Três filmes: “Godzilla Minus Zero”, “Assalto à Brasileira”, “Klara e o Sol”

textos de Leandro Luz

“Godzilla Minus Zero / ゴジラ-0.0”, de Takashi Yamazaki (2026)
Após o sucesso do primeiro filme, Takashi Yamazaki retorna ao universo do Gojira (junção de palavras em japonês que misturam dois animais, o gorila e a baleia) em “Godzilla Minus Zero” (“ゴジラ-0.0”, Takashi Yamazaki, 2026). Dois anos se passaram desde os eventos traumáticos que fizeram o monstro nipônico favorito de muita gente destruir um punhado de metrópoles e matar milhares de pessoas em um Japão já desmantelado após a Segunda Guerra Mundial. Seguimos acompanhando as desventuras do casal Koichi (Ryunosuke Kamiki) e Noriko (Minami Hamabe), as quais envolvem provações que vão se tornando cada vez mais fastidiosas e moralmente difíceis de serem superadas. Quando uma nova ameaça paira sobre a sociedade japonesa, as tensões entre o Japão e os Estados Unidos aumentam, gerando faíscas políticas interessantes para refletirmos acerca do pós-guerra e dos perigos de um desastre nuclear que tirou o sono da humanidade em diversas ocasiões. Em última instância, os melhores comentários gerados a partir dos filmes de Godzilla costumam ser sobre os dilemas e os traumas da guerra, além do pânico diante da fragilidade da vida na Terra e da possibilidade de finitude por meio da destruição nuclear. Yamazaki, além de roteirizar e dirigir, também lidera a equipe de efeitos especiais, que aqui são ainda mais impressionantes do que no filme anterior. Se nesta nova fita as sequências de ação ganham força (há uma cena com aviões particularmente memorável), o melodrama é bem menos interessante do que vimos anteriormente. A diversão é garantida, logicamente, e contrariando a logline divulgada para a imprensa (“tudo termina aqui”), o gancho para uma próxima aventura está mais do que bem desenhado.


“Assalto à Brasileira”, de José Eduardo Belmonte (2025)
José Eduardo Belmonte nunca foi tão prolífico. Cineasta paulista radicado em Brasília, dirigiu filmes de grande vulto como “Billi Pig” (2012) e “Alemão” (2014), e só em 2025 produziu três longas-metragens, dentre eles “Assalto à Brasileira”. Multipremiado na edição do ano passado do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Melhor Filme pelo Júri Popular, Melhor Ator para Murilo Benício e Melhor Ator Coadjuvante para Christian Malheiros), o filme segue o azarado Paulo (Benício), jornalista que acaba de ser demitido de um grande jornal e vai ao banco sacar o dinheiro da sua rescisão apenas para se ver preso num assalto pouco comum. O enredo é baseado no famoso assalto à agência central do Banestado, ocorrido em 1987, na cidade de Londrina, no Paraná. Belmonte acerta no tom cômico – ajudado pela aptidão de Benício no trato com a comédia -, sem perder o controle, inclusive, das cenas que exigem maior dramaticidade ou mesmo habilidade no manejo da ação (como na perseguição do ônibus na parte final). Há espaço até para alguns arroubos maneiristas. Reparem como, logo de cara, a decupagem flerta com o cinema de Brian De Palma no uso de trilhos e de steadicam para os travellings da sequência de abertura. Aqui e ali, timidamente, Belmonte coloca as asinhas para fora e arrisca fugir do óbvio. A trupe de assaltantes amadores é liderada por Moreno (Malheiros), e apesar dos excessos – muitas vezes os diálogos entre o grupo servem-se de chavões dignos de um Zorra Total da vida -, trazem um comentário interessante para o filme sobre a nossa identidade como brasileiros. Paulo Miklos, bem limitado, faz um papel pequeno como chefe de polícia pau-mandado. Belmonte usa os créditos iniciais para contextuar a época com cenas documentais da realidade brasileira do final dos anos 1980 e, a partir disso, opera em duas vias: retrata os jovens criminosos como vítimas da desigualdade socioeconômica do país e complexifica as discussões a partir do conceito sociológico da cordialidade, criado pelo historiador e escritor Sérgio Buarque de Holanda em seu livro “Raízes do Brasil” (1936).


“Klara e o Sol / Klara and the Sun”, de Taika Waititi (2026)
O cineasta neozelandês mais pop de sua geração (14 anos mais jovem do que o Peter Jackson, vale lembrar) ataca novamente com mais uma obra esquecível. “Klara e o Sol” (“Klara and the Sun”, Taika Waititi, 2026) não é particularmente melhor do que “Jojo Rabbit” (2019), o filme mais celebrado de Waititi e que lhe rendeu um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 2020, nem do que “O Que Fazemos nas Sombras” (“What We Do in the Shadows”, codirigido com Jemaine Clement, 2014), longa-metragem que o tornou conhecido nos Estados Unidos e no mundo, o qual ainda rendeu uma série de sucesso da FX cinco anos depois. A régua é baixa, convenhamos. Jenna Ortega interpreta Klara, uma exemplar do modelo B1 da série de robôs intitulada “Amiga Artificial” (AA), construída para combater a solidão de adolescentes cujas famílias são financeiramente bem resolvidas para bancar a aquisição. Em uma loja junto a outros AA’s e guiada por uma gerente amalucada (Natasha Lyonne, fazendo a manutenção de todos os tiques pelos quais é conhecida), Klara espera ansiosamente que uma jovem se encante por ela e a salve do fim mais terrível de todos: retornar à fábrica e ter as suas peças derretidas em prol da criação dos novos modelos B3 que dominam o mercado. Nossa protagonista-robô é devota do Sol, cuja luz é a principal fonte de energia para a sua estirpe, e pede fervorosamente ao seu Deus que a ajude a encontrar um dono. Ela é a única, aliás, a estabelecer uma relação de devoção e espiritualidade para com o astro, o que a torna imediatamente singular na comparação com os seus semelhantes. A sua súplica é atendida quando Josie (Mia Tharia) convence sua mãe (Amy Adams) a levá-la para casa – no universo ficcional da obra (inspirada no romance de ficção científica distópica lançado em 2021 pelo Nobel de Literatura Kazuo Ishiguro), a internet foi banida e os seres humanos tiveram que adotar outras formas de lidar com o ócio, premissa bem pouco explorada, aliás. Os desdobramentos do roteiro são pouco criativos tanto nas imagens sugeridas quanto no desenvolvimento da trama. Adams está no piloto automático e Ortega se limita ao chavão de caras e bocas robotizadas. Como era de se esperar, Waititi enfileira as suas habituais doses de fofura e otimismo na criação de um universo excêntrico e muito mais ingênuo do que deveria.

– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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