Balanção Planeta Terra 2013

por Marcelo Costa
fotos por Liliane Callegari e Marcelo Costa

São Paulo, 23h35 de 09 de novembro de 2013. No último vagão de um trem da linha azul do metrô, um grupo de pessoas faz uma cantoria desafinada e emocional entoando “Tender”, a bela música do Blur, e quem entra nas estações seguintes engrossa o coro, num misto de felicidade e realização que diz muito sobre a edição 2013 do Planeta Terra, que acabara de findar minutos atrás, mantendo o alto nível de qualidade de um dos festivais que melhor trata o público neste pobre país de Amarildos.

Na manhã ensolarada do mesmo sábado, porém, o cenário que aconteceria à noite ainda era cercado de (algumas) dúvidas e (muitas) expectativas: como será que o Planeta Terra iria se portar neste primeiro ano de parceria do festival com a produtora T4F? O Campo de Marte, que dividiu opiniões quando do show do Black Sabbath semanas antes, teria sido uma escolha acertada para receber o Planeta Terra? Qual Blur os paulistas iriam ver encerrando o festival: o do Hyde Park ou o da primeira noite no Coachella 2013? Para festa geral, tudo correu bem na edição 2013 do Planeta Terra.

Se perde em charme para o Playcenter e, principalmente, para as edições do festival na Vila dos Galpões, o Campo de Marte pareceu bem adaptado para receber as 27 mil pessoas que bateram ponto no aeroporto militar da capital paulista, embora possa melhorar caso a produção decida firmar o lugar como nova casa do evento: um longo gramado subutilizado poderia receber tendas para que o público se proteja do sol (ou da chuva, nunca se sabe) e uma pequena alteração na posição dos dois palcos talvez evite que o som vaze de um para o outro, como aconteceu em alguns shows, sem muito incomodo, mas perceptível.

A parte de serviços, uma das marcas positivas do Planeta Terra, também esteve acima da média, embora muita gente tenha reclamado das filas para comprar fichas (o que a disponibilização de mais caixas talvez resolvesse) e retirar bebidas, água e cerveja principalmente (esta última, Skol Beats em versão 269 ml sendo vendida a R$ 7 – na porta, antes de adentrar o festival, ambulantes vendiam Stella Artois e Heineken de 350 ml por R$ 5). Os novos banheiros funcionaram bem e a experiência positiva de ir e vir sossegadamente de metrô, com o festival respeitando os horários, precisa ser elogiada – e mantida.

Quanto aos shows, O Terno fez uma ótima apresentação em que não faltaram músicas novas, covers de “Canto de Ossanha” e “Trem Azul” (o refrão “um sol na cabeça” fazia muito sentido naquele momento caloroso do dia) e a versão da banda para “Papa Francisco”, canção do vocalista e guitarrista Tim Bernardes, gravada por Tom Zé. O pop adolescente e incipiente de Clarice Falcão veio na sequencia e recebeu uma acolhida surpreendente, com boa parte do público cantando as canções e gritando o nome da cantora, reflexo do poder da internet em tempos atuais, que faz até cantorazinhas serem tratadas como estrelas.

B Negão e os Seletores de Frequência abriram o dicionário de clichês do dia atacando a PM, em um show pesado e suingado. O hit “Essa É Pra Tocar no Baile” foi um dos momentos grandiosos da tarde no festival, que ainda teve os moleques ingleses do Palma Violets se esforçando ao máximo para parecer relevantes em um show simpático que regurgita chavões do punk rock mal tocado britânico de Sex Pistols a Libertines, e teve no hit “Best of Friends”, seu grande momento. Um show divertido para quem não conhece História e quer viver a vida ao máximo enquanto o papai paga água, luz, telefone celular e a maçã raspadinha.

O Travis fez um show bonito e açucarado juntando boas canções novas (“Where You Stand”, “Moving”, “Mother”) com hits graciosos como “Driftwood”, “Side”, “Sing”, “Flowers in the Window” (em momento acústico) e, claro, “Why Does It Always Rain On Me?”. No outro palco, praticamente na mesma hora, The Roots mostrava sua mistura de r&b, jazz, blues, reggae, soul e hip hop numa pegada que valorizava o suingue com um resultado versátil e dançante – e que contou até com uma Sousafone no palco, o maior dos instrumentos de sopro, da família das tubas. Funcionou como passatempo – enquanto sonhamos com um show de Prince.

