Faixa a faixa: Julia Neff apresenta “fine.”, um disco sobre o sofrimento de lidar com doenças crônicas, depressão e ansiedade

texto de Marcelo Costa
faixa a faixa de Julia Neff

Em alguns momentos durante o dia , nos encontramos com pessoas que perguntam: “Oi, como você está? Tudo bem?”. A resposta, prática, é quase sempre um “estou bem, e você?”. Porém, essa troca de gentilezas sociais é, muitas vezes, encenada, afinal ninguém está realmente bem nesse mundo cada vez mais maluco e tóxico. “fine.” (2026), primeiro disco solo da artista canadense Julie Neff, tateia essa questão.

Composto em diferentes lugares do mundo (Toronto, Colúmbia Britânica, Rio de Janeiro), “fine.” trata de maneira honesta sobre o sofrimento de lidar com doenças crônicas, depressão e ansiedade. “As pessoas me dizem que estou indo bem, que compareço e faço um bom trabalho, que consigo fazer música, que estou ótima — quando, na verdade, muitas vezes não estou nada bem”, revelou Julie em uma entrevista.

Produzido por Cris Botarelli (Far From Alaska, Ego Kill Talent) e precedido por três EPs (“Growing Pains”, “Catharsis” e “Over It”), “fine.” combina rock, pop e country em influências que vão de MARO, Kimbra e Stromae a Florence and the Machine e Avril Lavigne. O resultado é, parafraseando Marina Mole, responsável pela arte da capa de “fine.”, um disco “muito íntimo e confessional, sem se esconder por trás de metáforas”. Abaixo, Julie Neff comenta cada uma das faixas de “fine.”

Faixa a faixa por Julie Neff

01) “twin flame” – Uma busca por gratidão e aceitação no fim de uma amizade de chamas gêmeas. Também conhecida como almas espelhadas, essa é uma conexão tão intensa, criativa, inspiradora e ardente, que simplesmente não consegue durar a longo prazo.

02) “TRAPPED” – Explora a dor e a frustração de ser uma pessoa ambiciosa dentro de um corpo que luta para funcionar. Ela fala sobre os momentos de desolação ao lidar com uma doença crônica, sobre ver a vida passar por você e perder as coisas com as quais você mais se importa. Você quer gritar, chorar, se libertar, mas a sensação é a de estar se movendo pela lama.

03) “swimming in the ocean” – Fala sobre um novo amor, ou talvez uma paixão. Aquele momento em que você realmente quer que a pessoa seja “aquilo”, mas fica nervosa a cada interação. É sobre tentar surfar as ondas da vida sem conseguir prever qual será o resultado.

04) “fine!?” – É um pedido de socorro silencioso, abrindo as cortinas para compartilhar o que realmente acontece dentro de alguém com uma doença crônica. Apesar de continuar comparecendo ao trabalho e a eventos, usando maquiagem e parecendo estar “bem”, a luta interna continua. É um passo em direção a compartilhar o que está acontecendo em vez de sofrer em silêncio.

05) “at my grandparents” – É uma vinheta divertida e nostálgica. Foi escrita enquanto eu tocava um piano de estúdio que tinha exatamente o mesmo som do piano dos meus avós, levemente desafinado. Compus essa música sobre todos os pequenos momentos e memórias das quais sinto falta do tempo em que cresci na casa deles.

06) “SOMETHING” – Em um mundo de relacionamentos sem compromisso e ambiguidades nos encontros amorosos, essa música pede para a pessoa simplesmente dizer ALGUMA COISA, de um jeito ou de outro. Nós estamos juntos ou não estamos? Eu consigo lidar com qualquer uma das duas opções, apenas me diga… ALGUMA COISA.

07) “Do You Want to Love Me?” – Essa música é para qualquer pessoa que já passou tempo demais na “friend zone”, onde talvez a linha tênue que separa as coisas tenha se confundido algumas vezes. Aí você se pergunta se aquela pessoa poderia ser a pessoa certa para você, mas não quer arruinar a amizade perguntando. Com um pouco de bravura e uma grande ode à produção musical no estilo Avril Lavigne, essa música é inteiramente sobre colocar o seu coração pra jogo.

08) SING ME TO SLEEP – O que começou com a intenção de escrever uma canção de ninar no auge da pandemia, acabou se transformando em um rock com pegada blues e um apelo por conforto. Baseada na história real de não conseguir dormir por semanas depois de assistir a um documentário verdadeiramente assustador.

09) “i’m so tired” – Surgiu durante um período em que eu não tinha certeza se conseguiria seguir em frente, não apenas com a minha carreira musical, mas em geral. Quando o esforço parecia insuficiente e o caminho parecia realmente incerto. É um lembrete de que não precisamos saber como as coisas vão terminar, mas que vale a pena continuar.

10) “CHEAP fallbacks” – Um revide a todas as mensagens confusas e contraditórias dos relacionamentos modernos, que te mantém por perto só para o caso da outra pessoa decidir se comprometer. Às vezes, as pessoas estão dizendo e mostrando o oposto do que querem através de suas ações, e talvez você não queira acreditar nelas. Mas quando você coloca tudo isso no papel, começa a parecer uma desculpa muito esfarrapada.

11) “enough time” – Uma pequena meditação para lembrar que não há problema em as coisas levarem tempo. Um lembrete para se estar presente e não ter pressa.

12) “Edge of Distortion” – Foi escrita na praia, no Rio de Janeiro, no fim da minha primeira turnê. É um reflexo de um momento de vulnerabilidade em que eu estava aprendendo a acreditar em mim mesma, me perguntando se estava no caminho certo. Às vezes, parece que você está forçando um resultado, mas o melhor que podemos fazer é seguir nossa intuição e tentar ganhar um pouco de perspectiva de tempos em tempos.

Capa
A direção de arte e o design da capa são assinados por Marina Mole, e a fotografia por Bruna Hissae. A respeito da identidade visual, Marina conta: “A Julie me trouxe referências da arte japonesa kintsugi, que significa emendar com ouro, a ideia de criar algo bonito a partir de coisas que se quebraram. Além disso, ao ouvir o álbum, senti que a Julie cantava de um lugar muito íntimo e confessional, sem se esconder por trás de metáforas, é como se ela estivesse ‘dando as caras’, então fez todo sentido ter uma capa que é um close do rosto dela. Unindo essa ideia ao kintsugi, pensamos em como trazer o dourado para a imagem, o que resultou na tipografia e na lágrima”.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto e também a foto da capa de “fine.” são de Bruna Hissae

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *