Selo Scream & Yell & Senhor F: “Pra Toda Superquadra Ouvir”, Beto Só

introdução por Marcelo Costa
faixa a faixa por Beto Só

Olhando em retrospecto, os anos 00 foram doces anos ingênuos, em que acreditávamos que podíamos tudo, e teríamos tudo. Estávamos navegando em águas nunca dantes navegadas, nos primeiros anos depois do bug do milênio (que não veio), da Miss Brasil 2000, da esquerda chegando ao poder, do CD trocado pelo MP3, e até do rock adolescente novamente nas paradas. Parecia, enfim, que tudo começava a fazer sentido. Vivíamos uma cena musical efervescente no Brasil (e no mundo), e as facilidades tecnológicas permitiam que qualquer um conseguisse gravar um disco, relegando ao mainstream apenas aqueles que quisessem pagar por sucesso. A Arte estava ao alcance das mãos, a um click do mouse.

Depois que os anos 10 jogaram uma pá de cal na década anterior, os vislumbres daquela inocência (perdida?) começaram a se fazer presentes. O MP3 foi trocado pelo streaming, a esquerda foi tirada do poder, o rock adolescente deixou de ser guitarreiro para ser dançante, muitos MP3 sumiram no buraco negro da rede mundial de computadores e centenas daqueles discos gravados nos 00 simplesmente se transformaram em poeira digital, não existindo em streaming, nem em CD, talvez em CDRs que não ripam mais, deixando uma saudade imensa de um período em que acreditar era quase tocar o sonho e transforma-lo em realidade – ok, nunca foi assim, mas muitos achavam que era.

Em uma entrevista ao Scream & Yell em 2020, quando do lançamento da primeira parte de “Pra Toda Superquadra Ouvir”, Beto Só sentenciava: “É uma geração mal documentada. Mas é riquíssima, riquíssima. A ideia do disco surgiu até como um manifesto da riqueza que foram os anos 2000 para a música jovem brasileira. A quantidade de canções boas mesmo que foram feitas nessa época é impressionante. É tão bom que fico de cara que seja mal documentado. E acho que esse período precisa ser revisitado, porque foram produzidas e gravadas grandes canções”. E completa: “A gente acreditava que a internet ia permitir falar com nosso público de forma direta, sem gravadora e sem jabá. A gente achava que dava para conquistar o público sem fazer concessões para fora do que a gente achava que deveria fazer”…

Beto Só foi lá e fez a sua parte nesse manifesto de recuperação de uma cena que não pode, não deve, nem merece ser esquecida – muito pelo contrário. “Pra Toda Superquadra Ouvir”, o álbum, surge agora em sua versão completa, com 12 faixas do período que destacam nomes (muitos deles ainda na ativa!) como Violins, Volver, Superguidis, Lestics, Tom Bloch, Watson, Superquadra, Suíte Super Luxo, Los Porongas, Disco Alto, Phonopop e StereoScope numa parceria Scream & Yell e Senhor F: o disco já está em todas as plataformas digitais (divido em duas partes), e também aqui para todos aqueles que desejem baixar o álbum em MP3. São 12 canções que levam a muitas outras, basta puxar o fio da memória e ir trazendo, uma a uma.

Isso, porém, não quer dizer que o material daquela década sonhadora seja datado. Em muitos casos, infelizmente, é totalmente o contrário. Cante “Manobrista de Homens”, por exemplo, olhando as notícias compartilhadas nas redes sociais. Por outro lado, “Velho”, “Carbonos Perfeitos”, “Eu Envelheço” e “Enquanto Uns Dormem” são todas canções atemporais, que poderiam ter sido escritas hoje no café da manhã. Enquanto faixas como “O Banana” e “O Segundo Grau” nos fazem viajar para uma outra fase de nossas vidas com seu romantismo adolescente. “Pra Toda Superquadra Ouvir” é um registro belíssimo de uma época muito particular da cultura pop nacional, que você tem agora em suas mãos, ao alcance do mouse. Play!

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FAIXA A FAIXA por BETO SÓ

01) Manobrista de homens (Violins) – Escolhi essa música para abrir o disco porque, além de belíssima, mostra como os artistas independentes praticam uma liberdade saudável e corajosa, que a música brasileira foi perdendo no mainstream, que já não traz mais letras como essa. Beto Cupertino foi uma das grandes vozes dos anos 2000, criou canções que até hoje tocam as pessoas. O Violins foi uma das minhas influências para compor meu terceiro disco, o “Ferro-Velho de Boas Intenções“. A poderosa cantora Karla Testa participa dela comigo.

02) Saída Sul (Superquadra) – Superquadra foi mais uma banda criada pelo Cláudio Bull, primeiro influencer de Brasília numa época pré-internet. O Bull sempre agregou, juntou as bandas de Brasília, indicou rumos. E sempre montou projetos fodas. Decidi gravar essa música quando a ouvi no rádio e fiquei emocionado. Pensei em alguém que se liberta de uma relação opressora e quis cantá-la também. E o duo DeltaFoxx, que fez os sintetizadores e efeitos, deixou nossa versão muito mais moderna e empolgante!

03) O banana (Superguidis) – Superguidis foi durante muitos anos a minha banda preferida. Desde que ouvi “Malevolosidade” pela primeira vez, me apaixonei pelos guris. Essa música é do Lucas Pocamacha, que nos presenteou com letras delicadas, sensíveis e sinceras nos três discos dessa incrível banda, que deixou muita saudade.

04) Segundo Grau (Suíte Super Luxo) – Essa canção foi tirada do “El Toro”, primeiro disco da Suíte e, pra mim, o melhor disco lançado em Brasília nos anos 2000. Luc Albano tem um talento invejável. É um roqueiro de mão cheia, capaz de fazer letras que ora são grandes sacadas, ora são pura poesia. “Segundo Grau” é de uma sensibilidade incrível, capaz de gerar na gente um saudosismo que aquece o coração. Renato Amú faz um solo delicado de guitarra que casa perfeitamente com esse sentimento.

05) Velho (Lestics) – Lestics foi a banda que conseguiu destronar o Superguidis da minha lista de bandas preferidas. Eu adoro todos os discos deles, e a dupla Olavo Rocha e Umberto Serpieri fizeram algumas das minhas canções preferidas. Quando ouvi “Velho” pela primeira vez, chorei. Um casamento perfeito entre música e letra. Uma obra-prima.

06) Enquanto uns dormem (Los Porongas) – Que banda! Los Porongas conseguiu ser muito original, misturando uma poesia brasileira com um rock de arena. Acho essa canção uma das mais lindas da música brasileira, com uma letra que me instiga, porque sei que nunca escreveria algo assim. Parece coisa de quem leu muito João Cabral de Melo Neto e ouviu muito Belchior. Uma preciosidade.

07) Rua 90 (Disco Alto) – Ah, que carinho tenho pelo Disco Alto… Mais uma banda de Brasília. Fui em tantos shows. Eles compuseram tantas baladas emocionantes, sinceras. Quando acabou, gerou a Voxolder, montada por alguns de seus ex-integrantes, e o Ops, um dos artistas que estão fazendo a diferença no independente de hoje. “Rua 90” é a minha preferida deste disco, confesso.

08) Carbonos Perfeitos (Tom Bloch) – Essa música só está aqui por causa da Scream & Yell. Sou muito grato por ter sido chamado para fazer parte do tributo a Tom Bloch e, assim, me desafiado a fazer uma versão de uma banda que fazia um som tão poderoso que até me intimidava. Por ser uma banda tão diferente do que costumo fazer, essa acabou se tornando uma das minhas versões preferidas neste disco. Acho que aqui aparece toda a capacidade de arranjador do meu irmão e parceiro, o guitarrista Ju.

09) Eu Quero Envelhecer (Watson) – Essa música foi uma espécie de hino underground de Brasília e acho que eu a ouvi um zilhão de vezes já. Lembro de ficar ouvindo no repeat do carro a versão da primeira demo. O refrão é desses poderosos, que emocionam, ficam na cabeça e dão vontade da gente cantar de novo e de novo e de novo.

10) Eu Envelheço (StereoScope) – Assim como eu considero o Lestics minha banda-irmã de São Paulo, o SteroScope se tornou, na minha cabeça, minha banda-irmã em Belém. Eram três compositores que faziam coisas com estilos próprios, mas que, quando juntava tudo, ficava homogêneo, de banda mesmo. Essa música é do Jack Nilson, letrista de mão cheia. Reparem como ele trabalha bem as expressões “até mesmo agora”, “talvez agora” e “menos agora” à medida que o narrador envelhece. Coisa de poeta.

