Festival de Brasília: “Privadas de Suas Vidas”, de Gurcius Gewdner e Gustavo Vinagre, já nasce um clássico

texto de Leandro Luz

“Privadas de Suas Vidas” (Gurcius Gewdner e Gustavo Vinagre, 2026) já nasce um clássico. “A whole lot of nasty shit”, para tomar emprestada uma frase em inglês de um usuário canadense do Letterboxd que, raivoso, detonou com força e vontade o filme. Já que o assunto é “privadas assassinas”, não tinha mesmo como evitar uma porção de merda nojenta. Os agradecimentos a John Waters e a José Mojica Marins nos créditos finais não deixam dúvida de para onde se está apontando a mira – a carreira de ambos os cineastas também não -, mas é pensando no contexto de produção que as coisas no entorno deste projeto ficam ainda mais interessantes.

De fato, o longa-metragem dirigido por Gewdner e Vinagre está repleto de coisas desagradáveis. O que fascina, no entanto, é notar como um argumento típico de uma produção de baixíssimo orçamento se transformou praticamente em uma superprodução – guardadas as devidas proporções – nas mãos da RT Features, capitaneada pelo produtor Rodrigo Teixeira. Antes de chegar ao 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o filme passou por espaços internacionais importantes como o de Rotterdam, na Holanda, e o BAFICI, na Argentina, além de ter circulado por festivais voltados ao horror e à fantasia, como é o caso do MOTELX, em Portugal, e do Fantasia, no Canadá, onde venceu o prêmio de melhor filme da competição.

As imagens e os sons desagradáveis – e divertidíssimos, diga-se de passagem – de “Privadas de Suas Vidas” ocupam um vácuo pouco explorado entre o cinema radicalmente controverso da Canibal Filmes, de Petter Baiestorf, e a abordagem fantasiosa da Amblin nos anos 1980 e 1990, capitaneada por Steven Spielberg. Podemos dizer, sem forçar a barra, que estamos diante do encontro entre “O Monstro Legume do Espaço” (Petter Baiestorf, 1995) e “Arrombada – Vou Mijar na Porra do Seu Túmulo” (Petter Baiestorf, 2007) com “Poltergeist: O Fenômeno” (Tobe Hooper, 1982) e “Gremlins 2: A Nova Geração” (Joe Dante, 1990).

Há uma suavização evidente na composição dos planos, no tratamento final da imagem, como se os cineastas estivessem comprometidos a traduzir certa veia splatter (subgênero que costuma trazer para o centro da narrativa o banho de sangue, as mutilações corporais e demais representações gráficas de violência extrema) para um público não-iniciado. Embora a escatologia também esteja colocada nessa centralidade, o filme soa mais como uma homenagem aos filmes B do que propriamente um exemplar da categoria. A escatologia, aliás, é um conceito costumeiramente ligado à ideia de fim do mundo e ao esquadrinhamento do que acontece com o ser humano depois da separação entre o corpo e a alma imortal, ou seja, nos ajuda a raciocinar a respeito dos dejetos inerentes à decadência humana.

Entre erros e acertos, se ergue um filme memorável. E aqui, gostando-se mais das virtudes ou odiando a proposta em função de seus deslizes, é difícil sair ileso da sessão. “Privadas de Suas Vidas” começa com um prólogo nada tímido. Malu tem dois filhos e, atarefada na organização de um evento, precisa lidar com as crianças em função do atraso do pai e ex-companheiro, já apresentando um primeiro comentário acurado sobre a paternidade e suas ausências. Após perder um dente de leite, o menino se esconde no banheiro em busca de apreciar o próprio sorriso banguela no espelho e tem a perigosa ideia de escalar o vaso sanitário para atingir a altura necessária ao ato narcísico. Entre um pulo e outro, a criança sofre um acidente terrível, e a cena choca pela quantidade de sangue aplicada – ainda que a curta duração do plano busque evitar problematizações -, funcionando quase como um comentário preocupado às notícias reais de pessoas que se acidentam com a cortante cerâmica do objeto. Dez anos depois, Malu tenta seguir a vida como pode, com dificuldades de se relacionar com sue filhe não-binárie, Gênesis, e carregando consigo um verdadeiro trauma intestinal.

Martha Nowill, vencedora do candango de melhor atriz em Brasília, encara Malu não apenas pelo viés da comédia, mas com uma intensidade dramática que chama a atenção desde o prólogo. Os cabelos loiros da atriz e seu figurino com estampa de onça, presente em uma das sequências mais marcantes do filme, ajudam a compor uma personagem complexa, que luta para sustentar a sua família sozinha e servir de exemplo para Gênesis. Por sua vez, elu é interpretade por Benjamin Damini, que opta por um registro mais sisudo e revoltado, típico dessa fase da adolescência. Enquanto Gênesis tenta se afirmar para a mãe e para a sociedade, Malu é a todo momento atrapalhada pela prisão de ventre que sofre em função de um trauma. Escatologia, mais uma vez, é a palavra de ordem para Gewdner e Vinagre.

Com esse monstro estático – o vaso sanitário se transforma, portanto, nessa criatura ameaçadora e, em vários momentos, sobrenatural – que obriga as pessoas a irem até ele, e não o contrário, como costuma ser a ordem no cinema de horror, os protagonistas da festa são o cocô e o ranho. São incontáveis as cenas nas quais os excrementos mais bizarros invadem a tela. Como nas histórias em quadrinhos, os cineastas trabalham com bastante liberdade, provocando os limites tanto do público quanto do valor de produção do filme que eles têm nas mãos.

“Poderia olhar a minha privada? Ela continua fazendo uns barulhos estranhos”, pergunta Katka, personagem delirante interpretada por Olivia Torres, uma das moradoras do prédio no qual boa parte da trama é ambientada. A mesma personagem atesta: “algo terrível está acontecendo neste edifício”; seria este um aceno para “Noite em Chamas” (1978), filme catástrofe dirigido por Jean Garrett? Esta pérola do português radicado na Boca do Lixo trata de diversos personagens que passam uma noite em um hotel em São Paulo enquanto um dos funcionários entra em crise existencial e planeja explodir tudo. Embora mais radical no uso da violência, “Privadas de Suas Vidas” não chega nem perto do erotismo empregado por Garrett, mas os traços apocalípticos de ambos os filmes podem ser relacionados.

Raios, trovões e excrementos dos mais diversos – diarréias, vômitos e catarro – estão presentes não só no drama principal vivenciado pelo núcleo familiar como também nas diversas esquetes protagonizadas pelos residentes do prédio. Maria Gladys e Otávio Müller fazem aparições ótimas, ambos muito confortáveis em seus papéis. Caetano Gotardo contribui com a interpretação chamativa de um palhaço e com a composição de duas belas canções. A estrela underground Bruce LaBruce faz uma rápida e divertida aparição. Por fim, aos interessados, vale o aviso da presença ilustre de Gilda Nomacce, nossa rainha do grito, nos créditos finais. “Privadas de Suas Vidas” não poderia acabar com mais vigor: com liberdade poética, a privada assassina finalmente ganha mobilidade e se joga do alto do prédio, apenas para cair como um foguete na cabeça de uma mulher que grita.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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