entrevista de Leonardo Vinhas
Na figura de Samuel Béra, os papéis de músico e ativista se misturam e se complementam, e ambos estão a favor da identidade beradeira. Sua carreira soma quase 30 anos, quando começou solo na cena hip-hop de Rondônia, mas veio a se destacar à frente da banda Quilomboclada, uma agremiação tão numerosa quanto ruidosa que conseguia entregar no som todos os conceitos implícitos em seu nome.
Somente em 2025 que ele assumiu um vôo mais solo, agora sob o nome de Samuel Béra Band, mas ainda assim com um inegável caráter coletivo – afinal, letras, ritmos e figurino trazem os signos dessa já citada identidade beradeira. Isso porque, para Samuel Pessoa, como foi batizado, essa não é apenas uma questão estética. É, também, uma questão política, artística e pessoal. E, como ele explica nessa entrevista ao Scream & Yell, é ainda um ato necessário de resistência e sobrevivência em um estado (Rondônia) que não esconde sua vontade de apagar sua história originária para substitui-la por uma mais sulista, branca e agropecuária.
“Karipunagem“, de 2025, é o álbum que apresentou esse novo trabalho e o corpo de ideias que o sustenta. Ao contrário da Quilomboclada, onde a distorção e o peso percussivo dão o tom, esse novo projeto vem cheio de ritmos nortistas, como guitarrada e carimbó, misturados às influências latinas e da música “brega” que inescapavelmente ressoam pela região amazônica.
Entre o resultado ouvido no disco e o que foi apresentado ao vivo na edição 2026 do Festival Casarão, há uma diferença grande, e facilmente explicável: a banda não só não é a mesma que gravou o álbum como circulou bastante nos palcos brasileiros pelo projeto Sonora Brasil. Com a estrada, as canções adquiriram mais nuances e mais intensidade, e o resultado é um show imperdível, intenso e empolgante. Mas isso não quer dizer que o disco seja um trabalho menor. Mesmo com uma produção mais limitada, o ouro está lá, explícito nas músicas e nas letras. Se “Valha”, “Bate Cabeça”, “Lenitivo” e “Dança do Remo” não te fizerem dançar e cantar junto, algo está muito fora de ordem contigo.
No papo a seguir, Samuel contou a história de “Karipunagem“, apresentou as dificuldades de persistir em uma cena pouco sustentável financeiramente, e foi fundo no isolamento que a população originária da região amazônica sofre não só no resto do país, mas principalmente em sua própria terra.
Você tem uma longa história no rap, fundou a Quilomboclada, é ativista e agitador cultural. Então, a minha primeira pergunta é: o que que você quis expressar no “Karipunagem” que não cabia em nenhum dos outros trabalhos que você tem?
Esse é o meu projeto musical. A Quilomboclada foi meu primeiro projeto musical, mas é um projeto coletivo. Como diz o nome, ela tem esse sentido de quilombo, são várias pessoas lá dentro. E nos processos de composição da Quilomboclada, sempre tive dificuldades para conseguir implementar uma concepção mais contemporânea da música amazônica, porque a postura ali é mais voltada para um som pesado, bem mais rock and roll mesmo, guitarra mais distorcida, essas coisas todas. Isso é a minha praia também, é de onde eu venho, mas o “Karipunagem” foi fruto de um trabalho de pesquisa que fiz sobre a chegada dessa musicalidade amazônica vinda do Caribe, por isso é um som que vai para um ritmo mais brega, mais da cumbia e da guitarrada e do que a gente chama aqui no Norte de beradão – os forrós de beradão, criado no seringais. Eu queria criar uma estrutura musical que contemplasse esse conceito de uma música amazônica mais contemporânea, e na Quilomboclada eu não tinha essa esse espaço nem essa autonomia para definir repertório.
E o que é a “Karipunagem”?
É um neologismo que a gente criou a partir do termo “karipuna”, que são os povos originários aqui de Porto Velho. Antes de a cidade existir, era tudo território karipuna. Eles foram dizimados no período da construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré – quer dizer, não só no surgimento da cidade de Porto Velho, mas também pelos processos econômicos aqui do Estado, que foram os dois ciclos da borracha. Eles têm uma aldeia hoje, mas estão praticamente extintos (nota: para quem quiser saber mais dessa triste história de extermínio brasileiro, recomendamos essa leitura). No meu trabalho de pesquisa, percebi que eles foram os mais afetados entre os povos nativos, e por conta disso resolvi homenageá-los. Em termos ancestrais, o porto-velhense traz essa herança na música, na culinária, na arte, no artesanato, no jeito de falar, de se vestir. Isso é a “karipunagem”: a continuidade a partir do povo karipuna. Vai desde o primeiro momento, que é essa coisa dos encantados, a relação com a floresta, e aí vem para a coisa da urbanidade.