11) Inverno (Phonopop) – O Phonopop, do grande Fernando Brasil, foi a banda que mais me influenciou na vida. Quando ouvi a primeira demo deles, foi um baque. Pensei: “Caralho, tem gente em Brasília fazendo canções fenomenais. Preciso me esforçar mais”. Acho que não teria feito muitas das minhas músicas se não estivesse tentando chegar à altura do que o Fernando faz.

12) Com sabor de choque elétrico (Volver) – Última faixa do primeiro disco da Volver. Essa foi outra que ouvi no repeat sem cansar nunca dela. O Bruno Souto é sem dúvida um dos melhores melodistas que o rock brasileiro já teve. Como invejo as melodias que ele faz. E ainda canta tudo com aquele sotaque delicioso do Recife, que infelizmente não tenho.

CATÁLOGO COMPLETO DO SELO SCREAM & YELL

SY00 – “Canção para OAEOZ“, OAEOZ (2007) com De Inverno Records
SY01 – “O Tempo Vai Me Perdoar”, Terminal Guadalupe (2009)
SY02 – “AoVivo@Asteroid”, Walverdes (2011)
SY03 – “Ao vivo”, André Takeda (2011)
SY04 – “Projeto Visto: Brasil + Portugal” (2013)
SY05 – “EP Record Store Day”, Giancarlo Rufatto (2013)
SY06 – “Ensaio Sobre a Lealdade”, Rosablanca (2013)
SY07 – “Ainda Somos os Mesmos”, um tributo à Belchior (2014)
SY08 – “De Lá Não Ando Só”, Transmissor (2014)
SY09 – “Espelho Retrovisor”, um tributo aos Engenheiros do Hawaii (2014)
SY10 – “Projeto Visto 2: Brasil + Portugal” (2014)
SY11 – “Somos Todos Latinos” (2015)
SY12 – “Mil Tom”, um tributo a Milton Nascimento (2015)
SY13 – “Caleidoscópio”, um tributo aos Paralamas do Sucesso (2015)
SY14 – “Temperança” (2016)
SY15 – “Ainda Há Coração”, um tributo à Alceu Valença
SY16 – “Brasil También Es Latino” (2016)
SY17 – “Faixa Seis” (2017)
SY18 – “Sem Palavras I” (2017)
SY19 – “Dois Lados”, um tributo ao Skank (2017)
SY20 – “As Lembranças São Escolhas”, canções de Dary Jr. (2017)
SY21 – “O Velho Arsenal dos Lacraus”, Os Lacraus (2018)
SY22 – “Um Grito que se Espalha”, um tributo à Walter Franco (2018)
SY23 – “A Comida”, Os Cleggs (2018)
SY24 – “Conexão Latina” (2018)
SY25 – “Omnia”, Borealis (2019)
SY26 – “Sem Palavras II” (2019)
SY27 – “¡Estamos! – Canções da Quarentena” (2020)
SY28 – “Emerge el Zombie – En Vivo”, El Zombie (2020)
SY29 – “Canções de Inverno – Um songbook de Ivan Santos & Martinuci” (2020)
SY30 – “SIEMENSDREAM”, Borealis (2020)
SY31 – “Autoramas & The Tormentos EP”, Autoramas & The Tormentos (2020)
SY32 – “O Ponto Firme”, M.Takara (2021)
SY33 – “Sob a Influencia”, tributo a Tom Bloch (2021)
SY34 – “Pra Toda Superquadra Ouvir”, Beto Só (2021)
SY35 – “Bajo Un Cielo Uruguayo” (2021) com  Little Butterfly Records
SY36 – “REWIND” (2021), Borealis

Discos liberados para download gratuito no Scream & Yell:
01 – “Natália Matos”, Natália Matos (2014)
02 –  “Gito”, Antônio Novaes (2015)
03 – “Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas”, de Leonardo Marques (2015)
04 – “Inverno”, Marcelo Perdido (2015)
05 – “Primavera Punk”, Gustavo Kaly e os Hóspedes do Chelsea feat. Frank Jorge (2016)

2 thoughts on “Selo Scream & Yell & Senhor F: “Pra Toda Superquadra Ouvir”, Beto Só

  1. Os Stereoscopes fizeram coisas maravilhosas também em carreira solo e outros projetos de banda. Recomendo muito o primeiro disco do Jack Nilson: “Boleros Malditos e Outras Maldições”, uma obra prima!!!

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