Sistah Mari lança “Ascender”, um disco mais plural, e defende o dançar e o pensar: “A gente rebola com a mão na consciência”

entrevista de Leonardo Vinhas

“Nós do reggae estamos acostumados a coisas como ‘vamos tacar fogo no sistema’. Já cantei muito disso nas minhas letras. Porém, hoje, na atual situação do país, acho que a gente não pode só tacar fogo no sistema, a gente precisa incentivar e ensinar as pessoas, reeducar as pessoas”. Quem diz isso é Mariana Soares, ou melhor, Sistah Mari (@sistahmari), “mulher mãe preta da periferia”, como faz questão de dizer, e uma artista cujo trabalho deixa todos esses elementos de origem à mostra.

A música de Sistah Mari é fortemente influenciada pelos muitos ritmos da jamaica – praticamente só o ska fica de fora da receita, que engloba reggae, rub-a-dub, lovers’ rock, dub e muito dancehall. Mas ela tem elementos do batidão das periferias, permitindo até mesmo uma cumbia villera, ainda presente nas periferias mais austrais da América do Sul. E se você ainda tem dúvida dessa pluralidade e dessa representatividade, é só escutar as letras e entender o terreno onde você está pisando.

Esse discernimento cognitivo não parece ser comum a todos os ouvintes, porém. Sua militância online contra um candidato que se opõe abertamente à cultura, às garantias trabalhistas e à proteção social lhe rendeu prejuízos e ataques. Mas, mais que nunca, Sistah Mari está disposta a seguir com o que acredita, e “Ascender” (2026), seu recém-lançado segundo álbum (ouça aqui), é a prova dessa decisão. Foi esse disco que ampliou seu leque musical para além do dancehall que caracterizava o disco de estreia, “Evoluir” (2023), e que veio de uma decisão de criar uma trilogia focada em seu próprio amadurecimento.

As canções de “Ascender” foram criadas pela própria artista em parceira com com os produtores Ras Lillo e Piroupo. A faixa de abertura, o dub “Rebel Ato”, é dedicada a Rodrigo Rebelato, professor, mentor e amigo de Mariana, impressiona em seu peso grave (“foi a última faixa a ficar pronta, e a mais difícil de fazer”, conta). Rodrigo Loli ficou encarregado dos arranjos adicionais, mixagem e masterização. Um trabalho coletivo – o único tipo que faz sentido para Sistah Mari. Esse é um dos temas que abordamos nessa conversa, juntamente com o processo de feitura de “Ascender”, a necessidade de viver e não apenas sobreviver, o cenário sinistro pairando sobre o país e a luta para ser ouvida em um país que trata suas maiorias como minorias.

“Ascender” foi anunciado como parte de uma trilogia, que começou com o “Evoluir”. Qual o conceito dessa trilogia: o que você espera comunicar com ela?
Só tive essa ideia (da trilogia) após lançar o “Evoluir”. Meu primeiro álbum representa, acima de tudo, o meu próprio amadurecimento, um processo que me fez entender que eu tinha muito mais coisas a dizer. Com isso, eu fiz o “Ascender”, numa construção conceitual de quem está no reggae, porque venho me desenvolvendo totalmente focada na evolução, na resistência da mulher preta, da mulher periférica, a mulher-mãe. Esse disco me despertou totalmente para isso tudo: além de ter as minhas composições, eu também participei ativamente na realização: escrevi o projeto [para o edital], fiz toda a parte de documentação, produzi os instrumentais também. É o primeiro disco que eu assino também como produtora musical. E essa mudança me revelou que a minha trajetória é feita de passos firmes, sabe? Passei a me entender mais ainda mais como cantora, compositora e produtora.