E ter o “Béra” no seu nome também é uma questão identitária forte, né?
Sim. Samuel Béra vem de beradeiro, aquele que saiu da mata e veio pra cidade, e depois entra pros festejos, ou pro que a gente chama de manifestejo, né? (risos) Só consegui trazer tudo isso na Samuel Béra Band porque eu tinha autonomia suficiente para definir repertório, analisar letra e cuidar da produção.
Cara, longe de mim querer ser “fiscal de ancestralidade”, mas fico curioso com uma coisa. Você é natural do Amazonas, não tem essa ancestralidade direta dos karipunas. Por que que você quis então resgatar essa ancestralidade da região, e não diretamente a de povos do Amazonas?
É porque estou em território karipuna! Fui pesquisar o que estava perto de mim, o que é aqui de Porto Velho, dos seringais daqui. Claro que tenho muita influência do lugar que eu vim, o Seringal do Mirari (em Humaitá, AM), mas os seringais nada mais eram que locais onde o caboclo era explorado. Quando os portugueses chegaram na Amazônia, eles ganharam essas terras não por conta do território de expansão, mas sim pelo o território econômico, como os ciclos da borracha, e expulsaram quem já estava na terra. Meus povos de origem provavelmente são os tenharins e os jiahuis, que habitavam essa região onde nasci. Mas não fui buscar minha raiz porque eu dialogava com um pesquisador e poeta de Porto Velho, o Barzinho – que é o nome artístico do Serpa do Amaral. Ele me apresentou o embrião da pesquisa, inclusive foi ele quem criou o nome “karipunagem”, e foi me contextualizando esses processos de exploração. Falei:”Pô, mano, isso aí dá um trabalho musical, deixa eu dar continuidade nisso”. E trabalhei a partir do que esse poeta já vinha fazendo, só que fazia de forma muito isolada, sem publicidade nenhuma. Os trabalhos culturais que rolam em Rondônia, inclusive os lançados por editais, estão dentro de uma lógica mais pós-colonizada – um olhar mais romântico sobre a presença do colonizador. Eu queria fazer um trabalho a partir dos povos originários, e o que o Barzinho tinha começado me permitia isso. O que eu queria era pautar nas minhas músicas as defesas dos povos da floresta, e quando falo “povos da floresta”, estou incluindo os povos originários, os quilombolas, os extrativistas, os beradeiros, e também a fauna, a flora e os encantados que a ela pertencem.
Você falou desse extermínio do povo karipuna… Quando fui para cobrir o Festival Casarão em junho, foi minha primeira vez em Porto Velho, e me chamou atenção a predominância branca da população.
Pois é.

A história de Rondônia é uma história de muitos massacres, né?
Tu tocou num assunto muito importante, porque foi a partir disso daí mesmo, dessa perspectiva, que nasceu o “Karipunagem”. Se você fizer um trabalho de pesquisa a partir do que está escrito “oficialmente”, é uma história de branco, totalmente branco e totalmente do Sul do país. É tudo pelo olhar do cara que veio de fora. Não tem quase nada com um olhar que parte daqui, sobre os povos daqui. Quando falo do “Karipunagem”, quando tenho uma oportunidade como essa, falo não só das músicas, mas pauto essa resistência. Essa é a grande sacada: falar do álbum é pautar os povos karipuna, pautar os povos originários e os povos da floresta. Essa foi a minha estratégia também para que eu pudesse falar deles aqui.
E como é para você, Samuel, viver essa identidade em um lugar que adota uma postura sulista, onde inclusive é perceptível a xenofobia e o racismo? Pergunto não só como artista, mas do ponto de vista pessoal também.
