Três filmes: “Gauguin – Viagem ao Taiti”, “Desobediência” e “Juliet, Nua e Crua”

por Marcelo Costa

“Gauguin – Viagem ao Taiti”, de Edouard Deluc (2017)
Eugène-Henri-Paul Gauguin é um dos grandes nomes do pós-impressionismo francês tendo começando a pintar aos 25 anos, quando já era casado (desde os 18, em 1866) e pai de cinco filhos. “Gauguin – Viagem ao Taiti” cobre um período particular da vida do pintor, que em 1891 (aos 43 anos) decidiu fugir da influência a civilização (e da numerosa família) para mergulhar na natureza virgem e selvagem buscando inspiração para uma arte, em sua visão, primitiva. No Taiti, bastante debilitado (característica que perpassou quase toda sua vida), ele embrenha-se numa aldeia indígena e se envolve com Tehura, índia que na época tinha apenas 13 anos e, segundo relatado no diário de viagem “Noa, Noa”, (pouco confiável, segundo críticos) que o autor publicou em 1901, é liberada pelos pais para viver com ele. Começa uma fase apaixonada e explosiva na carreira de Gauguin, que rende alguns de seus quadros mais famosos. Para esta cinebiografia, o diretor Edouard Deluc e quatro roteiristas não encontraram solução para contar ao espectador sobre a idade de Tehura (interpretada por Tuhei Adams, de 17 anos), personagem decisiva não só para o filme como para o primitivismo artístico que Gauguin buscava. Ao dar ao fato tom de pouca relevância à história, o roteiro mancha um filme visualmente bonito, pois a luz dos dias atuais, esse é um tema que não pode mais ser deixado de lado. Junte a isso a opção por focar mais no pintor (ocidental, famoso) deixando a personalidade de Tehura (afastada de sua cultura) em segundo plano, “Gauguin – Viagem ao Taiti” é mais desserviço do que enlevo.

Nota: 1

“Desobediência”, de Sebastián Lelio (2018)
Ronit (Rachel Weisz) é uma fotografa famosa em Nova York, mas sua história pregressa a coloca em Londres, local em que seu pai, Rav (Anton Lesser), é o líder religioso de uma comunidade de judeus ortodoxos. Ronit deixou a comunidade muito tempo atrás, após viver um romance com a amiga Esti (Rachel McAdams). Rav cortou todos os laços com Ronit, e isso é explicitado pelo fato de que, após falecer no púlpito em meio a um sermão, Ronit descobrirá ao ir ao enterro que o jornal do bairro declarou que ele nunca teve filhos e o testamento destinará todos os seus bens para a sinagoga. Esti casou-se com o primo de Ronit, Dovit (Alessandro Nivola), mas o amor pela amiga nunca desapareceu, e esse “retorno” de Ronit irá mexer com a emoção de todos. Dirigido pelo chileno Sebastián Lelio, que chamou a atenção do mundo com o delicado “Uma Mulher Fantástica” (2017) e foi escolhido pela próprio Rachel Weisz, “Desobediência” é tanto um mergulho profundo em detalhes do Judaísmo, que, muitas vezes, é desconhecido de fieis de outras religiões (Dovid não abraça a prima quando ela chega porque homens casados não podem tocar outras mulheres; sexo só as sextas-feiras; mulheres precisam usar perucas porque seu cabelo seduzir e tirar alguém do caminho;) quanto no choque de uma religião patriarcal com a passagem acelerada do tempo. Denso e tenso, tudo em “Desobediência” é contido, controlado, silenciado. Há uma boa química entre o trio de atores principais (Weisz, McAdams e Nivola), mas a sensação de ter nas mãos uma bomba prestes a explodir que se transforma em um buque de flores esvazia os temas caros ao filme, ainda que injete (sensação de falsa) esperança no futuro.

Nota: 7.5

Leia também:
– Em “Um Homem Sério”, os Irmãos Coen satirizam a comunidade judia (aqui)

“Juliet, Nua e Crua”, de Jesse Peretz (2018)
Sexto romance lançado pelo britânico Nick Hornby, “Juliet, Naked” (2009) foi um respiro de alivio após o pouco inspirado “Slam” (2008) – já adaptado ao cinema. Aqui ele parece expurgar, com delicadeza, a egolatria pop que jorrava em litros dos personagens de “Alta Fidelidade” (1995), sua obra mais famosa. É quase que uma tiração de sarro que, no entanto, ganha brilho num momento capital da trama, que une Duncan (Chris O’Dowd), um fã absolutamente apaixonado (sim, é redundância, mas era preciso reforçar) por um cantor que desapareceu do mapa nos anos 90, sua namorada Annie (Rose Byrne), uma historiadora da arte afundada na areia movediça de uma cidade onde absolutamente nada acontece, e Tucker Crowe (Ethan Hawke), o tal músico sumido. Tucker lançou o álbum “Juliet” (1993), incluso pela revista Rolling Stone na lista de “Melhores Álbuns sobre Término de Relacionamento de Todos os Tempos”, e depois renegou o disco (sabe o sentimento de Dylan sobre “Blood on The Tracks”? O mesmo). Duncan criou um site para discutir a obra e a vida de Tucker e idolatra tanto “Juliet” que o brilho do álbum apaga absolutamente Annie. Tudo isso está prestes a mudar: a audição do disco de demos “Juliet Naked” divide o casal (“Isso é uma obra prima”, diz Duncan enquanto Annie critica: “Como alguém pode achar que um rascunho é melhor que o produto final?”) e será o estopim para uma grande mudança. Para quem não é do universo pop, “Juliet, Nua e Crua” pode soar uma comédia romântica doce, correta e funcional. Porém, para apaixonados por cultura pop e rock alternativo (a trilha traz sobras de Ryan Adams, Conor Oberst, Robyn Hitchcock e Nathan Larson), há uma peça satírica deliciosa escondida por trás de uma comédia romântica doce, correta e funcional. No caso de Nick Hornby, preste sempre atenção nas entrelinhas. A mágica acontece ali. E há muita mágica presente aqui. Divirta-se.

Nota: 7.5

Leia também:
– “Uma Longa Queda”, de Nick Hornby, incomoda muito mais que diverte (aqui)
– “Funny Girl” abre possibilidades temáticas interessantes para Nick Hornby (aqui)
– Sobre Nick Horby e “Alta Fidelidade”, por Marcelo Costa (aqui)
– “Febre da Bola”, o filme: a versão americana com  Jimmy Fallon e Drew Barrymore (aqui)
– “Febre da Bola”, o filme: a versão inglesa com Colin Firth (aqui)
– “Um Grande Garoto” é romance urgente, daqueles que retratam uma época (aqui)
– “Um Grande Garoto”, o filme, surge poético em algumas partes e patético em outras (aqui)
– “Como Ser Legal”, de Nick Hornby, é uma extensão da “teoria das calcinhas velhas” (aqui)

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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