Literatura: “Libertadores da América”, de Alejandro Droznes, dá aula de história nas arquibancadas

texto de Bruno Capelas

Entre estádios e viagens pelo continente, trabalho do escritor argentino serve como convite para leitor brasileiro mergulhar na construção da América do Sul

O futebol é um esporte de estranhas ironias. Quis o destino que o pênalti batido por um holandês – avis rara nos gramados sul-americanos – impedisse a Taça Libertadores da América de registrar um feito histórico em 2026: ter quatro representantes de um mesmo país nas semifinais da competição maior do continente. Seria o auge do domínio brasileiro no certame, coroando uma sequência de sete anos seguidos com taças levantadas por equipes da Terra de Santa Cruz. Uma hegemonia tamanha que, por vezes, até podemos nos esquecer que há outros times neste cantinho do planeta – o que não seria exatamente uma novidade, dada a postura isolada do Brasil quanto a seus pares na América Latina.

Em meio a essa coincidência, vem a calhar a publicação no Brasil do curioso “Libertadores da América”, do escritor argentino Alejandro Droznes. À primeira vista, poderia se imaginar que é um livro sobre a história do torneio, uma narrativa cheia de sangue, suor e trapaça. Basta folhear o exemplar, porém, para se perceber que o volume passa longe dessa intenção. Em dez capítulos, “Libertadores” é um misto de relato de arquibancada, diário de viagem e aula de história da região, apresentando ao leitor brasileiro nomes como José de San Martín, Simón Bolívar, Juan Lavalle ou Antonio José Sucre.

Logo no primeiro capítulo, por exemplo, Droznes aproveita uma viagem a Guayaquil para revisitar dois momentos históricos. Um, bastante pessoal: a semifinal entre o Barcelona local e o seu River Plate pela Libertadores de 1990, uma das primeiras partidas de que o autor se lembra na vida – o confronto, decidido nos pênaltis, foi narrado pela imprensa argentina com “suspeitas de corrupção na arbitragem, agressões dos policiais equatorianos aos jogadores argentinos, falta de água e de luz no vestiário dos visitantes, um pênalti dado de presente ao time local e todo tipo de irregularidade”. Familiar, não?

Outro, decisivo para a definição do continente tal como ele é hoje: o encontro entre San Martín e Bolívar à beira do rio Guayas. O primeiro, responsável por guiar os exércitos de Argentina, Chile e Peru nas batalhas contra os espanhóis, acreditava em países independentes e autônomos. O segundo, vitorioso na libertação de Nova Granada (a atual Colômbia), Venezuela e da então Governança de Quito, almejava uma grande pátria unificada no que hoje se entende como Grande Colômbia.

Mais do que uma celebração, porém, a reunião buscava definir o futuro daquela região específica, opondo duas visões sobre a América. Além disso, San Martín estava em posição delicada: depois de tantas batalhas, suas tropas não estavam mais mobilizadas e fortes o suficiente para encerrar o domínio espanhol no continente, expulsando os colonizadores da região do Alto Peru. O encontro também serviu para selar o fato de que seria Bolívar o responsável pela tarefa – não à toa, o território acabou homenageando o libertador na hora de escolher seu nome autônomo: Bolívia.

Em vez de simplesmente narrar esses acontecimentos, porém, Droznes os tece numa trama de muita sensibilidade, discutindo as muitas versões por trás dos fatos e fazendo perguntas sempre que necessário. É essa natureza questionadora, por exemplo, que o leva até Caracas para entender como é vivido o futebol no país sul-americano que prefere comemorar home runs em vez de gols. Ou que impulsiona o escritor a buscar a kafkiana sede da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) em meio à cidade de Luque, um subúrbio da capital paraguaia Assunção. Ou ainda, faz com que ele vá até a pequena cidade boliviana de Yacuíba, quase na fronteira com a Argentina, só para testemunhar um jogo da Copa Sul-Americana que nem na TV passou direito.

Em todos esses lugares – e ainda em Potosí, San Miguel de Tucumán ou Riobamba –, a prosa de Droznes cativa pelo cuidado com os detalhes, convidando o leitor a passear com ele entre museus, arquibancadas, quartos de hotel, restaurantes acanhados e rodoviárias brutalistas. É um livro bastante sensorial, não só pelas descrições dos gritos de torcidas ou das iguarias gastronômicas da região, mas também pelo excelente trabalho gráfico da editora Pinard, responsável há anos por trazer páginas esquecidas e/ou subestimadas da literatura latino-americana ao País.

Curiosamente, é justamente quando fala do Brasil com maior atenção que o livro encontra seu ponto fraco. Escrito ao longo de 2018, “Libertadores da América” pousa no país em meio às oitavas de final do torneio daquele ano, no encontro entre Santos e Club Atlético Independiente – até hoje, o maior vencedor da Libertadores, com sete taças. Talvez por justamente partir do ponto de vista argentino, Droznes dá quase mais importância ao clube de Avellaneda e sua rivalidade com o Boca Juniors do que ao time de Pelé, num relato entremeado à história do Tratado de Tordesilhas e da fuga de Dom João VI ao Brasil no século XIX.

Apesar da pisada na bola – talvez de menor importância para os brasileiros justamente num livro que tem para nós o mérito maior de evidenciar nossos vizinhos –, o escritor chuta no ângulo numa das questões centrais da nossa identidade nacional. “No caso do Brasil, a independência ocorreu porque o filho do rei desobedeceu a seu pai. As coisas aconteceram assim. Portanto, vá lá saber o que os brasileiros entendem por ‘Libertadores’”, brinca o argentino. (Em tempo, vale o adendo: no curto mas informativo prefácio, o historiador Matías Pinto faz um contraponto à narrativa do hermano com uma coincidência curiosa. Poucos lugares lutaram mais pela independência do Brasil que a Bahia – e talvez não seja à toa que o time que dá nome ao Estado tenha sido o primeiro representante do país no torneio continental, lá em 1960).

A literatura também é um lugar de estranhas ironias: quis o destino que, justamente no ano em que Droznes escrevia seu livro, uma briga entre as torcidas do Boca Juniors e do River Plate levasse a decisão da Libertadores da América para a capital da metrópole de séculos atrás: Madri. Era um retorno, mas também uma despedida: a partir do ano seguinte, a finalíssima do torneio seria disputada em jogo único e campo neutro. Houve quem acreditasse que era o começo do fim – afinal, com uma entidade tão esdrúxula quanto a Conmebol, não seria surpreendente que o jogo decisivo do mais latino dos troféus começasse a ser disputado em Miami, “perto dos EUA e longe de Deus”. Felizmente, não foi o que aconteceu.

Organizada em apenas dez dias, a final disputada no Santiago Bernabéu deu a Droznes a chance de encerrar seu livro com uma singular poesia aprendida em anos e anos de cancha, em uma noite em que a antiga colônia pode ocupar o coração da metrópole. Quis também o destino que aquela tenha sido a última vez que o grito de “campeón!” ecoou pelo continente – e se os tempos parecem ter mudado, eis aqui um bom livro para recordar as glórias e tragédias eternas da América do Sul.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010. Igor Müller é locutor de rádio e um dos responsáveis pelo Programa de Indie. 

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