O primeiro disco era bem dancehall, era a influência sonora mais forte ali. Esse tem muito mais elementos da música jamaicana, com influências de roots reggae, dub, lovers rock, etc. Essa expansão foi uma coisa sua ou uma criação coletiva, junto com seus parceiros?
Isso veio de mim mesmo, porque assim… eu, Sistah Mari, já tenho quase 20 anos de trabalho. Quando comecei a cantar, eu vinha numa linhagem mais roots, falava mais de rastafari. O dub também passou por uma parte da minha vida também, tive um grupo chamado Dawta’s of Aya, que se apresentou no Rototom Sunsplash, um dos maiores festivais de reggae do mundo, Nesse disco eu quis trabalhar mais isso, fazer mais o que eu gosto. Tenho bastante público de dancehall e por isso quis consolidar esse estilo no primeiro disco, era o que eu mais vinha trabalhando nos últimos cinco anos. Porém, pensei: por que não retornar às raízes? Vou fazer o rub-a-dub, inclusive tem uma faixa do disco (“Leoa Sedenta”) que é uma cumbia … Eu quis trazer um pouco de tudo e também brasilidades, já que tem uma música chamada “Bem Vindo ao Brasil” em que eu quis usar alguns instrumentos de percussão de samba e da música popular brasileira. Esse disco foi muito divisor de águas, eu queria fazer um pouquinho de tudo que a gente tem no reggae, os vários subgêneros dentro dessa cultura. Na verdade, nesse segundo disco eu queria conversar com todos, poder tocar em outras pessoas que não sejam só as pessoas do meu ciclo.

Essa era outra pergunta que eu ia fazer para você. Como você vê sua música chegando para pessoas que provavelmente não conhecem a sua história ou a realidade que você retrata?
Então, agora na atual situação do país, está complicado e não está. Acho que hoje a gente – eu e outras cantoras que são minhas referências – está conseguindo chegar em outros espaços. Mas pra isso, a abordagem precisa ser feita de uma outra forma. Nós do reggae estamos acostumados a coisas como “vamos tacar fogo no sistema”. Já cantei muito disso nas minhas letras. Porém, hoje, na atual situação do país, acho que a gente não pode só tacar um fogo no sistema, a gente precisa incentivar e ensinar as pessoas, reeducar as pessoas. Nós, mulheres negras, temos que fazer um trabalho três vezes melhor que um cara pra gente ter um espaço. Às vezes sou qualificada naquele papel, porém não tenho a melanina que eles procuram, não tenho o cabelo como eles querem, então é mais difícil. Tento conversar, principalmente com mulheres brancas. Procuro mostrar não o “meu” lado, mas o lado real, o lado da periferia mesmo, porque para mim, como uma mulher negra periférica no Brasil, a emancipação é coletiva, sabe? Não é sobre eu subir sozinha. Eu queria ocupar mais espaços, espaços que nos foram negados, e puxar os meus comigo. Para isso, preciso quebrar mais barreiras. Quis fazer justamente isso com esse disco novo. Não quis só fazer algo dançante, quis fazer algo consciente. Não que a gente não possa dançar, né? A gente rebola com a mão na consciência. Porém, eu quis chegar nessas outras pessoas com uma outra linguagem. Procurei usar o português correto. A cultura de sound system é como se fosse uma batalha de rima, o artista tem que ali cantar uma letra em cima daquela base instrumental que está rolando na hora. Então você acaba falando sobre vários temas e nesse disco eu quis trazer algo mais consciente, e ao mesmo tempo dançante. Inclusive até me questionaram: “Pô, você quer falar sobre o olhar para dentro, mas aí você canta um dancehall?” Mas a gente usa o que a gente tem, né? Passo por vários sentimentos, esse disco tem um momento de luto, mas tem também músicas sobre o empoderamento de outras mulheres. Isso é tudo pelo que um corpo passa. Não queria engavetar esses sentimentos e essas sensações. Eu queria colocar para fora, para que outras pessoas que não sejam do meu nicho também possam se olhar para dentro. Pô, realmente existem pessoas que estão em condições, tipo assim, piores… Porque a gente às vezes a gente acha que o nosso problema é o maior, que eu sou a dona de todos os problemas, “só acontece comigo”. Mas existe uma preocupação maior. Estamos vivendo tempos difíceis, nós que somos mulheres mães pretas da periferia. Estamos em tempos cruéis. Tenho uma filha adolescente e quero deixar esse legado para ela, quero que ela construa algo, sabe? E não é uma construção que se faz sozinha, a gente depende dos demais, de toda uma comunidade.

Como você disse, a gente já tá num momento terrível e tudo indica que a gente vai viver tempos mais difíceis ainda.
Sim.

