texto de Paulo Pontes
fotos de Leandro Godoi
Poucos dias antes de aportar no Brasil, a turnê de celebração dos 30 anos do Sonata Arctica enfrentou um baque na América do Sul. Em Montevidéu, um cancelamento em cima da hora acendeu o sinal de alerta entre os fãs: o vocalista Tony Kakko havia sido diagnosticado com laringite aguda e mal conseguia falar. A dúvida sobre as condições do músico e o futuro dos shows no Brasil durou até a sexta-feira, dia 2 de outubro, quando a banda subiu ao palco em Limeira. No dia seguinte, sábado (3), ao desembarcar na Audio, em São Paulo, o quinteto confirmou que o susto tinha ficado para trás, entregando uma noite de superação, nostalgia e forte sintonia com a plateia.

A responsabilidade de esquentar a casa ficou a cargo do Noturnall. Liderada por Thiago Bianchi (um dos vocalistas e frontman mais carismáticos e virtuosos do metal nacional), a banda subiu ao palco disposta a não deixar ninguém parado. Durante cerca de 45 minutos de apresentação, os caras demonstraram a habitual precisão técnica e um peso absurdo. A plateia paulistana demorou um pouco para engrenar, mas a energia incansável de Bianchi e a sonoridade afiada do grupo foram dobrando a desconfiança inicial e esquentando a Audio no ponto certo para a atração principal.
Quando as luzes se apagaram para anunciar o Sonata Arctica, a comoção tomou conta da casa. Henrik Klingenberg (teclados), Elias Viljanen (guitarra), Pasi Kauppinen (baixo), Tommy Portimo (bateria) e Tony Kakko assumiram seus lugares sob aplausos calorosos. Para quem acompanhou o drama da laringite no Uruguai, era perceptível que Kakko ainda administrava a voz e se recuperava dos dias anteriores. Só que o vocalista compensou qualquer limitação na raça e na presença de palco. Ele cantou muito, puxou o público para junto e esbanjou simpatia, contando histórias das três décadas de estrada da banda e agradecendo o carinho dos fãs brasileiros.

A abertura com “I Have a Right” colocou a Audio inteira para cantar junto do primeiro ao último verso. Sem dar descanso, a sequência com “Black Sheep”, “Paid in Full” e “Last Drop Falls” engrenou de vez o show, mostrando que a plateia estava inteiramente entregue à banda.
O grande trunfo da noite esteve na inteligência com que o repertório foi montado. O Sonata Arctica domina como poucos a arte de alternar a velocidade técnica do power metal com momentos de pura sensibilidade, e o setlist soube passear por essas duas facetas sem deixar o ritmo cair. Enquanto baladas como “Tallulah”, “Letter to Dana” e “Shy” criaram um clima intimista e emocionante, arrancando cantorias em coro, os momentos mais pesados garantiram a vibração lá no alto. A execução de “8th Commandment” resgatou a velocidade dos primeiros anos da banda. Outro destaque foi a clássica “FullMoon”. Um dos maiores hinos da história do power metal, a faixa promoveu o ápice da noite, fazendo a Audio vir abaixo enquanto as vozes bradavam o refrão.

Mesmo com um repertório enxuto para quem tem 11 álbuns de estúdio na bagagem, a escolha das músicas foi certeira do início ao fim. No bis, o quinteto retornou para dar o golpe final com a grandiosa “The Last Amazing Grays”, a intensidade de “Don’t Say a Word” e a tradicional descontração de “Vodka” para fechar a celebração em ritmo de festa.
O Sonata Arctica provou em São Paulo que 30 anos de carreira não se constroem por acaso. Mais do que passar por cima de um problema de saúde em plena turnê, os finlandeses mostraram no palco o peso da sua história e o tamanho do respeito que têm pelo público brasileiro, encerrando a noite com uma aula de entrega e a certeza de que ainda têm muita lenha para queimar.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