A reta final do Planeta Terra 2013 começou com o sol partindo e Lana Del Rey chegando, embora a musa já estivesse presente nas redondezas do Campo de Marte em dezenas de versões de camisetas vendidas por camelôs e coroas de flores ostentadas por fãs. Logo nas duas primeiras canções, ela riscou dois clichês presentes na agenda de todo artista gringo fazendo show no Brasil: desceu para tocar as mãos do público e voltou enrolada numa bandeira verde e amarela. A histeria dos fãs em vários momentos cobria a voz da cantora e o som de sua banda, monótona, e quem ficou apreciando uma tímida missa pop perdeu um dos grandes shows do ano no país: Beck.

Ninguém sabia direito o que esperar da apresentação de Beck no Planeta Terra, doze anos depois de um show mediano no Rock in Rio, mas o cara deu pistas de que a noite seria especial assim que pisou no palco e abriu o show com o hit “Devil’s Haircut”. Nos primeiros 10 minutos já tinha gastado seus dois maiores trunfos, tocando também “Loser”, mas a excelente banda não deixou o clima cair, passeando classudamente pela discografia do músico e por estilos variados (rock, blues, folk e soul, hip hop, country) numa apresentação tão envolvente quanto experimental. A dupla de canções do álbum “Sea Change” (“The Golden Age” e “Lost Cause”) foram uma bela surpresa num show que ainda teve versões para “Tainted Love” e “Billie Jean”.

Com a responsabilidade de fechar a noite (e de se sobrepor ao show impecável que Beck acabara de fazer no palco 2), o Blur jogou pra galera, mas jogou com vontade e carisma, num repertório de hits que deixou centenas de fãs afônicos após a apresentação, que começou a 300 quilômetros por hora com “Girls & Boys” e “There’s No Other Way”, comoveu na dobradinha “Coffee & TV” e “Tender” (com direito a metais e quarteto de backing vocals), e alcançou momentos de perfeição irretocável nas versões de “Parklife”, com direito a presença de Phil Daniels no palco, “End of a Century”, “For Tomorrow”, “The Universal” e com ensandecida versão de “Song 2”. Pra ficar na memória.

O saldo final do Planeta Terra é, mais uma vez, positivo, e abre uma expectativa excelente para os anos vindouros da parceria T4F/Terra. Porque um grande festival não se faz apenas com grandes shows, mas também com tratamento respeitoso com o público, que no embalo da emoção continuará vivendo a experiência do evento fora do local, seja nas ruas da cidade, seja na mesa do bar, seja em um vagão de metrô no final da noite de um sábado especialíssimo. Aperte o play e faça coro: “Come on, Come on, Come on / Get through it / Come on, Come on, Come on / Love’s the greatest thing”…

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por Leonardo Vinhas
fotos por Liliane Callegari e Marcelo Costa

Planeta Terra. Lugar estranho para se estar, mas na maioria das vezes, é o único lugar que temos. Afinal, é neste planeta que vivemos nossas emoções, onde habitam aqueles que já foram nossos heróis, aquelas que nos excitam, os que podem nos surpreender… e nos aborrecer. Na analogia fácil que o nome do festival permite, é possível criar piadas e metáforas sem fim. Mas muitas vezes metáforas são apenas uma maneira de dizer indiretamente o que não queremos dizer às claras. Perdendo tais pudores, é possível escrever um relato mais honesto de um festival modesto em ambições de público (a produção não esperava mais que 30 mil pessoas), mas algo ambicioso em seu marketing e em suas pretensões… emocionais.

Sim, emoção. Porque nada mais explicaria a presença de bandas que foram importante para uma geração que foi adolescente há mais de 15 anos (Travis, Blur), ao mesmo tempo que trazia artistas importantes para quem ainda é adolescente (Lana Del Rey e, numa escala bem menor, Palma Violets). A porcentagem do público “de festival” (aquelas pessoas que pouco se importam com quem está no palco, e que aumenta a cada evento nas grandes cidades brasileiras) era pequena, comparada, por exemplo, ao Lollapalooza. Quem esteve no quente sábado no Campo de Marte era gente que sabia cantar “To The End”, do Blur, do começo ao fim; ou que berrava a letra de cada canção de Lana Del Rey. Um festival com fãs, portanto.

