Download: Tributo a Alceu Valença

Em mais de 45 anos de carreira, Alceu Valença entregou 24 álbuns entre registros de estúdio e discos ao vivo, e fez incontáveis shows. No dia 1 de julho de 2016, o homem completou 70 anos de vida. Sua obra e sua influência, porém, vão além do que pode ser medido em números.

Como terá sido a reação de quem ouviu, em 1974, o agreste invadir o rock psicodélico todo “Molhado de Suor”? Ou a própria herança pernambucana se ver refletida, como nunca antes, naquele “Espelho Cristalino” de 1977? Talvez tenha sido tão impactante quanto perceber, lá em 1982, que o pop podia sair tão altivo quanto carnal quando montado em um “Cavalo de Pau”, ou sofisticado quando “Mágico” (1984). E nem a realização de “7 Desejos” em 1991 daria base para prever uma acelerada por “Maracatus, Baques e Ladeiras” em 1994, ou antever a “Ciranda Mourisca” de 2008.

Mas as datas estão aí como mero recurso textual. Nada impede um garoto de 15 anos de redescobrir a fase setentista de Alceu – como aconteceu na juventude de alguns dos músicos presentes nesse tributo – como também é perfeitamente possível que um admirador mais avançado na idade se surpreenda com um disco pouco lembrado como “Andar, Andar” (1990).
Na obra de Alceu Valença, rock, xote, maracatu, frevo, pop sofisticado, embolada, coco e muitos outros gêneros se misturam, numa estética que frequentemente usa Pernambuco como ponto de partida para se chegar a qualquer lugar do mundo – ou, em alguns momentos mais ousados, a outros mundos. E nessas paisagens musicais, abunda o imaginário onde quase tudo é levado ou transformado pelo vento, os cabelos são a fagulha para o desejo e os sabores da natureza e do corpo insistem em ficar por mais tempo na boca e na memória.

Essa coletânea reúne artistas do Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste do país para celebrar essa memória sensorial viva que Alceu Valença segue nos presenteando. E como prova da universalidade de suas composições, argentinos e uruguaios somam-se à homenagem, entregando 14 novas interpretações de canções cuja vigência não foi afetada pelo passar dos anos.

Mesmo todos esses participantes que não tenham ocupado o mesmo espaço físico, foi uma reunião entusiasmada – um clima de “festa à distância”, embalada pela música de um artista que sabe falar de solidão com a mesma síntese e eloquência com que fala de tesão, que alucina e faz dançar sem abrir mão da sutileza ou da elegância. Não foram poucos os convidados que ficaram em dúvida entre qual canção gravar – “que foda escolher uma só” foi praticamente um mantra. E houve até quem perguntasse: “posso participar com duas?”.

O resultado é um dos tributos mais apaixonados dentre os lançados pelo Scream & Yell – e que está disponível para download gratuito bem aqui.

por Leonardo Vinhas, produtor do tributo “Ainda Há Coração”

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No final de 2015, a convite do Sesc Pompeia, produzi um show de Alceu Valença dentro do projeto Sala da Estar, que buscava uma visão intimista sobre o repertório do compositor (dois violões, vez em quando um violão e uma sanfona) entremeada com histórias da vida e carreira de Alceu. A ideia era que eu conversasse bastante com Alceu buscando histórias e inspiração para montar um set list que deveria (e foi) ser apresentado em duas noites no teatro do Sesc Pompeia.

Para montar esse show me afundei na discografia de Alceu, a qual eu conhecia de apaixonado por sua musicalidade, mas que nunca eu tinha parado para ouvir com calma me atentando aos detalhes – e o amor também está nos detalhes. A biografia de Anamelia Maciel, “De Frente e Verso” (1989), foi de grande valia na hora de montar o repertório para o show, mas os longos bate papos com Alceu foram mais que elucidativos de sua trajetória, foram também poéticos, divertidos, sentimentais e vibrantes, como a própria música de Alceu.

Naquelas longas conversas entremeadas de lembranças de infância e cantos de abóio, Alceu declamou poemas de seu avô Orestes e de seu tio Geraldo Valença, rememorou Ascenso Ferreira (do qual ele gravaria o poema “Oropa, França e Bahia”) e também João Cabral de Melo Neto, a quem ele dedicaria um de seus maiores sucessos, “Tropicana”. A poesia, como podemos perceber, é tão presente na vida de Alceu que, em 2015, ele lançou uma compilação de poemas próprios escritos entre 1960 e 2014 chamada “O Poeta da Madrugada”.

Por isso peço para que você, caro ouvinte, preste bastante atenção ao repertório temático deste delicioso tributo que o Scream & Yell está lançando hoje. O chapa Leonardo Vinhas caprichou na curadoria de artistas, e o resultado é todo coração. Seja nas guitarradas do duo sergipano The Baggios (aqui em formato quarteto com teclas e baixo) que colocou peso sem perder o carinho em “Vou Danado Pra Catende”, um dos hinos do grande álbum “Molhado de Suor”, que Alceu lançou em 1974.

