Entrevista: Nando Reis

por Daniel Tavares

Aos 51 anos, José Fernando Gomes dos Reis continua mostrando gosto pela estrada e pelo palco. Acompanhado pela banda Os Infernais desde 2001, o compositor segue uma agenda movimentada de shows que, nos próximos dois meses, irá passar por sete estados brasileiros (são, por enquanto, nove datas agendadas para outubro e sete para novembro): São Paulo, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Piauí, Minas Gerais, Maranhão e Rio Grande do Norte.

Divulgando o DVD “Sei Como Foi em BH”, registro de um show na capital mineira em outubro de 2013 (que é acompanhado de um CD com 14 faixas ao vivo em estúdio da banda acrescida do trio de metais norte-americano The Freakboy Horns), Nando Reis passeia por suas colaborações tocando canções que foram sucesso com Cássia Eller (“O Segundo Sol”, “All Star”), Cidade Negra (“Onde Você Mora”, parceria com Marisa Monte) e Skank (“Ali”), entre outros.

Do Titãs, grupo que integrou de 1982 a 2001, entram no set list canções como “Família” e “Marvin” (presentes no registro de BH) além de “O Mundo é Bão, Sebastião” e “Os Cegos do Castelo”. Quando perguntando se “Isso Pra Mim é Perfume”, do álbum “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” (1991), poderia aparecer em um show seu, despista: “Nunca toquei essa ao vivo! Tenho vontade, mas nunca toquei. Quando começou a turnê eu tocava ‘Igreja’ (do álbum ‘Cabeça Dinossauro’), mas parei de tocar também”.

Na entrevista que você pode conferir abaixo, Nando Reis fala sobre a inspiração para suas músicas, o mercado fonográfico, os lançamentos recentes e até futebol. Diz que gostou do mais recente (e elogiado) disco dos Titãs e que planeja entrar em estúdio em 2015 para gravar um disco novo de inéditas. “Já tenho algumas músicas feitas e estou morrendo de vontade de entrar em estúdio”, avisa. Aos 51 anos, Nando Reis ainda tem muito para cantar.

Nas suas músicas, você fala da sua vida, mas também acaba falando da vida de várias outras pessoas também, fãs seus que “se apropriam” das suas músicas. No meu caso e da minha esposa, em particular, a música “Por Onde Andei” conta um pouco, quase com exatidão, a nossa estória. Não deixei as roupas penduradas, mas até o roubo do carro dela aconteceu. Inclusive, a música tocou no nosso casamento (mas não vou lhe pagar um centavo, porque você já é um dos 10 maiores arrecadadores de direitos autorais do Brasil). Então, são canções particulares, que se transformam em plurais. Essa forma de criar, de contar estórias de pessoas que você nem conhece e sequer sabe que está contando as histórias delas, isso é intencional? Ou simplesmente acontece naturalmente?
Não há nenhuma intencionalidade nisso. Escrevo sobre as coisas que sinto, mas acredito que o que aconteça comigo, os problemas, ou as questões, ou as emoções, são análogas e são semelhantes à de muita gente. Essa é a graça das músicas. (Existem) Tantas músicas que ouvi e não foram feitas por mim, que me identifico muito e que me fazem ver a minha própria história. Acho que isso acontece especialmente em música, mas há também filmes e peças que as pessoas vão e pensam: “Nossa, isso é exatamente aquilo o que acontece comigo”. É um mistério.

Acho que todo mundo que tem a chance de falar contigo deve sempre querer saber da história de suas músicas, todas são muito cheias de detalhes. O All Star azul, o apartamento no décimo segundo andar. Então houve mesmo esse roubo de carro – relatado em “Por Onde Andei”?
Houve. Foi a partir dessa situação, inclusive, que eu… o cara que assaltou nosso carro apontou a arma para mim e fingiu que ia disparar, mas não disparou, e (esse fato) me deu aquela sensação absurda de como a vida é frágil, de como uma dessas infelicidades (ou felicidades, já que não houve disparo) te fazem ver que você é mortal. Isso é muito chocante. Viver é uma graça, mas, ao mesmo tempo, você pode atravessar a rua e… ir embora assim como foi meu amigo Marcelo (Fromer).

Pois é. Você já contou em outras entrevistas o quanto os falecimentos do Marcelo e da Cássia Eller lhe chocaram muito. E você tem muitas músicas que foram sucesso na voz dela, da Cássia Eller. E também do Jota Quest, Skank… Você gosta mais de ser compositor ou cantor? Você gosta de ver os seus sentimentos interpretados por outros artistas?
Gosto de tudo, de todas essas coisas. É claro que músicas minhas que foram cantadas pela Cássia, pelo envolvimento e amizade que tive com ela, foram muito gratificantes, mas gosto de fazer músicas para poder cantar.

Você já passou por Fortaleza com a turnê do disco “Sei”, antes do lançamento do DVD “Sei Como Foi Em BH”. Por ocasião daquele show escrevi: “O músico parece ter estudado na mesma escola de Bruce Springsteen, variando setlists e arranjos das canções – às vezes até variando as letras –, fazendo com que cada show seja uma experiência única mesmo com o mesmo conjunto de músicas como base”…
Você acabou de descrever de maneira precisa o que gosto de fazer no palco. É claro que tenho um show ensaiado, uma banda muito afiada, mas, às vezes, não é nem a título da mudança no repertório, a intenção, a forma como a música sai dependo do que acontece ali. O show, como sempre digo, não é apenas uma apresentação. Não é o artista que decide. A interação com a plateia é que muda totalmente e que direciona a intensidade do que acontece no palco.