E é assim que, quando cheguei (16h), pude ver que havia fãs de B Negão, escalado para o palco principal com seus Seletores de Frequência. Mesmo que bastante deslocada no line up, a banda desempenhou bem, apesar do ex-Planet Hemp não ter um carisma à altura de suas canções. A mesmice de seus vocais, seus clichês performáticos e a tolice da maior parte de suas rimas não estão à altura do groove dos Seletores de Frequência. Ainda assim, rendeu uma festa bacana (e não “de bacana”), com a porção feminina de nossa linda juventude mostrando os benefícios de uma alimentação saudável em roupas sumárias e dancinhas sensuais. Breve e simpático, como convém a um show sob um sol terrível, mas que pode render mais na mão de um mestre de cerimônias melhor.

Enquanto isso, no Palco Smirnoff (o lado… “alternativo”, digamos assim), os Palma Violets faziam seu punkinho mais do mesmo. Hora errada, lugar errado. Num boteco escuro qualquer, para 100 pessoas, deve ser melhor que em um campo aberto, com sol a pino. Vocais gritados, distorção, meninos bonitos que vão virar velhos feios… você conhece o esquema. Entraram, deram seu recado e saíram. Alguns viram, uns tantos gostaram, ninguém se lembrará. Já o The Roots acha que faz música elaborada e sensual. Ninguém acredita, e o repórter prefere descobrir qual barraca de comida ainda tem açaí. Uma tarefa bem mais agradável do que ouvir o “groove de duplex decorado” que os negrões executam. E fica a lição do Alice Donut: o único jeito de incluir a tuba na música pop é o escracho, queridos. Não dá para usar uma tuba a sério, a menos que você seja o Hypnotic Brass Ensemble. E vocês, The Roots, não são.

A tarde avança, o sol não dá trégua e a tal “emoção” cobra sua vigência quando o Travis entra no Palco Terra. Em disco, é fácil ter má vontade com a coxice da banda, mas ao vivo, Fran Healy sabe ser simpático sem forçar a barra. E os hits da banda são bons. Pop simples, honesto e bem feito, ponto final. Teve marmanjo chorando em “Driftwood” e “Writing to Reach You”, e até cínicos acharam bonita a versão de “Flowers In The Window” só com violão e teclado, com Healy circundado pela banda, num clima de “somos todos amigos”. Curioso: a canção mais execrada do bom “The Invisible Band” foi uma das saudadas com maior entusiasmo. Prova de que boas canções resistem aos humores de sua época. Teria sido mais legal com menos sol (desculpe a insistência, mas estava quente), mas ainda assim, valeu.

A noite chega, e o público, literalmente, se divide. A massa adolescente delira com cada gesto ensaiado e previsível de Lana del Rey. O “resto” (um público heterogêneo demais para ser resumido) se surpreende com Beck, acompanhado de quatro excelentes músicos que desfiam versões pesadas e muitíssimo bem-executadas de “Devil´s Haircut”, “Novacane” e “Loser” logo de cara. Encontrar um “fã” de Beck – alguém com disposição para conhecer a fundo sua longa discografia (11 LPs, 3 EPs) – no público não seria tarefa fácil, mas não foi uma minoria que se surpreendeu com o groove, o peso e a execução de canções que, graças à unidade da banda, não destoavam entre si, mesmo indo do blues ao funk. Showzão para castigar o esqueleto e dar uma segunda chance à carreira de estúdio do norte-americano (“filho do Roberto Leal com o Marvin Gaye”, como brincou alguém na plateia). E a Lana? Bem, quem a acha diva vibrou. Mas quem tem divas costuma ser condescendente com elas…

… e a condescendência é algo que não cabia ao Blur. Mesmo com boa parte do público mais jovem já fora do Campo de Marte, o local parecia lotado. Muitos querendo ver de perto o quarteto que tinha marcado suas vidas, definido suas emoções com “End of A Century” e inspirado amores com “Tender”. Já estavam, portanto, com o jogo ganho, mas mesmo assim, fizeram valer o dinheiro e o esforço de quem tinha aguentado firme até ali. Com o show completo (o que inclui metais e um coro de quatro vozes), os ingleses entraram matadores e saíram cansados. No meio disso tudo, hits irrepreensíveis (mas precisava “Trimm Trabb” e “Caramel”?), Damon Albarn se mostrando um gigante de carisma, gente chorando em “To The End” e “Tender”, mais uma versão ótima de “Parklife” com a participação do ator Phil Daniels. Tudo muito bom, tudo muito bem… mas difícil evitar a sensação de que bom mesmo teria sido vê-los quando ainda eram uma banda (digamos, nas apresentações de 1999 por aqui) e não funcionários de sua própria fama. Sabe a tal “emoção”? Então, essa coube inteiramente ao público, porque no palco, tudo era profissional e extremamente bem-feito. Só que meio… vazio.