É muito complicado, para mim e para meus outros companheiros que trabalham nessa plataforma de defesa dos povos da floresta. Você imagina que nós vivemos numa região onde se concentra mais garimpo, criação de gado e extração de madeira – só perdemos pro sul do Pará. Enquanto Estado, ele é “novo”, mas é um território antigo. Rondônia só virou Estado em 1981, antes era Território Federal do Guaporé – um nome muito bacana, indígena, e poderia ter virado Estado do Guaporé. Mas para você ver o quanto a colonização aqui é forte, o estado levou o nome de quem abriu as linhas telegráficas aqui, o Marechal Rondon. Fazer arte aqui – qualquer arte, não só música, mas literatura, artes plásticas, teatro, audiovisual – é algo em que a gente está tomando os cuidados necessários a todo momento. Pega o próprio “Karipunagem” de exemplo: ele é um álbum musical, mas é um álbum ativista, porque está denunciando a destruição da Amazônia numa região onde ela é dominada por quem destrói, e eles estão aqui em todos os espaços. Eles comandam o comércio, comandam a indústria, a política do Estado, todos os setores que decidem o dia a dia do rondoniense. Você falou do embranquecimento daqui, e isso porque você não teve oportunidade de descer pro interior de Rondônia. Se você saísse de Porto Velho e entrasse na primeira cidade na BR, que é Ariquemes, ou se chegasse em Vilhena, que é a última cidade na fronteira com o Mato Grosso, você ia sair estarrecido, porque você ia achar que está em um Estado do Sul! Não é só pela cor branca ser predominante: tu ia ver os costumes, o sotaque, a música… É como se eles ainda vivessem no Estado de onde vieram. Muitos deles não tratam Rondônia como um estado que pertence à Amazônia legal. tratam como se isso aqui fosse um um pedaço de Santa Catarina, sabe? Tem lugares que você, se você falar sobre Amazônia, se você falar chiando, se disser “manínho”, se usar o nosso dialeto beradeiro – você é tirado. E aí a gente se resume à capital pra trabalhar nossa musicalidade, mas mesmo assim com muita cautela, porque a gente sabe que vai ser reprimido. Nós vivemos em um dos estados mais bolsonaristas do Brasil. E junto com isso eles trazem um monte de pré-concepções: são negacionistas, negam que a Amazônia está sendo devastada; enfiaram na cabeça da população um monte de coisa nesse processo colonial que os trouxe até aqui. Minha esposa, Patricia Morais, também é artista, ela toca forró, mas um forró mais amazônico misturado com forró nordestino, em um projeto que se chama Baile do Norte, e estávamos brincando um dia desses que é louco que a gente tenha que se justificar por tocar a música amazônica em um estado da Amazônia (risos). Não tem muitos espaços locais que respeitem a musicalidade beradêra. Graças ao trabalho de vários artistas da música, do teatro, da literatura, do cinema, do audiovisual, a gente conseguiu fazer com que essa expressão se transformasse numa expressão cultural do portovelhense. A gente tenta mostrar essa musicalidade amazônica para os próprios Estados do Norte, mas também para fora, para que as pessoas também compreendam que o Brasil tem uma Amazônia aqui em Rondônia, porque a gente acaba apagado da Amazônia para o resto do país. As pessoas se voltam muito para Belém do Pará e Manaus quando se fala em música amazônica, e fica parecendo que Acre, Rondônia, Roraima e Amapá não pertencem à Amazônia por conta desse processo colonial. Porque sofremos duas colonizações: primeiro a dos portugueses, depois essa colonização interna, de quem veio do Sul do país e que de certa forma implementou aqui uma cultura que faz com que os povos nativos tenham vergonha de ser daqui, de fazer sua própria musicalidade ou falar da sua própria ancestralidade,
Eu não tinha essa dimensão até ter estado aí. Mas na hora que cheguei, já no primeiro dia falei:”parece que estou no interior do Paraná” (risos). Até porque o projeto urbano de Porto Velho é muito parecido com o de cidades de médio porte paranaenses…
É isso mesmo! Nós tocamos pelo Sonora Brasil em Londrina, no Paraná. Aí eu falei pros caras de lá, falei: “Mano, se vocês descerem em Ji-Paraná ou em Vilhena, é como se vocês estivessem em Londrina” (risos). Tudo é parecido: o centro comercial, as pessoas, as formas, a estética, sabe? Nada com a cara da Amazônia. E essa coisa da estética nossa está mudando, e isso da gente tentar fazer com que ela mude é muito novo também, entendeu? Porque a estética aqui é a estética do sul. Essa é a real.
É assustador porque isso é consequência de um processo muito violento, né? De todos os tipos de violência: física, cultural, política, ambiental…
Exato.
No show do Casarão, a questão ambiental chamou atenção de cara, assim como no disco: a música de abertura já traz isso na lata…
(sorri) Sim.
Mas aí vem uma diferença grande que senti entre o disco e o show. Ao vivo é muito mais pesado. No disco eu ouço bem a pesquisa que você falou: os ritmos latinos, a guitarrada, o carimbó, o brega. Mas ao vivo é porradão. Tem o groove, tem o sabor amazônico, mas o peso é inegável.
A gente tentou buscar no ao vivo uma parada mais visceral, e também tem umas questões de amadurecimento. Você grava um álbum de um jeito, mas depois que tu vai pro ao vivo, ele muda de forma espontânea. Quando tu percebe a vibe do ao vivo e a reciprocidade com a galera, você muda alguma coisinha. E a banda do show não é a mesma que gravou o disco. O João Luiz (guitarrista) e o Adriano Pato (baixista) não estão mais. Quem está comigo agora é o Valmir Johnson no baixo e o Watson Nascimento na guitarra, além do Júnior Lopes na bateria.
