texto de Jorge Wagner
Guarde essa ideia: um caleidoscópio de cores e dores. A vida bonita e triste, perfumes e solidão, o doce das sobremesas, o sal das lágrimas.
Lançado originalmente em 2015, “A Minhoca Cega no Labirinto“, de Veeraporn Nitiprapha, chegou recentemente ao Brasil (via Editora Record, com tradução de Nut Traiphomi diretamente do original tailandês para o português), apresentando a história das irmãs Chareeya e Chalika, marcadas desde cedo por uma tragédia familiar, e Pran, um órfão acolhido por elas. Entre a infância e a vida adulta, os três constroem relações atravessadas por amores não correspondidos, desejos e desencontros.
Ambientado na Tailândia, principalmente entre a cidade ribeirinha de Nakhon Chai Si e a capital, Bangcoc, o romance combina música, gastronomia, natureza e memórias. A riqueza dessas referências locais acompanha o amadurecimento dos personagens e ajuda a compor o universo em que suas histórias se desenrolam.
Chareeya, a irmã mais nova, é inquieta, imaginativa e curiosa sobre o mundo. Na vida adulta, vai para Bangcoc, trabalha em uma loja de CDs e vive relacionamentos marcados por expectativas e desilusões. Chalika, a mais velha, é reservada, ligada à casa, e encontra na literatura um refúgio e uma maneira de imaginar o amor. Pran, por sua vez, é melancólico e introspectivo, e nem sempre consegue compreender ou expressar os próprios desejos. Os três compartilham a experiência do abandono e a busca por alguma forma de pertencimento, mas lidam com isso de maneiras distintas: Chareeya procura a vida em novas experiências; Chalika se refugia nas histórias que lê; Pran permanece ligado a um amor que raramente consegue transformar em escolha.
O que poderia ser apenas uma história sobre um triângulo amoroso desenhado ao longo dos anos ganha outras dimensões pela maneira como Nitiprapha organiza a narrativa. Em vez de avançar em linha reta, a história se constrói entre lembranças, saltos temporais e experiências que se iluminam retrospectivamente. O passado não fica para trás: reaparece nas escolhas, nos afetos e nas frustrações dos personagens. Os caminhos que parecem seguir adiante com frequência levam de volta aos mesmos lugares — o próprio labirinto.
Os personagens secundários ampliam a dimensão emocional da obra com histórias que abordam abandono, paternidade, instabilidade e desajuste social. É o caso de Tio Thanit, o comerciante itinerante de tecidos que assume uma espécie de papel de pai à distância na vida dos protagonistas antes de se perder pelo mundo; de Nual, babá das irmãs, cuja trajetória apresenta outras formas de organizar os afetos e a vida doméstica; e de Patra e Paradorn, pai e filho que ajudam a formar a identidade de Pran antes de marcá-lo por uma tragédia que, de certa forma, ele nunca há de superar. Mesmo quando aparecem brevemente, esses personagens trazem seus próprios dramas, que ecoam aspectos da trama principal e multiplicam as possibilidades de leitura.
Ainda que repleto de referências locais — geográficas, gastronômicas, culturais e até mesmo políticas —, “A Minhoca Cega no Labirinto” não se resume a uma obra de literatura tailandesa, daquelas que só poderiam ser lidas e compreendidas em plenitude por quem tem algum conhecimento prévio específico — para isso, as notas de rodapé parecem ser o suficiente. É também um livro global, tanto pela universalidade dos temas quanto por situar as referências locais no mesmo espaço e tempo de nomes como Robert Smith e Kurt Cobain — ou ainda de bandas como Catherine Wheel e Radiohead.
Belo, triste e profundamente sensorial — a ponto de quase ser possível ouvir as peças clássicas apresentadas por Tio Thanit, sentir a maciez de seus tecidos ou os aromas da cozinha de Chalika —, o romance brilha pela atenção ao atrito entre a delicadeza dos detalhes e a violência silenciosa do tempo, sua aspereza e as cicatrizes que esta é capaz de deixar em cada um dos personagens, em cada um de nós.

– Jorge Wagner é jornalista, produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell. Lançou em 2023 o álbum “Toda Forma de Adeus“.
