mulher violenta, certo?), o quarteto parisiense foi bastante ativo na virada do século mas, em 2001, encerrou suas atividades – e é a partir daí que a história fica interessante. O vocalista Gaëtan Roussel e o violinista Arnaud Samuel formaram o Tarmac, enquanto o baixista Robin Feix se juntou à cantora Anne Berthe, do Tétard, para criar o Poney Express, sobre o qual você lê abaixo.

Curiosamente, as duas bandas são melhores que o Louise Attaque, que depois voltou para um novo disco – o melhor de sua carreira.

– Para quem gosta de: Violent Femmes e Meat Puppets (Louise Attaque), Gotan Project e Massive Attack das antigas (Tarmac).
– Por onde começar: os melhores discos são “À plus tard crocodile”, do Louise Attaque, e “Notre époque”, do Tarmac. Do primeiro, “Si c’etait hier” passaria fácil por uma inédita do Franz Ferdinand…

Poney Express – eles merecem um comentário à parte por ser a melhor banda da “família” Louise Attaque e possivelmente a banda mais legal a cantar em francês atualmente – ainda que os próprios membros a tratem como projeto paralelo. O primeiro disco, “Daisy street”, junta o melhor do pop local com o folk e o country do Violent Femmes, enquanto o segundo, “Palladium”, é completamente diferente – fica na fronteira do noise da Creation com a eletrônica vintage.

– Para quem gosta de: Cardigans, Fairport Convention, Ladytron, My Bloody Valentine.
– Por onde começar: pelos dois discos, “Daisy Street” e “Palladium”. Agora. Já. Vai!

Ariane Moffatt – nem só de franceses vive a scéne française. Nascida e criada no Québec (Canadá), Ariane Moffatt é uma das mulheres mais talentosas do pop francófono, e já até tocou no Brasil, em 2007. O sotaque é diferente dos artistas nascidos na França, segundo quem sabe a língua (não é meu caso), mas o talento nada deve.

– Para quem gosta de: Tori Amos, Ben Harper, momentos retrô do britpop
– Por onde começar: pelo imperdível “Le cœur dans la tête”, mas não deixe de ouvir “Réverbère”, melhor música do disco “Tous le sens”.

Holden – seguindo os passos do Portishead e equilibrando o trip-hop com o jazz, a dupla Holden foi formada em 1998 e caiu nas graças do produtor teuto-chileno Uwe Schmidt, vulgo Señor Coconut, que produziu um de seus discos e ainda bombou o Holden na terra de Pinochet. Conseguir qualquer um dos quatro discos da dupla é uma grande dificuldade, mas uma coletânea dupla, “Essentiel”, foi lançada em março, facilitando um pouco a questão.

– Para quem gosta de: Portishead, John Coltrane, Françoise Hardy
– Por onde começar: baixando o segundo disco, “Pedrolira”. Nele estão a bela “C’est plus pareil”, a delicada “Une fraction de seconde” e o primeiro e único trip-hop dançante da história, “Je te reconnais”.

Émilie Simon – principal concorrente de Jennifer Ayache, do Superbus, ao título de musa do pop francês (é a foto dela que abre este texto), a princesinha Émilie Simon não é só um rostinho (muito) bonito: de seus dedos já saíram a trilha do filme “A Marcha dos Pinguins” e três discos de estúdio com composições próprias – um deles, “The Big Machine”, em inglês. E é incrível como cada uma das canções da moça tem classe.

– Para quem gosta de: Björk, Smashing Pumpkins fase “Adore”, Interpol
– Por onde começar: pela estreia, “Émilie Simon”. Mas não deixe de conferir, no disco ao vivo “À L’Olympia”, a cover de “Come as you are”, do Nirvana.

Albin de la Simone – ex-artista plástico e músico de jazz, Albin de la Simone colaborou com vários nomes da nova scéne française antes de começar a escrever as próprias canções, dez anos atrás. É um dos que mais se aproxima do estilo da chanson dos anos 1960, e não à toa regravou, em francês, “Something Stupid”, sucesso com Frank e Nancy Sinatra.

– Para quem gosta de: Elton John, Ed Harcourt, Fiona Apple
– Por onde começar: pelo segundo álbum, “Je vais changer”, que traz “Tu ne peux rien faire”, uma declaração de princípios feita por um teimoso.

Carla Bruni: não dava para não falar dela, né? Antes de se tornar primeira-dama, a ex-modelo namorou Mick Jagger e levou Eric Clapton à loucura, e em 2001 enviou uma demo anônima à gravadora Naive. Nada bobos, os executivos do selo se encantaram e contrataram a moça, que compõe todas as melodias e letras (exceto os poemas de seu disco em inglês, “No Promises”).

– Para quem gosta de: Kate Moss, Shirley Mallmann, Françoise Hardy
– Por onde começar: pelo terceiro disco, “Comme si de rien n’etait”, onde estão “Ma Jeunesse”, “Déranger les Pierres” e “You Belong to Me” – o cúmulo do romance. Depois, dê uma chance ao subestimado disco em inglês de mme. Sarkozy, “No Promises”.

Mas o pop francófono ainda tem muita coisa legal e que não foi citada: deixar de fora Mickey 3D, Coeur de Pirate, Benjamin Biolay, Amadou & Mariam, Clarika, Karkwa e Plasticines, por exemplo, é quase um crime. Felizmente, há formas de ouvir todos esses e de descobrir mais gente boa.