Encerrada a (boa) festa que foi essa Planeta Terra, ficava a certeza de haver vivido um dia divertido, o que está bom demais em tempos bicudos (ou em qualquer tempo). Mas se houvesse vontade de refletir, daria para pensar que aquela pessoa que você era em 1998 está morta e enterrada, e os heróis dela não estão mais preocupados em saber se dá para ressuscitar o cadáver. Aí, esse mesmo fantasma descobre que quem continua legal é o amigo pra quem nunca deu importância (Travis) e que o outrora mala (Beck) aprendeu a ser gente fina. Coisas da vida.

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por Bruno Capelas
fotos por Liliane Callegari e Marcelo Costa

A semana que antecedeu o Planeta Terra de 2013 foi chuvosa, fria e cheia de nuvens em São Paulo, como se um mau presságio caísse sobre o evento. Entretanto, o sol que brilhou forte na capital paulista durante o sábado do festival afastou as dúvidas de quem temia problemas com a mudança de local (que, depois de sair do Playcenter em 2011, passou pelo Jockey Clube no ano passado) e de produção (com o comando dividido entre Terra e Time for Fun), dando o tom certo para que o dia começasse bem no Campo de Marte, na zona norte da cidade.

E o festival começou, ao menos para este escritor, com os paulistanos d’O Terno, que em 40 minutos de show se mostrou deslocado num palco tão grande, tocando para uma plateia mais preocupada em se refugiar na sombra do que curtir. Com suas guitarradas emprestadas dos anos 60, covers espertos de “Canto de Ossanha” e “O Trem Azul” (o sol na cabeça, sempre ele) e canções bacanudas de sua própria lavra, como “Papa Francisco Perdoa Tom Zé” (gravada pelo músico baiano em “Tribunal do Feicibuqui”) e o semi-hit “66”, O Terno fez o melhor show nacional do festival, mesmo que pouca gente tenha visto.

Na sequência, a “revelação” do ano, Palma Violets. Um amigo dizia que eles eram o novo Vaccines. Outro argumentava que se tratava do Sex Pistols da geração 00, mas um Sex Pistols cujo maior hit é “sobre um cara que tem a chance, mas não quer transar com a melhor amiga pra manter a relação como está”. No palco, o Palma Violets faz um rock básico, cheio de riffs esporrentos de três ou quatro acordes. No calor tropical do Campo de Marte, com cimento, poucas árvores e muito bafo, talvez o melhor adjetivo para definir essa apresentação seja eficaz. E há algo de muito errado com uma banda de rock quando ela pode ser nomeada com uma palavra que vem direto do mundo corporativo. Sign’o the times, sign’o the times.

Foi preciso regressar ao final da década de 1990 para que o Planeta Terra tivesse seu primeiro grande momento real. Pisando pela primeira vez no Brasil, os escoceses do Travis – aquela banda que o Coldplay sempre quis ser e nunca teve talento suficiente – soube fazer o público cantar com louvor e alegria, especialmente na segunda metade do show, quando a banda abriu seu caminhão de hits, com direito a extremos como a rodinha de pogo afetiva (aquela na qual se pede desculpa depois de uma cotovelada) em “Side” e o momento clichê-acústico de “Flowers in the Window”. Entre os dois, uma galera animadíssima cantava a melô do cheque em “Closer” (“Cruza, cruza/é nominal, é nominal”, em uma piada que os fãs de Lana del Rey não entenderiam), todo mundo se abraçava em “Sing” e Fran Healy brilhava no hino dos Charlies Brown da vida, “Why Does It Always Rain On Me?”. Um show para colar com Super Bonder quaisquer corações partidos que estivessem no Campo de Marte. Amor.

Por falar em amor, amor demais também pelas fãs de Lana del Rey, que, com suas coroas de flores na cabeça, fizeram o Planeta Terra 2013 um festival lindíssimo e perfumado. Uma pena que todas elas tenham ido ao Campo de Marte para ver uma grandiosa farofa-fá, sem bacon nem ervilha para acompanhar. A histeria dos fãs (que, no olhômetro, respondiam, por baixo, por 40% do público presente) era inversamente proporcional à voz de Lana, que chegou cheia de pose, saiu carregada de presentes e badulaques e ainda deu um selinho num felizardo garoto. Cercada por uma banda competente (mundo corporativo, você de novo por aqui?), Lana mostrou seus hits dignos de Antena 1, que apareceram em uma mixagem bizarra, que aumentava o volume das caixas de som apenas nos refrães. Muito barulho por nada.

