Mapa do Vinil: conheça a Lado 2 Discos, em Santo André, no ABC Paulista, uma loja com curadoria de qualidade e preço bom

entrevista e fotos de Elsa Villon

O garimpo de vinis têm ganhado cada vez mais espaço, principalmente entre os mais jovens. Mas os nem tão jovens já estão nessa atividade há longas décadas, mesmo com a ascensão e declínio de outras mídias físicas, como a fita K7 e o CD. O compact disc, surgido em 1982, ultrapassou o vinil em vendas globais pela primeira vez em 1988, e a partir do ano seguinte, muitas gravadoras deixaram de produzir lançamentos em vinil (sucatendo as fábricas, como contou Luiz Valente, da mineira Vinyl Land, aqui no Scream & Yell anos atrás).

Se a década de 1990 marcou o império do CD, os anos 2000 foram o fundo do poço para os fãs de vinil, cuja produção caiu cerca de 99% em relação a seu auge, na década de 1970 – queda motivada não apenas pela massificação dos players de compact disc e a chegada de reprodutores de música digital, mas também pelo surgimento das redes de compartilhamento peer-to-peer (como o Napster) e a popularização do MP3 (ou “quando a música ficou grátis“).

Nesse período, quem sempre gostou das bolachas deleitou-se na arte do garimpo percorrendo sebos, bazares beneficentes, brechós de antiguidades e donos desapegados que buscavam livrar espaço nas casas. Vinis clássicos, como o “Revolver”, dos Beatles, podiam ser encontrados em sebos pelo custo de R$ 15 em excelentes condições. Eram outros tempos e a capital paulista sempre contou com esses espaços próprios para encontrar tesouros esquecidos.

Muita coisa mudou na década de 2010 e o mercado de vinis se aqueceu crescendo exponencialmente nos últimos três anos: em 2024, representaram 76,6% do comércio de mídias físicas no país, de acordo com o Relatório Mercado Brasileiro da Música, produzido pela Pro Música e lançado em março de 2025, tornando o Brasil o 8º maior mercado fonográfico mundo. Mas o mesmo relatório traz o dado: apenas 0,7% do total de R$ 3,958 bilhões de faturamento vieram pelas mídias físicas.

Embora tímido em faturamento comparado a streamings e apresentações públicas, a retomada das mídias físicas tem cada vez mais adeptos e comprar vinis neste século nunca esteve tão em alta. E tão inflacionado. Pensando nisso e na questão territorial, a série Mapa do Vinil vai trazer o circuito de ofertas de comércio de vinis nas 7 cidades da região metropolitana de São Paulo, dando voz e visibilidade a comerciantes que estão no meio e contam suas trajetórias, entre lojas físicas e online.

A Lado 2 Discos, na esquina da Rua Santo André, número 331, loja C, na cidade de Santo André, no ABC Paulista, abre a série e vai além disso: você encontra CDs, camisetas, um espaço para falar sobre música, além de eventos com artistas que fecham a rua e garantem momentos históricos. Saiba como foi o papo com Márcio 2 e separe um tempo para ir visitar a loja com calma:

 

Marcio 2, como começou a sua trajetória no mundo dos vinis?
Tenho 58 anos e sou natural de Santo André. Minha história com disco começou em 1995, não necessariamente com vinil. Meu primeiro trabalho foi numa loja de vinil que estava na transição pro CD. Comecei no final de 1995 e, em 1996, abriram uma filial no Shopping Ibirapuera só de CDs. Trabalhei nessa loja (Painel Musical) por 11 anos, até 2007, quando resolvi sair porque o mercado estava incerto, o DVD estava muito forte e o CD caindo com a pirataria. Fui fazer outras coisas, viajei para fora e, em 2012, comecei a vender discos.

De vinil ou CDs?
De vinil. Descobri que tinha um mercado. Sempre comprei vinil, mesmo quando estava em baixa. Ia aos sebos em São Paulo nas folgas e comprava bons discos importados por R$ 2, R$ 3, R$ 5 no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000. Em 2012, descobri uma feira de vinil no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, e fui visitar. Levei uns 20 a 30 discos repetidos numa sacola, vendi alguns, troquei outros e vi uma oportunidade. Comecei a garimpar em sebos e a vender devagar nas feiras, de caixinha em caixinha, até 2020. Antes da pandemia, fazia só feiras e eventos. Na pandemia, me desliguei da empresa em que trabalhava e decidi continuar vendendo discos, pois já ganhava mais com isso do que com meu salário. Foi questão de tempo para abrir a loja física. Como trabalhava numa empresa de turismo, viajava todo ano para fora e garimpava discos nas férias. A loja física começou em casa como protótipo por uns 7 a 8 meses, até acharmos este ponto perto de casa. Estamos vendendo discos desde 2013 e com a loja física desde 2023.

