textos de Leandro Luz

“O Samurai e o Prisioneiro / 黒牢城”, de Kiyoshi Kurosawa (2026)
Kiyoshi Kurosawa é um dos cineastas mais versáteis da atualidade. Além de filmar com muita frequência, o roteirista e diretor de “A Cura” (“キュア”, 1997) e “Pulse” (“回路”, 2001) – clássicos alternativos (dá para chamar assim?) segue espraiando os seus interesses para as mais diversas formas de expressão a partir da linguagem cinematográfica. Dono de de um estilo bastante peculiar e de uma criatividade ímpar para erguer histórias originais, Kurosawa é frequentemente associado ao J-horror, subgênero que ajudou a estabelecer no Japão, mas também sabe filmar com destreza drama, ficção científica e filme policial como poucos, muitas vezes propondo misturas e rearranjos entre eles. “O Samurai e o Prisioneiro” é o seu filme mais recente, desta vez uma adaptação de um romance escrito por Honobu Yonezawa que mistura drama histórico (os eventos se passam no século XVI) com mistério. Kurosawa coloca samurais e lordes em um whodunit (narrativa cujo eixo central gira em torno da tentativa de se solucionar um crime) mais interessado em intrigas e charadas do que propriamente em grandes combates. O filme começa com Araki Murashige (Masahiro Motoki), nosso protagonista, já em estado de insurgência contra o tirânico Nobunaga Oda – uma espécie de inimigo fantasma que jamais dá as caras – e enquadrado dentro das muralhas de seu castelo, apreensivo com a ideia de um traidor dentro de seu próprio exército. Kanbei Kuroda (Masaki Suda), um mensageiro, é feito prisioneiro e se torna uma espécie de consultor estrategista para a resolução dos sucessivos mistérios que se impõem à resolução de Murashige. Kurosawa se sai bem, como de costume, ao filmar esse bando de homens entre paredes e ainda arruma espaço para adotar com frequência o bom humor. Um belo acerto em uma filmografia bem acima da média.

“Projecto Global”, de Ivo M. Ferreira (2026)
Talvez “Projecto Global” (Ivo M. Ferreira, 2026) faça sentido para a juventude progressista portuguesa, mas por aqui soa ingênuo demais, novelesco no pior sentido da palavra. Diante de obras semelhantes brasileiras que tentaram retratar, por meio do cinema, momentos importantes da nossa história como a Ditadura Militar de 1964, por exemplo, “Projecto Global” empalidece. Falta ao filme de Ferreira o charme de um “O Agente Secreto” (Kleber Mendonça Filho, 2025) ou a classe de um “Ainda Estou Aqui” (Walter Salles, 2024) – e olha que são dois filmes que também possuem as suas fragilidades. A comparação não é necessariamente injusta, ainda que seja um pouco óbvia, admitamos. “Projecto Global” é um filme que deixa muito a desejar tanto em termos técnicos quanto em criatividade. Se esforça tanto para reconstruir época – uma Lisboa pós Revolução dos Cravos, já nos anos 1980 – e esquece do que verdadeiramente importa aqui: os personagens e as suas motivações. A trama excessivamente intrincada, os planos mirabolantes dos revolucionários da FP25, um grupo armado de extrema-esquerda, e as cenas de roubo a banco e emboscadas debaixo de túneis só disfarçam o vazio geral da proposta, tanto do ponto de vista da dramaturgia quanto do estilo adotado pela direção. Resta ao filme a boa presença de Jani Zhao, que interpreta Rosa, a personagem de maior nuance e que sobrevive, aos trancos e barrancos, às traições, aos amores e aos tiroteios aos quais é submetida.

“Zi”, de Kogonada (2026)
Mais uma parceria entre a atriz Haley Lu Richardson e Kogonada, pseudônimo de Park Joong-eun, cineasta nascido na Coreia do Sul e radicado nos Estados Unidos, que primeiro ficou conhecido no meio do cinema pelos vídeo-ensaios e, posteriormente, pelo interessante “Columbus” (Kogonada, 2017), seu longa-metragem de estreia. Com “Zi”, o cineasta ambienta a história de uma jovem assombrada por visões de si mesma no futuro enquanto caminha pelas ruas de Hong Kong. O filme apresenta um conceito um tanto fantasioso, ainda que bem definido, mas se concentra nas relações humanas ao invés de dar muita trela para o aspecto ficcional que orienta essas visões. Boa parte do tempo, a protagonista que dá nome ao filme, interpretada por Michelle Mao, luta contra a ideia de que está enlouquecendo, ao mesmo tempo que espera, aflita, por um diagnóstico que pode dar positivo para um tumor cerebral. Ela precisará atravessar a madrugada insone enquanto aguarda a resposta que só virá pela manhã, quando voltar ao centro médico. Quando Zi parece que vai perder a cabeça de vez, ela esbarra com Elle (Richardson), que imediatamente demonstra a maior empatia do mundo para com a desconhecida. O design de som ajuda a compor esse universo de adrenalina e de incerteza vivenciado por Zi. À exceção de poucas cenas, Kogonada opta por embarcar na subjetividade da protagonista, se rendendo a uma montagem fragmentada meio óbvia, mas eficiente até certo ponto. O filme sai de Sundance com o checklist completo: personagens excêntricos, cantos e risos num karaokê e foco na emoção que surge de uma amizade improvável. Kogonada quase se perde com as subtramas que inventa, mas logo corrige o prumo e encerra com cuidado a sua singela narrativa.
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– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