Então, antes de falarmos na sua perspectiva disso como artista, queria saber o que você está sentindo nesse momento – como pessoa mesmo. Como você imagina que vão ser os próximos anos para pessoas como você, mulheres pretas, mães da periferia?
Eu me sinto frustrada. Após essa eleição, na segunda-feira após o primeiro turno, eu acordei com um sentimento de perda, de dor. A gente está aqui lutando pra virar esse jogo (nota: a entrevista aconteceu na semana seguinte ao primeiro turno). Mas infelizmente a gente tem muitas pessoas fascistas no nosso país, né? Se o outro lá (Flavio Bolsonaro) for o presidente, será que eu continuarei viva? Essa pergunta eu me faço. Será que eu vou estar aqui ainda para contar a história? Estou deixando as minhas obras aí, porque se em um futuro lá na frente eu não estiver, eu tenho obras que eu tento passar essa visão para as pessoas. Mas me sinto frustrada em relação à política do nosso país. Sou uma artista, gosto muito de me posicionar politicamente, e com isso a gente ganha amigos e também grandes inimigos. Eu estava com quase 30 mil seguidores, conquistados de forma orgânica, e após o meu posicionamento político… Muitas pessoas que me conhecem sabem o meu posicionamento, mas eu comecei a ser mais direta, a fazer mais vídeos falando sobre os assuntos e mostrando realmente de que lado estou. Com isso perdi muitos seguidores. Perdi quase 10 mil seguidores. Aí eu paro e penso que a gente está regredindo de uma maneira… É como você sabe quando você vai fazer uma prova do Enem e o portão fecha na sua cara por um segundo, sabe? Sinto isso às vezes. Tipo, bate um medo, e bate um desespero também.

E como você encontra forças para navegar no meio de tudo isso? Eu sinto que você tem esse senso de missão com a sua música, e as suas letras têm um enfrentamento, mas também têm um lado muito grande de esperança. De onde vem isso? De onde tirar essa esperança?
Para mim, tudo só faz sentido se for no plural. Esse disco, “Ascender”, me mostrou isso. Aquela demagogia de que somos todos iguais é falsa, na verdade somos todos plurais, e vivendo a minha pluralidade, eu penso não só em resistir, mas eu existir também, sabe? Desejo devolver para a cena reggae autonomia, inspiração, fortalecimento da nossa estrutura. Eu quero que esse álbum sirva de espelho para outras mulheres pretas e periféricas que vejam que é possível liderar as próprias produções, deixar suas próprias narrativas, sabe? Eu quero devolver música com cultura ao meu público. Eu quero que eles acreditem também que lá no final a gente pode fazer alguma coisa, porque a revolução começa de dentro para fora. E eu sou mãe – e como mãe a gente é cobrada 10 vezes mais. Meus filhos são a minha verdadeira inspiração para não desistir, para continuar. Mas penso também em mim mesma. Eu passei por uma gestação bem turbulenta na pandemia. Era uma gestação de risco, eu quase morri mesmo, e naquele momento eu parei para me analisar, me autoavaliar sobre os meus bons feitos e o que eu poderia fazer para melhorar. Com isso, eu criei um projeto de fotografia, porque eu sempre tento procurar fortalecer outras mulheres. Ter outra mulher que tá passando por um momento difícil ou uma mulher que ela pensa em desistir da vida, como a gente conhece muitas e muitos que já foram, como meu amigo que perdi (Rodrigo Rebelato),isso me fez mais pensar sobre a vida, sobre viver, se eu tô vivendo da forma correta, se eu tô aproveitando ao máximo a oportunidade que eu tenho. Então, quando eu consigo salvar uma mina de algum problema, quando consigo aliviar um pouco mais para ela, isso me motiva, sabe? Porque quando estive assim, eu tive mulheres que seguraram minha mão e falaram para mim que era possível. Eu precisava acreditar em mim, mas não acreditava muito, eu não me via como artista. Eu era muito amadora. A partir do primeiro disco que eu lancei, eu comecei a me olhar de outra forma e ver que realmente meu trabalho salvou outras mulheres. É como uma música que eu tenho, chamada “Somos Todas Marias”. Essa música me levou a lugares, me fez conhecer pessoas, mulheres que viviam uma luta tão grande que a minha parecia um grão de areia perto das lutas delas. Então eu acredito que ver outras mulheres vencendo, não desistindo, isso é o que mais me motiva a continuar. Eu sou da COHAB aqui da Zona Leste de São Paulo, então eu tenho muito essa parada de coletivo. Aqui na minha quebrada tem várias ocupações, é uma quebrada rica culturalmente, e eu tenho medo disso acabar, sabe? Medo de não ter mais esses polos culturais aqui pra gente. Porém, enquanto artistas e fazedores de cultura, nós somos uma multidão aqui, então, ver que tem outras pessoas, outras Marias, outras Marianas, continuando esse legado, é o que me mantém de pé.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“. A foto que abre o texto é de Miguel Salvatore

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