Você falou que foi para fora e garimpava em alguns países. O que você destacaria dos garimpos bons?
Trabalhei em navios de cruzeiro e ia muito para a Europa, mas nessa época comprava para mim. Depois que me estabilizei e comecei a vender, fui três vezes para os Estados Unidos, para o Canadá e para a África do Sul. A África do Sul foi bem legal, consegui comprar bastante coisa. Os Estados Unidos ainda são o melhor lugar para comprar disco: em qualquer cidadezinha tem loja de disco, brechó, loja vintage ou vendas de garagem. Os preços subiram bastante da primeira para a última vez que fui, mas ainda há muita opção. Tem que ter um olho bom, esse é o trabalho de garimpo. Também garimpei no Rio de Janeiro, Espírito Santo e Vitória – que me surpreendeu bastante com coisas legais. Em Belo Horizonte não fui ainda, mas o Rio sempre foi muito bom. Agora está mais caro por conta do turismo e gringos comprando, o que fez com que os discos de música brasileira subissem de preço. Em qualquer viagem, tiro um ou dois dias para garimpar e trazer coisas para a loja e para mim. Brasília está no meu radar, sigo algumas lojas de lá pelo Instagram e acho interessante.

Qual é a sua primeira memória com vinil?
Em casa a gente gostava de música, mas não tínhamos um puta equipamento ou condições de ficar comprando discos. Minha mãe gostava de samba e forró; meu irmão mais velho ouvia muito Jorge Ben. Lembro que aos 9 anos ganhei um compacto do Gary Glitter, com a música “Rock and Roll Part 1”, e ouvia aquilo sem parar. Na adolescência, com um dos meus primeiros salários, comprei um disco de uma banda que hoje eu odeio.

Quantos vinis você estima que tem hoje aqui na loja?
Acho que entre 5.000 e 7.000 itens, contando LPs e CDs. No site (www.lado2discos.com.br) temos cerca de 7.000 itens cadastrados, mas disponíveis no estoque do site temos por volta de 3.500. Na loja física temos muito mais.

Como funciona a qualificação dos discos?
Existe um método universal de avaliação que vai da sigla P (Poor – péssimo) até M (Mint – novo/lacrado). Passa por Near Mint (NM – quase novo), VG+ (Very Good Plus), VG (Very Good) e F (Fair – aceitável).No nosso site, só cadastramos discos de VG para cima (preferencialmente VG+) para não correr o risco de um cliente do Nordeste ou de Manaus receber, reclamar e termos que arcar com o frete de devolução. Na loja física colocamos discos com pequenos detalhes ou marcas mais baratos na promoção, pois o cliente consegue ver e ouvir pessoalmente.

Quais seriam seus três discos favoritos no momento?
Qualquer coisa do Beastie Boys, como o “Check Your Head” (1992), Jorge Ben, com “África Brasil” (1976) e Jurassic 5, com “Quality Control” (2000). Mas tenho dificuldade com listas fixas porque o gosto varia com o humor, o tempo e as fases da vida.

Quais foram os momentos mais marcantes da loja física?
Para mim, muito especial foi o dia em que o BNegão veio discotecar aqui. Sou muito fã do Planet Hemp e da carreira dele. O evento ocorreu exatamente no Dia da Consciência Negra. Em 2023, no Dia da Consciência Negra, tivemos o show ao vivo do projeto Diálogos. E no aniversário de 1 ano da loja (inaugurada em 23 de abril de 2023), realizamos o evento Sintonia com o KL Jay e a DJ Ajamu, que foi tão grande que fechou a rua.

BNegão discotecando na Lado 2 Discos / Reprodução: Instagram

E qual é a história dos serviços da Lavo 2 Discos?
Sempre prezamos pela limpeza e manutenção. Recentemente, adquirimos duas máquinas de ultrassom para limpeza profunda. Eu já levava meus discos mais caros para lavar no ultrassom a cada 15 dias em São Paulo (com amigos do Pedradas do Colute e da VSP). Decidimos criar o serviço junto com o Zé Magaren (da Discos Salva). O nome “Lavo 2 Discos” foi sugerido pelo DJ Nato PK. Cobramos R$ 8 por disco individual, com descontos em pacotes e substituição do plástico protetor.

Quais são os planos para um futuro nem tão distante assim?
Queremos ser uma referência no ABC e em São Paulo. Mantemos um preço honesto para não inflacionar o mercado com valores delirantes da internet. Já vendi o “Clube da Esquina” por R$ 600 e por R$ 100. A dica para os iniciantes é não vir com uma lista engessada na mão buscando apenas discos caros e difíceis (como Michael Jackson, AC/DC, Clube da Esquina ou Novos Baianos). O legal é garimpar e se permitir descobrir oportunidades dentro de um orçamento estabelecido. Além da loja, temos o projeto do nosso selo musical Lado 2 Discos para lançar e apoiar artistas locais do ABC (o “território da fuligem”, como diz o Conde Favela). Já lançamos dois discos do Diego Stevan, um do Trio e um compacto do Conde Favela.

Defina a Lado 2 Discos numa frase curta.
“Curadoria com qualidade e preço bom.”

Acompanhe o Mapa do Vinil no Scream & Yell

Lado 2 Discos
Endereço: Rua Santo André, 331, Vila Assunção – Santo André
WhatsApp: (11) 97957-8052
Instagram: @lado2discos
Site: lado2discos.com.br
Funcionamento: Terça a sexta, das 12h30 às 19h; sábados, das 11h às 19h

– Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas. 

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