Uma delas é pelo blog A Música Francófona ( http://amusicafrancofona.blogspot.com/ ), cheio de boas recomendações. Outra forma é pelas rádios: é incrível como a França, a Suíça e o Québec possuem excelentes rádios para divulgar quem canta em francês, e nas quais se pode ouvir mais de duas horas uma programação sem sequer uma música ruim. Não deixe de conferir essas emissoras, algumas das quais relacionamos abaixo:

– Virgin Radio Scéne Française – só disponível na internet, é uma das principais origens do meu interesse. Na França, as rádios da cadeia, pertencente ao grupo Lagardére, dedicam boa parte de sua programação a artistas do país, mas não há uma emissora 100% francófona como a Scéne Française da web. http://scenefrancaise.virginradio.fr

– Le Mouv’ – nascida em Toulouse e depois estendida a outras 27 cidades, a Le Mouv’ é o braço da estatal Radio France dedicado a ouvintes mais novos, e toca uma boa mistura de pop local e internacional. Também toca música eletrônica. http://www.radio-france.fr/chaines/lemouv/

– NRJ French – com presença internacional e bandeiras fincadas até nos EUA, a NRJ (pronuncia-se como “énergie”, energia) tem na internet um canal dedicado apenas a pop francófono, e que vai do ragga à chanson. Ganha de longe em ecletismo… mas às vezes é eclética até demais. Procure por NRJ French em http://www.nrj.fr/radio-510/webradios-nrj-513/webradio/

– CFMF 103.1 – emissora comunitária da minúscula Fermont, na gelada divisa do Québec com Labrador, a CFMF tem foco na música produzida na província, e vai desde o country em francês (yee-ha com uh-la-la!) até o hardcore melódico. Fique atento ao programa diário “Les Soirées CFMF”, quando o pop e o rock dão as caras. http://www.cfmf.ca/

– Bande à Part – se o governo do Canadá tem, na porção inglesa do país, uma rádio digital (CBC 3) para a programação “alternativa”, por que não ter uma rádio assim do lado francófono? Foi assim que surgiu, em 2000, a Bande à Part, emissora via satélite/internet que se permite umas poucas músicas em inglês (sempre de artistas canadenses) em meio à quase totalidade da programação em francês. http://www.bandeapart.fm/

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Eduardo Palandi, 29, gosta de comida árabe, música francesa, roupas inglesas, desenho industrial sueco, tributação norte-americana, carros alemães e meninas do Plano Piloto.

Leia também:
– Especial: a nova cena musical de Portugal, por Pedro Salgado (aqui)
– Carla Bruni, desculpas e um autógrafo, por Roberta Avila (aqui)
– Serge Gainsbourg, 1928-1991, por Marcelo Costa (aqui)
– “No Promisses”, de Carla Bruni, por Marcelo Costa (aqui)
– “Comme si de rien n’etait”, de Carla Bruni, por Marcelo Costa (aqui)
– O nome dela é… Carla Bruni, por Marcelo Costa (aqui)
– Baixe “Those Dancing Days Are Gone” com Carla Bruni e Lou Reed (aqui)
– “O inferno? Não, a França”, por Flavia Ballvé (aqui)
– Françoise Hardy e Serge Gainsbourg, Deuses Franceses do Pop, por Claudia Ferrari (aqui)

22 thoughts on “Guia do Pop Francófono Anos 00

  1. Senti falta do mais genial cantor europeu da atualidade…

    Adanowsky (Adan Jodorowsky… filho do grande Alejandro Jodorowsky)
    consta, inclusive, que ele aprendeu a tocar guitarra com George Harrison!!! assim fica fácil né…
    Ele canta em Frances e em Espanhol… tem 2 albuns otimos…
    o primeiro Etoile Eternelle é meu preferido… extremamente Serge Gainsbourg!
    o segundo Amador ele já foi pro lado hippie, inclusive chamando o Devendra pra participar…

    http://www.youtube.com/watch?v=Jjpc1WZGhtk

    http://www.youtube.com/watch?v=1zqy89NKdI0

    http://www.youtube.com/watch?v=pXtjdIkhbF0

  2. Tem uma artista com cds excelentes chamada Keren Ann!
    Ela não é francesa, mas boa parte de sua carreira foi feita na frança…ela canta em inglês, em francês e arrisca o português na linda e simples interpretação (com um inocente sotaque gringo ) de “Manhã de carnaval”. Essa versão está no cd “Keren Ann”. Ps: nesse cd tem uma versão de Hallelujah do Leonard Cohen ( mais uma das mil versões que já existem)
    Indico também o belííííssimo album “Nolita”, é o meu favorito.
    Tem no Grooveshark todos esses álbuns completos, vale parar p/ escutar!

  3. Holden me lembra Heldon, projeto do guitarrista Richard Pinhas que misturava fusion, música eletrônica, psicodelia e MUITA influência de King Crimson (o cara chegou a escrever uma música chamada “In The Wake of King Fripp”!). Eu não sei, não tem nada a ver com o tema tratado, mas achei que valeria a pena, afinal é um músico francês que fez muita coisa boa.

  4. Muito bom o guia, a música francesa tem muito a oferecer além de Aznavour, Piaf e Gainsbourg (que também não deixam de ser bons).

    Tem também a Camille Dalmais, vale a pena ouvir o primeiro disco dela, “Le Sac des Filles”. Ela tem um vocal diferente, o disco é bem pop. http://www.youtube.com/watch?v=0yE12-7E51w

    A Camille já cantou no Nouvelle Vague, outra banda francesa muito boa (mas a maioria das músicas é em ingles). Deles eu recomendo todos os discos, mas vale começar pelo homônimo de 2004, que tem umas versões ótimas pra músicas do Joy Division, Depeche Mode, The Clash, The Cure e Dead Kennedys. http://www.youtube.com/watch?v=xawv_gr7sYw

    🙂

  5. Muito bom!

    Louise Attaque é o motivo da minha pronuncia em francês ser razoável… E é bom demais, diz aí!

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