Enquanto isso, no outro palco, Beck fazia um típico “show para entendidos”. A cada música, uma nova ideia surgia no ar, e para quem não conhece a carreira do cantor a fundo foi difícil acompanhar as coisas depois que o norte-americano gastou seu maior hit (“Loser”) logo na terceira faixa e fez uma cover maluca para “Tainted Love”, aquela mesma composta por Ed Cobb, originalmente gravada por Gloria Jones, em 1964, e transformada em sucesso mundial com Soft Cell, em 1981. Quem ficou até o final saiu dizendo que era o show do ano, mas àquela altura do campeonato, era preciso guardar pernas e energia para o Blur.

Talvez seja válido criticar o line-up deste Planeta Terra por seu caráter revisionista. Afinal, excluindo Lana e o punk para negócios do Palma Violets, quem fez a diferença no festival foram bandas com quase duas décadas de estrada, com um headliner que está numa turnê de reunião há tempos e toca um repertório que é basicamente greatest hits. Parece ser uma desculpa para jogar fácil demais. Mas quando um time nega o resultado simples para jogar bonito, se esforçando no palco como uma Seleção de 70 com seus maiores craques, essa crítica fica meio torta e tudo que resta dizer é: “here’s your lucky day”.

De volta ao país depois de catorze anos, o Blur só não fez chover no Planeta Terra. Damon Albarn continua cantando como antes, botando todo mundo para dançar em “Girls and Boys” ou despedaçando corações em “End of a Century”, além de comandar um dos maiores hinos gospel da igreja chamada música, “Tender”. O anti guitar-hero Graham Coxon, por sua vez, é a chave para momentos brilhantes como “Coffee & TV” e os solos de “This is a Low”, “Caramel” e “Trimm Trabb”. Isso para não falar na participação icônica do ator Phil Daniels em “Parklife”, do romance com a lua em “To The End” e da beleza do bis, que teve “For Tomorrow”, “Under the Westway” e “The Universal”. No fim, tudo virou festa, suor e felicidade em um bate cabeça com grandes amigos em “Song 2”, a cereja no bolo de um show inesquecível.

No saldo geral, este foi o melhor Planeta Terra dos últimos anos. Ainda que a cerveja cara, grandes filas para comprar fichas e retirar comida e bebida e problemas com a retirada de ingressos tenham marcado negativamente o dia de muita gente, a produção acertou em muita coisa: do horário pontual e da localização à estrutura dos banheiros, passando pela qualidade do som e pelo melhor cabeça de cartaz em anos. Falta um bocado para que se chegue ao alto nível dos festivais europeus, mas hoje o Terra continua muito à frente de seus concorrentes, fazendo com que a gente se esqueça dos perrengues típicos de ir a um festival no Brasil e possa se concentrar no principal: ouvir boa música ao lado dos amigos – e voltar para casa cantando no metrô como se não houvesse amanhã. Oh my baby, chega logo 2014.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Liliane Callegari (@licallegari) é fotógrafa. Veja a galeria completa de fotos do festival aqui
Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yel
Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e assina o blog Pergunte ao Pop

Todas as fotos por Liliane Callegari com exceção das imagens de Beck, Travis, O Terno e Lana Del Rey, por Marcelo Costa, e as últimas fotos de Beck (por Mauro Pimentel, do Terra) e Blur (por Ricardo Matsukawa, do Terra).

Leia mais
– Planeta Terra 2007: CSS, Devo e Rapture fazem bons shows (aqui)
– Planeta Terra 2008: Indie bate o Mainstream no segundo festival (aqui)
– Planeta Terra 2010: uma noite púrpura hip-hip-hipster (aqui)
– Planeta Terra 2011: quatro olhares sobre um mesmo festival (aqui)
– Planeta Terra 2012: muito melhor do que a expectativa previa (aqui)

18 thoughts on “Balanção Planeta Terra 2013

  1. Assino embaixo de todos pontos positivos (e até gostei do pedaço que vi do show da Lana… :p).

    De ponto negativo só faltou falar do GRANDE problema dos caixas estarem sem sinal para compras no cartão. Quem não levou cash, dançou.