Dai em diante, “Ainda Há Coração” atende a todos os corações. Seja na delicadeza new caipira de Judas em “Cópias Malfeitas”, na batucada latina dos pampas que une o rosarino Ariel Migliorelli com a gaúcha Lara Rossato em “Batendo o Tambor” ou mesmo na comovente e delicada interpretação de Nevilton para “Tropicana”. Há, ainda, a new psicodelia de Luiza Lian, Bruno Souto e Tagore (em “Anunciação” e “La Belle de Jour – Girassol”) e a eletrônica a favor da canção na bonita versão de “Coração Bobo” pela uruguaia Papina de Palma.

Há mais (coração), muito mais (coração), mas tanto eu quanto Leonardo e todos os músicos participantes queremos que você, caro ouvinte, descubra não só as pérolas deste tributo apaixonado e, desculpe o termo do século passado, honesto e sincero, como também o grande repertório de um músico irrequieto que deixou a pequena Santo Bento do Una, cidade de 50 mil habitantes no Planalto da Borborema, área montanhosa no interior da região Nordeste do país, para conquistar o mundo.

Como escrevi no release do projeto Sala de Estar em novembro de 2015, “existem vários Alceus em Alceu Valença”. Esse disco tributo “Ainda Há Coração” convida você para conhecer alguns destes Alceus. Seja bem-vindo!

por Marcelo Costa, editor do site Scream & Yell

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FAÇA O DOWNLOAD GRATUITO DE “AINDA HÁ CORAÇÃO” AQUI

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AINDA HÁ CORAÇÃO – UM TRIBUTO A ALCEU VALENÇA

Produção executiva e curadoria: Leonardo Vinhas
Masterização: Otavio Bertolo (exceto nas faixas indicadas)
Arte (capa, contracapa e encarte): Juliana Pontual
Lançamento: Scream & Yell

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FAIXA A FAIXA, POR LEONARDO VINHAS

– “Vou Danado pra Catende”, The Baggios (SE). Mesmo que Alceu Valença tenha declarado fazer “rock que não é rock”, o duo sergipano The Baggios pegou a sugestão zeppeliniana de “Vou Danado pra Catende” e a levou às últimas consequências, aumentando peso, volume e intensidade da faixa que abre o imprevisível “Molhado de Suor” (1974), para garantir que Telminha ouça de vez a carta que não foi escrita.

– “Cópias Mal Feitas”, Judas (DF). Faixa exclusiva da trilha da novela “Roque Santeiro”, “Cópias Mal-Feitas” era tema do personagem Zé das Medalhas (Armando Bógus). Ganhou trechos de “Vou Danado pra Catende”, “Cabelos Longos” e “Papagaio do Futuro” na releitura dos brasilienses Judas, que transportaram a faixa para os anos 90, quando vigorava com força a redescoberta das raízes brasileiras em meio ao rock brazuca.

– “Batendo o Tambor”, Ariel Migliorelli (Argentina) e Lara Rossato (RS)– O rosarino Ariel Miglioreli uniu sua paixão pela música brasileira e pela força percussiva da América Latina na recriação dessa canção, cujo original contava com a participação de Clementina de Jesus. Aqui a força da voz feminina domina, com a gaúcha Lara Rossato entregando uma das interpretações mais fortes de sua carreira, numa muitíssimo bem-vinda parceria entre Brasil e Argentina.

– “Tropicana”, Nevilton (PR). “Você está achando que a referência é Manu Chao, mas a inspiração foi ‘Besame Mucho’ na versão do Cassino de Sevilha”, disse Nevilton quando concluiu a faixa. Longe de nós duvidarmos da sinceridade do músico de Umuarama (PR), mas nunca vimos a orquestra de Ray Coniff tocar um reggae que vai ficando psicodélico à medida em que a canção avança.

– “Cabelo no Pente”, Cuscobayo (RS). O “pé caminhador” deste grande sucesso dos anos 1980 foi passear mais ao sul, encontrando as influências gaúchas e argentinas que compõem a identidade deste quinteto de Caxias do Sul (RS). Ainda que majoritariamente acústica, a versão busca ser mais dançante que a original de estúdio, e comete a ousadia de mudar o canto do refrão.

– “Maria dos Santos”, Magabarat (RS). O que quer que fosse necessário perguntar à Maria dos Santos, os caxienses da Magabarat preferiram fazê-lo sem usar palavras. O trio explora sua dinâmica instrumental para combinar jazz fusion e acid jazz, e dessa mistura vem a cama para deitar o belo xote torto da faixa presente no clássico Espelho Cristalino (1977).