Mais uma vez você vai estar acompanhado da banda de pop-rock Zero85, que já abriu vários shows seus, em Fortaleza e em Natal. Você tem tido contato com eles?
Não, meu caro, infelizmente é muito difícil porque a vida é corrida. Fico feliz por poder abrir espaço para bandas que não são tão conhecidas poder tocar pra muita gente. Fico feliz por eles.

E sobre um disco novo? Já existe algum plano sobre um novo álbum de inéditas? Você já está compondo / contando a história de mais alguém?
Não, eu vou tentar gravar um disco no ano que vem. Já tenho algumas músicas feitas e estou morrendo de vontade de entrar em estúdio e gravar um disco novo.

E sobre o preço do disco “Sei”: você foi um dos primeiros (senão o primeiro) artistas brasileiros a deixar os fãs decidirem o preço de venda do álbum, semana a semana, antes de permitir que chegasse às grandes lojas de varejo. Qual foi o resultado disso?
Foi uma experiência interessante. Na verdade eles davam uma sugestão de preço e a gente tirava uma média dessas sugestões e o preço variava semanalmente. Agora ele ficou fixado em R$ 20, que é um preço, enfim, que a gente estabeleceu a partir de toda a média desse um ano e meio. Foi uma experiência muito interessante. Porque as pessoas não compram mais disco, não tem mais loja, então quanto elas se dispõe a pagar por um disco de que gostem? Tudo isso é um processo dinâmico pra gente se perguntar, porque gosto de gravar e fazer os discos e me preocupa o fato das pessoas perderem o interesse por isso. Eu acho isso tão estranho.

“Sei Como Foi em BH” teve o DVD gravado ao vivo em Belo Horizonte, mas o CD foi gravado em estúdio, poucos dias depois. O som fica bem mais limpo, mas sai um pouco aquela energia que a gente sempre vê shows. Por que você e os Infernais optaram por isso?
Eu queria ter o registro mais controlado e gravar algumas outras coisas que eu não tinha feito. Gosto de entrar em estúdio e então aproveitei que eu tinha gravado o show para o DVD e decidi dar o disco (de estúdio) de brinde para as pessoas.

Você dedica suas músicas aos seus amores. Dedicou o disco “Drês” à sua ex. Hoje está de volta com a mãe dos seus primeiros quatro filhos – inspiração de “Back In Vania”. Ela não se incomoda quando você canta músicas como “N” e “Hi Dri”, que inclusive está no CD que acompanha o DVD “Sei Como Foi em BH”?
Não, cada música nasce por alguma razão, mas a motivação de cantar cada uma delas muda a cada dia. Não canto homenageando apenas quem eu fiz, canto homenageando o que sinto.

Os Titãs eram 8, depois viraram só 7, numa tragédia viraram 6, sem você viraram 5, e agora são só 4. E, por incrível que pareça, eles lançaram o melhor álbum em muitos anos. Você já ouviu o disco “Nheengatu”?
Ouvi, ouvi e achei muito bom.

Gostaria de comentar algo sobre ele? Ou sobre os Titãs?
Não. É muito difícil. Gosto tanto deles que qualquer comentário que eu faça é comprometido por essa admiração e por essa amizade.

Há chance de algum dia podermos ouvir “Isso Pra Mim é Perfume”, do álbum “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora” (1991), dos Titãs, num show do Nando Reis?
Putz, nunca toquei essa música ao vivo (na carreira solo)! Tenho vontade de tocar, mas nunca toquei. Quando começou a turnê eu tocava “Igreja”, mas parei de tocar também. Não, nada contra, é que são tantas músicas que não dá pra tocar tudo.

E essa é uma de suas letras mais curiosas, digamos assim.
É, não é todo mundo que gosta não (risos).

Como foi esse encontro com os Freakboy Horns e como surgiu a ideia de coloca-los no disco?
Os conheci em Seattle quando gravei o disco e foram os melhores arranjos de metais que já tive gravados em disco. E os chamei pra vir se apresentar comigo no Rock In Rio 2013. Por isso pedi para eles escreverem os arranjos e eles gravaram esses arranjos que estão no “Sei Como Foi em BH”. Eventualmente quando consigo faço show com metais. Acho que algumas músicas, especialmente “Coração Vago”, ficaram lindas. Eu adoro.

Você é torcedor do São Paulo, então o que você está achando do desempenho do time no Campeonato Brasileiro?
Está ótimo, bonito, finalmente o São Paulo está jogando um futebol gostoso. Fazia tempo que não via.

– Daniel Tavares (Facebook) é jornalista, mora em Fortaleza e já escreveu para o Scream & Yell sobre Amadou Diallo e Bruce Springsteen (aqui) e Roberto Carlos (aqui)

Leia também:
– “Nheengatu”: enfim um grande disco dos Titãs (aqui)
– Titãs em noite irrepreensível faz melhor show do Porão do Rock 2014 (aqui)
– Ainda hoje, “Cabeça Dinossauro” é o grande disco dos Titãs (aqui)
– “Dres”, de Nando Reis e Os Infernais, privilegia o rock setentista (aqui)
– “MTV ao Vivo”, Nando Reis e os Infernais, por Leonardo Vinhas (aqui)
– Nando Reis ao vivo no Centro Cultural Fiesp, por Marcelo Costa (aqui)

6 thoughts on “Entrevista: Nando Reis

  1. Saudade do Nando Reis dos Titãs, do Nando Reis de Igreja e Hereditário… O atual mais parece querer ser um “Wando” da classe média. Aquele DVD bailão do ruivão é constrangedor!

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