EP Record Store Day, Giancarlo Rufatto

por Marcelo Costa

Quem costuma me acompanhar pelas redes sociais já deve ter se deparado, em algum momento, com alguma foto da minha estante de CDs – muitas vezes ao fundo de algum copo de cerveja, o vício atual. Meu débito para com a música é eterno. Eu não estaria aqui se não fossem os discos, e essa estante, e os vinis, CDs e boxes que continuo comprando são um presente para aquele cara do século passado que gastou 70% de seu primeiro salário comprando vinis.

Por isso, encaro o Record Store Day como um natal particular, e se morasse nos Estados Unidos ou na Europa, onde a data é comemorada com lançamentos exclusivos, boxes de raridades, compactos de época, e o escambau, talvez já tivesse ido à falência. Criado oficialmente em 2007, e sempre festejado no terceiro sábado de abril (neste ano, dia 20), o Record Store Day celebra não só a música, mas as lojas independentes que continuam respirando em mundo de megastores, iTunes, Spotify (e zilhões de cópias) e downloads piratas.

“Devo muito às lojinhas e acho que elas vão durar apesar da escassez de compradores”, aposta Giancarlo Rufatto, um compositor paranaense que também acredita na força do lo-fi e no lema punk “do it yourself”: ele grava desde sempre suas canções no conforto do lar e as lança logo depois na internet (http://giancarlorufatto.blogspot.com.br): “Fico em casa, plugo o microfone e faço alguma coisa. Nas duas últimas semanas gravei um cover de tarde, e coloquei à noite no Soundcloud”, contou certa vez a Bruno Capelas, numa longa entrevista publicada no Scream & Yell em agosto de 2011.

Rufatto estava preparando um EP especial para o Record Store Day, e decidimos unir forças: “EP Record Store Day 2013” pode ser baixado com exclusividade no Scream & Yell (e em todo o site parceiro que quiser disponibiliza-lo!). O disquinho virtual traz três faixas próprias: “Para-Raios” abre com guitarras e uma frase forte: “A faca em suas mãos é o que restou por esperar pela sorte que não vem”; embalada por violão e gaita, “Indulto de Natal” compila lembranças e prêmios de consolação; essencialmente acústica, “Ele” fecha o lado autoral do EP.

Como bônus, “EP Record Store Day 2013” traz uma versão para “Quase”, canção que encerra o quinto álbum do Pato Fu, “Isopor”. A pedido do Scream & Yell, John Ulhoa ouviu a versão. “’Quase’ nunca foi um hit, mas tem seus admiradores. Estou sempre recebendo pedidos pra tocá-la ao vivo. Acho que é pelo clima meio de valsa pop achada no lixo… e sempre temos um coral dos losers (incluindo eu) no final. A versão do Giancarlo é bem legal, mantém o clima meio lo-fi e largado dos instrumentos”, diz John.

Além da música, Giancarlo Rufatto chamou a atenção de muita gente ao criar um tumbr especial para sua filha, quando ela ainda estava na barriga da mãe. “50 Discos Para Cecilia” (http://50discosparacecilia.tumblr.com/) era a tentativa do autor de conversar com a filha sobre “a música pop empoeirada na nossa estante”, e acabou indo muito além disso. “A ideia inicial era terminar a brincadeira bem antes do nascimento, mas ai calhou do povo gostar do blog, rolar umas matérias bem legais em jornais, revistas, sites e a parada ficou muito grande”, explica Rufatto, que acabou criando sessões especiais e continua monologando na web com sua filha (agora com dois meses).

Abaixo, um papo rápido com Giancarlo Rufatto. O disco você baixa clicando na imagem abaixo.

Você já fez vários covers (de Engenheiros do Hawaii a Leandro & Leonardo). Desta vez você escolheu Pato Fu. Por que os mineiros e por que “Quase”? Se o John Ulhoa ouvir, ele vai curtir?
Existe uma certa cronologia inconsciente entre o que eu gravei antes e o que eu vou gravar agora ou depois. Comecei com coisas de quando tinha 10 anos e agora estou na fase dos meus 17, 18 anos, tanto que a duvida para este EP era regravar Pato Fu ou “Gerson”, da Bidê ou Balde. As duas foram gravadas, mas “Quase” rendeu muito porque era uma canção que eu namorava há muito tempo, tinha muito a ver com o tipo de música que faço, meio lo-fi, sem pretensão. Acho que os discos do Pato Fu – “Televisão de Cachorro”, “Isopor” e “Ruído Rosa” – soam bem atuais, poderiam ter sido gravados hoje. Eu mandei uma “DM” para o John falando da versão, homenagem e tal. acho até que peguei leve com a versão se comparado ao dia em que estraguei “Ando Só”, e Humberto Gessinger curtiu no Twitter (hahaha).

Você ainda compra discos de vinil? E CDs?
Compro, mas criei algumas regras: 1) compro só os favoritos, os da ilha deserta. 2) o que não for favorito não pode custar mais de 10 reais. Curitiba tem boas lojas de discos e sebos com um acervo enorme a preços bem legais – até fiz uma listinha pra ajudar no 50 discos para Cecília. O principal problema do vinil sempre foi o espaço, não tem como você ter uma bela memorabilia morando num apartamento de 40m². (Já) o CD é uma mídia-zumbi-fetiche sobrevivendo do nicho de pessoas saudosistas do tempo em que a mídia custava 16 reais e o salário era 120. Hoje, 2013, o CD morto-vivo custa os mesmos 16 reais e então você olha a lista de projetos de mecenatos e tem lá 2000 artistas querendo fazer 2000 novos CDs. Que preguiça. Hoje, um artista só precisa fazer 100 CDs que é pra entregar pra 100 jornalistas. O resto te acha no Soundcloud.

O que você acha do Record Store Day?
Devo muito às lojinhas e acho que elas vão durar apesar da escassez de compradores. Já venceram o My Space e a Trama Virtual. O que a internet matou das lojas de discos e que não tem volta é aquele papo com o vendedor que te abria os olhos para coisas que você nunca ouviria. Este ano eu estava cheio de planos para o Record Store Day. Queria organizar uma feira de vinil com shows, lançamento de singles virtuais por bandas curitibanas e tal, mas infelizmente não rolou nenhuma das ideias. O povo não saca muito da diversão que é brincar com essas datas, com singles comemorativos, com versões, ficam nessa coisa de lançar discos de 12 musicas que só são ouvidos até a faixa 6. Mas talvez em 2014 a parada role…

Como está a Cecilia? O blog que você fez em homenagem a ela (e, claro, ao seu próprio passado musical) fez um sucesso danado, hein. Você esperava isso?

A Cecília está bem, com dois meses, o blog dela está com seis meses e ainda restam uns 20 discos na lista. A ideia inicial era terminar a brincadeira bem antes do nascimento, mas ai calhou do povo gostar do blog, rolar umas matérias bem legais em jornais, revistas, sites e a parada ficou muito grande. O jeito foi armar uma cauda longa para o blog com umas sessões mais fáceis de cumprir uma média de posts que fica mais difícil à medida que ela cresce – e como vai demorar até ela saber ler, ainda posso brincar com o blog por bastante tempo. A coisa mais legal de escrever o blog foi reparar como as pessoas ainda prestam atenção quando o assunto é música e crianças, é um nicho infinito, você deveria experimentar.

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