– “Bobo da Corte”, Camila Garófalo (SP) – Tema do personagem vovô Pepê (interpretado por Paulo Gracindo) na novela “Mandala”, “Bobo da Corte” teve um sucesso moderado na época de seu lançamento (1987). A versão da paulista Camila Garófalo capricha no peso e na força de sua voz rasgada para acentuar a essência roqueira sugerida na gravação original.

– “Coração Bobo”, Papina de Palma (Uruguai). Embora costume se apresentar ao vivo com um violão, a uruguaia Papina de Palma preferiu levar sua “Coração Bobo” para as praias do electropop. O choque também está presente na letra, que adapta trechos para o espanhol mas mantem algumas palavras em português para manter o caráter rítmico da poesia original.

– “Na Primeira Manhã”, Dé Palmeira (RJ). O músico (e apresentador do programa Estação Roquenrôu) havia gravado essa versão em 1997, durante as sessões de um álbum solo nunca lançado. Ele voltou ao estúdio para refazer a faixa, mas manteve o espírito noventista, com loops e timbres de guitarra e baixo que caracterizaram o fim dos anos 1990.

– “Solidão”, Duo Noir (PR). Ivan Santos, vocalista da imof, se juntou ao antigo companheiro da finada OAEOZ, Igor Amatuzzi, e revestiram “Solidão” em roupagem trip hop. Assumidamente inspirado em Massive Attack, o arranjo mantém o caráter mântrico da composição, mas cutuca mais profundamente o caráter urbano do mais inescapável dos sentimentos.

– “Anunciação”, Luiza Lian (SP). “Tropicana” pode ser o sucesso mais reconhecido, mas “Anunciação” é provavelmente a faixa mais emblemática de Alceu Valença, com referências místicas e mundanas convivendo pacificamente em uma canção tão sofisticada quanto pop, tão brasileira quanto universal. Tal espírito está nas muitas buscas empreendidas por Luiza Lian, que, auxiliada por Tim Bernares (O Terno), redireciona a jornada para paragens mais psicodélicas.

– “La Belle de Jour / Girassol”, Bruno Souto e Tagore (PE). Cantores e compositores pernambucanos, Bruno Souto e Tagore decidiram unir dois grandes sucessos da fase mais pop de Alceu e leva-los para uma psicodelia à John Lennon, descartando alguns elementos das originais (como os refrões) para dar mais ênfase a outros (a paixão idealizada e poética, a melodia vocal). Alceu Valença já havia combinado as duas no ao vivo Valencianas (2014), em arranjo orquestral.

– “Tesoura do Desejo”, Monstro com GabiBelô e Tomz Magalhães (PE). Leo Monstro gosta de trabalhar com vozes diferentes em todos os projetos que integra – Babá Eletrônica, Dinâmica de Grupo, Mulher Molhada e em seu trabalho solo. Assim, “Tesoura do Desejo”  foi terreno fértil para que ele e a conterrânea GabiBelô pudessem fazer os papeis que couberam a Alceu Valença e uma então pouco conhecida Zizi Possi em 1991. Reimaginada, a canção aparece mais sensual e com os pés (descalços) na eletrônica.

– “Tomara”, Raphael Evangelista (MG). Uma das metades do duo Finlandia e um dos vértices do trio Mara Hope, o violoncelista Raphael Evangelista está acostumado a encarar estilos musicais sem pedir o passaporte deles. Porém, essa versão do hit noventista “Tomara” é feita com os olhos voltados para o Brasil, unindo influências do Norte e do Nordeste para uma recriação musical que valoriza a melodia “valenciana”.

 “Ainda Há Coração” é o oitavo álbum produzido e oferecido pelo Scream & Yell: os anteriores foram Caleidoscópio (em homenagem aos Paralamas do Sucesso), “Temperança” (Um Manifesto Contra o Ódio), “Ainda Somos os Mesmos” (em homenagem ao Belchior), “Espelho Retrovisor” (Engenheiros do Hawaii, que já ultrapassou a marca de 22.500 mil downloads), “Mil Tom” (a Milton Nascimento, próximo dos 21 mil downloads), “Projeto Visto” (uma troca musical entre brasileiros e portugueses) e “Somos Todos Latinos” (com 16 artistas independentes brasileiros regravando temas do cancioneiro pop e rock dos países de idioma espanhol). O site também já disponibilizou álbuns de Antonio Novaes, Giancarlo Rufatto, Leonardo Marques, Marcelo Perdido, Natália Matos, Transmissor e Walverdes.

6 thoughts on “Download: Tributo a Alceu Valença

    1. Só esse, Fernando. Recomendo que faça a tentativa de trocar de navegador. A gente já passou dos mil downloads e quem avisou que estava tendo problemas pra baixar conseguiu baixar em outro navegador.

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