  2. Boa, Fred.

    Não passei por esse problema porque quando cheguei as máquinas estavam funcionando. Será que foi algo momentâneo ou ficou assim o dia inteiro?

    Ps. Festivais gringos disponibilizam caixas eletrônicos para que a galera retire dinheiro se necessitar.

  3. Parabéns, gente! A cobertura ficou ótima e as fotos lindas! Agora tive uma ideia do que rolou perder sem culpa e o que eu não posso deixar de ir da próxima vez! 😉

  4. O sinal das maquininhas de cartões tava ok na hora que fui (15 min antes do Beck começar), mas faltou informação da divisão de comidas (Yaksoba era num canto, pizza no outro, frango no outro). (E no rock in rio tinha caixa do itaú)

  5. A cada ano o Planeta Terra tem menos atrações que eu quero ver (em 2010 eram cinco, em 2011 e 12 eram quatro e nesta edição apenas três); para piorar, houve a sacanagem de terem colocado Beck num palco diferente do Blur e no mesmo horário da Lana Del Rey. Mesmo assim, essa foi a edição da qual saí mais satisfeito, e o motivo não poderia ser outro: Blur.
    Foi um dos melhores shows que vi na minha vida. A escolha do repertório foi perfeita – e devo discordar do Leonardo quanto a “Caramel” (que é melhor ao vivo do que no disco) e “Trimm Trabb”, pois achei legal tocarem tantas músicas do “13”. Foi realmente um “greatest hits”, mas eles escolheram muito bem a ordem das canções: começaram com 2 hits dançantes; em seguida, tocaram canções mais melódicas; a fase “13” do show não desanimou o público (pelo contrário; fiquei surpreso com o tanto que “Tender” é um hino para os fãs de Blur!); o Damon desceu pra galera em “Country House”; tocaram várias do “Parklife” (destaque para a faixa homônima e a belíssima “This is a Low”); e, no bis, começaram introspectivos com “Under the Westway”, ficaram épicos com “For Tomorrow” e “The Universal” e fecharam com a eletrizante “Song 2”. Eu, minha namorada e nossos amigos estávamos em êxtase quando acabou.
    P.S.: Travis foi legal, mas as músicas deles são muito parecidas entre si… De toda forma, os destaques foram “Sing” e a dobradinha “Flowers in the window” e “Why does it always rain on me?” no final. Já o show da Lana Del Rey foi sonolento, insuportável; senti muita vergonha alheia das fãs dela, e o tempo todo fiquei pensando naquele texto publicado ano passado no S&Y, “A dialética Grant-Del Rey”, rs.

  6. Acho que o Bruno Capelas viu o show do Travis ao lado dos meus amigos 😉 …e a torre de copo de cerveja?

    Minha primeira vez no Planeta Terra e gostaria de salientar que a organização foi muito boa. Realmente um exemplo para muitos festivais desorganizados que pintam por ai. Não sou de SP e ir e voltar de metrô foi uma enorme facilidade. Uma pena somente as filas para bebida, esse problema da falta de sinal para a maquininha de cartão, e a extorsão de 20% de taxa de “conveniência” da Ticket for fun

  7. O melhor dia de música que já tive nesta minha vidinha. Não que eu tenha ido a muitos festivais, mas esta edição do Planeta Terra, mesmo sem nenhuma banda que eu possa chamar de “essa é uma das minhas preferidas”, facilmente superou os shows que vi delas, as minhas preferidas. A cada ano fico com mais medo deste festival por que minha espectativas estão cada vez mais altas. Rs. Até agora, estão superando. Tomara que continuem nesse ritmo. Precisamos de dias tão gostosos para viver e dançar.

    Ninguém falou sobre o tobogã e sobre as bolas coloridas na hora do bis do Blur! As bolas deram um clima lúdico ao negócio. Achei o máximo.

  8. “Ninguém falou sobre o tobogã e sobre as bolas coloridas na hora do bis do Blur! As bolas deram um clima lúdico ao negócio. Achei o máximo.”
    Bem lembrado, Alice! Me diverti à beça com o tobogã e com as bolas (e foi engraçado ver o Graham chutando uma delas do palco quando “Under the Westway” tinha acabado).

  9. bacana! bons textos, rapazes, boas fotos, enfim, mostraram por que foram pra bagaça. beck deve sim ter sido fodástico e blur é bom pra ficar rouco e depois ter raiva de ter ficado rouco. muito bom.

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