Uma das minhas preferidas do repertório é “Valha”, e só quando eu voltei para São Paulo que fiquei sabendo que a frase do refrão – “na boca de quem não presta, eu não valho nada” – aparece na parede de um presídio portovelhense.
(sorri) Esse presídio é a colônia penal da Ilha de Santo Antônio. Ele foi construído numa cachoeira que tinha aqui, onde depois foram instaladas hidrelétricas. Antes disso eram várias cachoeiras próximas, e durante a ditadura militar existia essa coisa de construir presídios em lugares afastados supostamente para dificultar a fuga dos presos. Quando eu estava fazendo o primeiro material da Quilomboclada, fui ao presídio, que já estava abandonado e deteriorado pelo tempo. Em uma parede estava escrito “na boca de quem não presta eu não valho nada”. Eu anotei, fotografei, e decidi trabalhar isso poeticamente numa música. Foi assim que nasceu a “Valha”.
De muitas formas, o Nordeste conseguiu fazer um diálogo da sua cultura com o resto do Brasil. Mas o Norte ainda é percebido como algo apartado, ou mesmo esquecido. Existe o custo amazônico, que dificulta muito a circulação, claro, mas você diria que há também uma questão de preconceito que isola o norte do Brasil?
O Brasil são vários “Brasis”, né? E alguns desses “Brasis” são muito soberbos, acham que só existe o Brasil dele e nem quer saber dos outros. Tem muitos que classificam o que se faz aqui como uma subcultura, algo que pertence ao Brasil mas não tem relevância. Além desse preconceito, tem também a nossa falta de enfrentamento. Ela não depende só de nós artistas, a gente já tem muito trabalho para fazer com relação à produção da nossa arte, da nossa música. Você sabe o trabalho que é lançar um álbum, criar música, lançar um single. Tudo isso é muito complicado, tem custos, etc, e a nossa cadeia produtiva meio que não existe. Ou melhor, existe mas está completamente desarticulada. Aí você tem os que têm poder de decisões, mas eles dependem de uma pauta política. Tenho conversado muito com a galera de Manaus, do Acre e de Roraima, o discurso é o mesmo: os decisores preferem investir não sei quantos milhões para uma dupla sertaneja vir tocar aqui, mas não querem investir no artista daqui. É tipo assim: eu, como Samuel Pessoa, vou correr, vou lutar para fazer a circulação do meu álbum, mas isso é um custo da minha luta para que eu mostre em outras regiões do país a musicalidade que é feita na mata amazônica, na mata rondoniense. Mas se eu dependesse do espaço político ou cultural dos setores institucionais que são responsáveis por isso, eu não sairia daqui. Pelo contrário, eu nem gravaria. Pior ainda, eu vou ficar aqui trabalhando num subemprego, porque eles nem consideram que o que eu faço seja arte que pode ser consumida. A percepção deles sobre cultura é deteriorada sem espaço para o artista local. Qualquer possibilidade de financiamento para que a gente possa fazer essa circulação é jogada no lixo. O Nordeste, principalmente o Pernambuco, conseguiu se destacar principalmente por conta do movimento manguebeat. Não foi só a música do Chico Science – teve toda uma cadeia, uma uma atmosfera que envolveu jornalistas, produtores, designers, e também teve gente de lá que viu que se o manguebeat desse certo, seria bom para o Estado. Como de fato foi. Chico andava com a bandeira do Pernambuco, ou seja, ele estava vendendo o estado lá no Sul, porque todo mundo dessa atmosfera entendeu o processo, enquanto a gente aqui no Norte ainda está tentando convencer gestor público da importância de se valorizar um artista local. Mas aqui tem deputado pedindo vista para o orçamento da Cultura, questionando se não pode ser investido em outras coisas. Imagina como é a mentalidade política da galera daqui, que é comandada por uma assembleia legislativa ou por uma câmara de vereadores cheia de gente que não é local, os caras vieram de fora para cá. Não estou sendo bairrista, não. O que quero dizer é que esse tipo de cara não olha para Rondônia com a perspectiva de criar uma política que impulsione a cultura do Estado – porque na cabeça dele não tem uma cultura “válida” no Estado! Esse cara quer aniquilar tudo que ele puder. Como que a gente vai conseguir fazer para nossa música, nossa arte, sair do estado de Rondônia? Nós conseguimos um destaque agora porque a gente circulou pelo maior programa de circulação musical do país, que é o Sonora Brasil, do Sesc. Para nós, foi um feito. A galera do audiovisual também vai, batalha, produz documentário, se inscreve nas mostras de cinema do Brasil e do mundo, ganham prêmio, e só aí “aparecem”. Mas é tudo a partir da ação dos artistas, entende? São os artistas que fazem esse corre.
– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.
